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Milhas e milhas.

Minha vida sempre foi a minha vaga memória das minhas viagens. Mesmo nas épocas em que não viajei – por motivos diversos -, fiz planos e mais planos, contei com pessoas e “estive” em lugares inimagináveis. Sempre tive uma tara louca por conhecer diferentes mundos, culturas, pessoas e a natureza rica de cada pedaço de terra ou de mar. As coisas fora do nosso cotidiano são tão lindas que inspiram sentimentos inexplicáveis pra mim. Cada cheiro, cada sabor, cada cor que a gente vê tem um significado único. Pobres os que viajam, viajam e não percebem a beleza e a oportunidade daquilo que vivem.

Eu tenho na minha cabeça uma viagem perfeita para fazer com cada pessoa que amo. E não se trata de criar expectativas ou coisas assim. Trata-se exclusivamente de conhecer aquele lugar junto. Trata-se de dividir uma experiência sagrada de conhecimento e criar um laço ainda maior que permanecerá imortal na sua história de vida. Esse é meu tesão. Ir o mais longe que puder pra depois voltar, pois não adianta realizar seus maiores projetos, proezas se, algum dia, você não voltar pra porta de casa. Ou, na melhor das hipóteses, tornar esse lugar a sua casa.

E eu quero isso mais e mais a cada dia que passa. Quero lugares novos, conhecidos com intensidade e maestria. Quero sobrepujar o turismo, invadir o desconhecido, despertar o medo e administrar todos os meus desesperos.

Nossa vida é muito curta pra gente ficar repetindo os mesmos caminhos. Essa ânsia que me domina é basicamente incontrolável. Os olhos de quem viaja mudam e com eles mudam também a sensibilidade. Você começa a se conhecer melhor, começa a apreciar coisas diferentes e cria parâmetros para dar valor a coisas pequenas e insignificantes até então.

Abrir os olhos numa manhã em outro lugar que não a sua casa tem benefícios incríveis à alma. E, se você puder escolher a pessoa que estará ao seu lado nesse dia, saiba que esse será um dos momentos em que você esteve mais próximo da felicidade plena.

Não esqueça das suas viagens. Não esqueça dos seus momentos. Não esqueça que as marcas deixadas na gente só importam se a gente se importar com elas, seja pro lado bom ou ruim.

Hoje, aqui nesse quarto escuro, solitário e cheio de vinho, eu sonho com a próxima viagem. Sonho com a próxima vez que abrirei os olhos e terei a certeza de que as coisas não são – e nunca serão – em vão.

Whatever you are

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Eu vou, eu vou… pra lá agora eu vou!

Meus pés sujos, tanto quanto as minhas mãos, andam pelo asfalto, ora frio e ora quente, procurando algo que eu já sei que estará lá. O que dá a direção são as tão tracejadas linhas que perfazem o caminho da minha felicidade. Elas já estão lá, desenhadas uma após a outra e esperando que eu ligue os pontos e pinte, como se fosse um caderno de atividades para crianças.

Quando se é criança é apenas mais uma coisa que nós fazemos para exercitar a cabeça e para dar alguns minutos de sossego para nossos pais. Agora não. Agora é diferente. Agora as coisas exigem mais da gente. Exigem traços mais perfeitos, cores mais sutis e paisagens mais belas. Exigem também uma concentração e um foco para que os desejos se concretizem e não nos percamos pelo meio do caminho.

Um passo após o outro e vamos deixando pra trás o que éramos minutos atrás. Aprendi, a duras penas, que eu mudo. Que as minhas ideologias e sentimentos amadurecem e me tornam, ao contrário do que sempre pensei, mais forte e sereno e não fraco e covarde. Aprendi que minha tristeza e a minha felicidade caminham juntas nessa estrada, sempre de mão dupla, como não poderia deixar de ser.

Caminho entre esses dois mundos paulatinamente, sempre procurando o centro, a faixa branca que delimita as minhas atitudes. Há o medo constante que a estrada suma, acabe e não nos leve a lugar nenhum, mas mesmo assim ainda há o prazer inenarrável de ir. Sem muito otimismo e sem nenhum pessimismo. Aceitar as curvas e tentar desenhá-las de modo que possamos andar com relativa segurança e com os pés fincados no chão. Nem que seja apenas um deles.

Ao final, lá no horizonte, ainda bem longe da meta, a estrada ainda é de terra, sem traços, sem asfalto e sem limites. A construção é o que importa. O caminho é a glória. O destino é apenas inevitável.

