Sobre terças-feiras às 15h.

3 da tarde. Eram 3 da tarde. Entrou num amorfo simpático a luz de uma primavera hostil. Entrou e me disse o horóscopo mais triste, mais pessimista que já se viu. Rimou, irritou e mostrou o destino visto pelas palavras que tanto aprecio. Não curti, não sorri, não me senti útil. Me conduziu a um estado adorno, daqueles que enfeitam os sentimentos que se lê nas palavras. Chuva. Só repeti com a estratégia do corpo as figuras tão conhecidas de uma pessoa ansiosa. Reli, ouvi música, andei de um lado para o outro. Senti paz por momentos em músicas e melodias que fizeram sentido. Rejuvenesci. Uma mágoa distante bateu em riste na membrana mais profunda da mente que se diz ágil. Frio. Criei, sob circunstâncias babacas, teorias acerca da mortalidade. Vivo ou morto, acresço sob formas estranhas e mereço de prontidão a mais recíproca condenação de ódio que já se viu. A noite cai, a lua invade, a escuridão enobrece. Encontro no vazio a mesma teoria mística que todas as palavras insistem em dizer coisas que não dizem nada.

Assim como este texto.

Perdão.

Whatever Sorry

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Intervalos sobre o mesmo tema

A gente vive num interlúdio. Dois atos principais, naquela meiuca de poucas palavras e beijos intensos. Naquela conversa em meio ao barulho de todas as pessoas. Sem muita música, sem espaço pra tanta poesia. Sem a intensidade devida, sem os acordes certos.

Você não está comigo no refrão. Não está comigo quando tudo explode num mar de felicidade ou naquelas tristes palavras que fazem tudo se arrepiar. Vivemos nos meios, nas pontes, nas modulações que tornam a música especial. E a gente sempre sobe o Tom, numa ausência tua difícil de aceitar, numa eterna espera de viver ao lado teu.

Quantos atos, quantas estrofes a gente vive pra chegar no refrão, pra chegar ao fim da música. Me deito na cama solfejando essa letra e tentando entender o fim. Vejo você ali, sinto sua pele e seu cheiro. Tento entender o começo. Tento entender o que o autor quis dizer com a palavra saudade que é recorrente em tudo que é frase. Me pego dormindo acordado, vivendo momentos que não aconteceram, imaginando outros finais, conjecturando tudo que ainda vai acontecer. E, mais intensamente, me pego tentando entender se eu devo interferir na letra, na música, no arranjo. 

Tento ser o autor da nossa música, alterando a letra, os sons, a melodia. Sou o compositor frustrado por nunca acabar a obra. Sou o compositor desesperado porque apenas as minhas frases não fazem um fim ou um novo começo. Não sei suas frases, suas intenções, seus tons e mil dons geniais. 

Sou só a metade.

A metade de todos os sons que já fizemos.

Serei a metade dos sons que virão.

Que assim seja. E que seja logo.

Whatever happens.

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I’ll miss u

Entre as portas do amanhecer e as ondas da escuridão a minha vontade permanece no limiar da luz. Penumbra de amor, vontade de estar junto. Entre a ignorância do sentimento e a racionalidade do encontro, permaneço com o coração justo, apertado, meio doído. Vergonha do sentimento, insegurança do contato. Vivo dias naquele lusco fusco do tempo, quando já se sabe que a noite chega, mas se quer viver o dia. O adeus mais próximo, o fim de uma coisa que nem começou. O medo da escuridão, do vazio profundo que é completado com doses cavalares de todas as coisas que não são você. Doses cavalares de toques e beijos que não são os seus. Naquela despedida, à meia luz, sorrio de canto de boca, pisco profundamente e descubro, neste momento, que quero viver no escuro. Não na escuridão, mas no escuro dos olhos fechados, rindo com o coração e com a boca colada nos seus mais profundos e sinceros goodbyes.

Whenever You Come Around

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Foco

Entrou a noite de bolinhas brancas

num quarto escuro à meia luz

introduziu nuances de cor com feixes de luz autônomos

sem muitas imagens e nem pessoas

atravessou a sala entre os móveis

ziguezagueando entre as roupas jogadas no carpete encardido

invadiu as pressas meus olhos e pupilas

que procuravam sentido no lusco-fusco.

E, sob a égide da máxima escuridão,

a luz apareceu dando alimento ao que mais aprecio na vida: a falta de foco.

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Olho do umbigo

O olho cansado, a pele exausta, a cabeça ferida. Entre as peles do corpo estão órgãos maculados de inocência, respeito e sofreguidão. Sua intenção clara, amorfa, paciente, seduz até a mais voraz e dedicada espécie de gente. Retrato capaz de incentivar a mordaça de todos os detentores da hipocrisia do amor. Seu perfil inerte e sedutor traduz em suma a riqueza e a veracidade daquilo que sempre buscou, por mais contumaz que todas as atitudes simulem. Entre o parto do ato, a ansiedade da denúncia, a iminência da declaração não sobrepujam maiores incidências. Estas são meras fagulhas de ardor que proliferam entre todas as pessoas que se tornam mais pessoas por conta de outras pessoas. Todos nós.

É oca, tola, perspicaz porém. Sua anedota sangra por entre os olhos raivosos diante da passividade do sexo oposto. Suas mãos suam por entre as rugas e cortes da sua vida já um tanto desgastada. Seu temor é visível nas ancas, nas pernas e no colo, por mais adornado que lhe pareça o espelho. Nada esconde mais o pavor da solidão. Nem mesmo o silêncio de um bom livro e o tilintar da sua taça de vinho.

Whatever I’m talking about

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Instrospecção

Aquela alma calma, recôndita e serena entre a pessoa translúcida e a fraqueza aparentemente estúpida mostra a riqueza da face obscena. A espera descansa e esbanja na letra aquilo que prova que a magia é maior e mais latente que qualquer anomalia. Entre as frases tristes, chorosas, se vê um mundo de outras coisas claramente menos enigmáticas. Entender as palavras é fácil. Entender a alma humana é complicado, mas é uma das coisas pra qual mais tenho talento na vida. Acredito nisso piamente.

Whatever comprehension

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Palavras sem leitura

Essa mania constante e soberba da forma mais contrastante de dizer palavras. Essa forma abstrata, ignorante e infame de tratar o que é complicado como se fosse simples. Ignorar, ridicularizar, mostrar ao extremo que as partes que formam o todo parecem frágeis demais frente aos acontecimentos recentes. Subestimar pessoas, julgar métodos, mensurar o destino a fim de manipular a história das pessoas e das coisas.

Entender o olhar e o franzir da testa. Saber que o lábio torto demonstra insatisfação e as covinhas nem sempre são tão amigáveis quanto a inocência de uma criança.

Sensibilizar a razão requer prática.

Racionalizar o sentimento é sempre – sempre! – uma forma decrépita de mostrar ao mundo que o concreto não é mais duro que a sua cabeça.

Whatever sign

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