Whatever highway

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Realidade?

O carro na estrada naquela tarde era apenas o prenuncio de algo maior. Um certo silêncio e desconfiança permeava o ar, só decorado pelo som baixo e bucólico que ecoava nas caixas de som. As duas pessoas dentro do carro se entreolhavam com o canto dos olhos, mas sem nunca fazer muitas perguntas. Tentavam tirar tudo que podiam um do outro sem dirigir nenhuma palavra ao outro. Apesar do silêncio, não era uma situação perturbadora. Muito pelo contrário. A falta de som era apenas um complemento de algo intrínseco no ar e que os dois sabiam que iria acontecer. E aconteceu.

Nos dias e noites intensas de amor que sucederam a viagem, algo mágico invadiu aquelas almas e corações. O amor, tantas vezes subestimado e posto de lado, surgiu de trás de um monte de sentimentos racionais e tornou as coisas extremamente simples, apesar das complicações.

Um simples olhar nos olhos de manhã ou a saudade incontrolável mesmo quando você sente o outro perto. A eterna trilha sonora que tranqüiliza o mundo mesmo quando tudo está caindo pelas tabelas ou os pensamentos descoordenados que começam a fazer sentido.

Os sonhos começam a se tornar realidade, mesmo que continuem sendo apenas sonhos. Essa é a verdade que buscamos a vida toda. Concretizar os sonhos, mesmo que eles estejam distantes de nós. É óbvio que alcançá-los é ótimo, mas dividi-los, muitas vezes, pode nos trazer sensação semelhante. Dividir ao invés de multiplicar.

O casal, enlameado de amor, tem vontade de morar nos olhos do outro ou de ter uma casa e um cachorro morando no jardim. Tem vontade de acordar cedo num domingo e apenas tomar café enquanto pensam e sonham, juntos, o que serão da vida.

E o melhor: Podem ser tudo o que quiserem ou serem apenas aquilo que são naquele momento. Afinal, isso é o que importa.

O que eu quero?

Eu quero tudo isso todo dia. Silêncio que não perturba. Intimidade infinita. Vontade de morar nos olhos. Acordar no domingo de manhã e preparar café. Vê-la acordar usando a minha camisa do AC/DC toda amassada. Sonhar os seus sonhos e ter a certeza de que a sua felicidade é tão grande quanto a minha.

Só isso que eu quero. Só.

Whatever matters.

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Palavras que não dizem "ni".

Quanto sonho e quanta fala nessa tarde livre de fantasia. Quanta graça e quanto mistério depois da esquina de cada rua. Também precisa a lágrima achar um chão da mesma forma que a distância sempre encontra a solidão. Sufoca a gente de carinho e namora o futuro na viagem sem volta. O quão possível de brincadeira nesse jogo que passa além da liberdade se esgota e lambe dentro da natureza ardente e tenra de um lençol branco. Essa é a saudade simples e sábia de um órgão que simplesmente não pensa.

Essa espera que arde cega e sedenta no jardim do peito. Quanta fala e quanto sonho nessa noite ocupada de alegria. E se faço feliz meu mundo e encho de estrela meu céu, chego ao fim do dia sem nada pra lamentar ou pra sofrer. Nenhuma arte e nenhuma sorte me comove mais que a coxa quente dessa bela e provocante idéia. O que me chega macio e que me soa como uma música numa manhã de sol é a parte mais clara e devota de um dia comum que chega e que eu torço pra nunca mais ir embora. E a língua trabalha mesmo assim, sem fala e nem palavra. Meu quase corpo, esgotado de pudor e inocência, olha para o outro lado da margem, sem nunca avistar o mar.

Eu olho pra frente sem nunca ver o agora. Essa é a minha encruzilhada: Um caminho de 4 rotas que eu perambulo e docemente volto ao mesmo lugar, sempre pela última vez. É o encantamento e a magia da inconstância.

Whatever crossroad

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Os olhos também envelhecem

Não vou contar aqui que viajei durante um mês por 8 países. Que falei e mal entendi 5 línguas diferentes e que conheci gente do mundo inteiro. Também não vou contar os apuros que passei e as coisas que, indiferentemente do país que estou, sou vítima ou vilão. Talvez depois.

Vou contar o fato que me fez sentir o que sou, literalmente.

Cheguei ao Brasil na segunda-feira, morrendo de saudade e de vontade de voltar. Fui às favas com meus sonhos europeus e interrompi, graças a Deus, esse sonho insípido e inodoro que tinha de habitar as terras do velho continente por puro desgosto desse nosso Brasil “3º. mundo”. Isso aqui é muito melhor, na minha humilde e singela opinião.

Voltei com saudade das pessoas.

Fui visitar minha avó, 96 anos, que mora sozinha e que nasceu na Espanha, um dos países contemplados e abençoados pela minha visita (sic). História pitoresca a da minha avó. Saiu de navio do porto de Cádiz aos 2 anos (1912) rumo ao Brasil. Ela, 4 irmãos e a mãe. Só ela e minha bisavó chegaram. O “resto” foi jogado ao mar durante a travessia. Só soube disso há um ano atrás e fiz questão de ir até lá e passar uma tarde inteira olhando para o porto que um dia foi o ponto de partida da minha história.

Voltei contente e feliz em poder dizer à dona Matilde que visitei a sua terra, nem que tenha sido por míseras 24 horas as quais passei, no mínimo, 16 bêbado. E só disse isso e mostrei uma foto da cidade, que, como ela mesma disse, não tinha lembrança alguma.

Com seu jeito tenro que só as vós têm, com seu modo amável que só as mães têm e com sua maneira que só as mulheres têm, ela me disse do alto de seus 1,50m:

– É filho, eu estou cansada.

E de dentro dos seus olhos não tão reluzentes quanto outrora, chorou o choro da vida, sabe-se lá pensando o quê.

E pela primeira, e talvez última, consolei minha avó cheio de lágrimas nos olhos, sabendo que os momentos passam, que a vida passa e que, apesar da beleza das coisas, a maior riqueza ainda está bem no fundo desses especiais e inesquecíveis olhos verdes.

I do care.

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Nos nossos devidos lugares

Na ordem dos lugares santos, imprevisíveis, inconfundíveis está o nosso lugar acima de tudo. Ninguém sabe onde fica, mas nós sabemos, cultuamos e desejamos, a cada fracasso ou insucesso, voltar pra lá correndo. Queremos ir pra lá também quando está tudo bem, mas sabemos que não podemos viver esse mundo de sonhos pra sempre. É o lugar extremo, onde vivemos o que não pode ser vivido em outros lugares. É o fabuloso mundo paralelo. É um planeta imaginário, ilusório, onde só nós sabemos onde fica e preservamos severamente esta apoteose. E, por mais que saibamos que todos nós temos esse lugar pra recarregar, o nosso lugar sempre parece melhor.

O meu lugar nunca foi apenas um espaço físico. Sempre aparentou, nas poucas vezes em que estive lá, um estado de espírito completamente único. Pareceu-me uma sensação, um contágio de felicidade, uma mistura de fatores difícil de acontecer e que não há receita, infelizmente. Essa combinação de sentimentos e paisagens ora me conforta, ora me entristece, pois a freqüência desse dínamo de prazer diminui em algumas épocas da vida. Esse sentimento confuso e amador aparece em diversas ocasiões. Seja presenciar o nascimento de uma vida, assistir alguém que precise ou estar postumamente presente na conclusão dessa jornada. Não importa.

O que realmente importa é saber o caminho para voltar pra lá, ou pelo menos morrer tentando. Porque sempre me pareceu que essa alegria tão contagiante vem embrulhada numa tristezinha de papel muito fino. E quando o dia raiar, o sol aparecer e começar a nos queimar a pele seremos apenas nós de novo, de volta a essa realidade imprevisível. Seremos nós aqui, e não lá. Lá aonde o nosso mundo não é tão feliz quanto parece.

Whatever place

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Sem tempo…

Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor despedaçado sob o néon amanhecido ruído de motor. A palavra amor no outdoor escrita em vermelho, dinheiro molhado de suor no bolso esquerdo trabalho, carne de baralho, fonte do desejo alheio não freia, na rua passeia e esse cão de guarda que não pára de latir a noite inteira. Lixo que não tem lixeiro na segunda-feira terça quarta quinta ou sexta-feira, lixo de domingo entupindo o bueiro, cascas de banana nas calçadas da fama, crianças para enfeitar as praças, mas não têm cama. Camelôs fugindo da sirene sob o sol a pino, o sangue da chacina escapou da jaula do jornal de hoje com a pose da sessão fashion. Cidade sem céu, mas com paisagens portáteis nas janelas das celas, nas paredes dos lares e os turistas estragando todos os lugares.

Arnaldo Antunes (grifo meu)

Whatever pee

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