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Eu vou, eu vou… pra lá agora eu vou!

Meus pés sujos, tanto quanto as minhas mãos, andam pelo asfalto, ora frio e ora quente, procurando algo que eu já sei que estará lá. O que dá a direção são as tão tracejadas linhas que perfazem o caminho da minha felicidade. Elas já estão lá, desenhadas uma após a outra e esperando que eu ligue os pontos e pinte, como se fosse um caderno de atividades para crianças.

Quando se é criança é apenas mais uma coisa que nós fazemos para exercitar a cabeça e para dar alguns minutos de sossego para nossos pais. Agora não. Agora é diferente. Agora as coisas exigem mais da gente. Exigem traços mais perfeitos, cores mais sutis e paisagens mais belas. Exigem também uma concentração e um foco para que os desejos se concretizem e não nos percamos pelo meio do caminho.

Um passo após o outro e vamos deixando pra trás o que éramos minutos atrás. Aprendi, a duras penas, que eu mudo. Que as minhas ideologias e sentimentos amadurecem e me tornam, ao contrário do que sempre pensei, mais forte e sereno e não fraco e covarde. Aprendi que minha tristeza e a minha felicidade caminham juntas nessa estrada, sempre de mão dupla, como não poderia deixar de ser.

Caminho entre esses dois mundos paulatinamente, sempre procurando o centro, a faixa branca que delimita as minhas atitudes. Há o medo constante que a estrada suma, acabe e não nos leve a lugar nenhum, mas mesmo assim ainda há o prazer inenarrável de ir. Sem muito otimismo e sem nenhum pessimismo. Aceitar as curvas e tentar desenhá-las de modo que possamos andar com relativa segurança e com os pés fincados no chão. Nem que seja apenas um deles.

Ao final, lá no horizonte, ainda bem longe da meta, a estrada ainda é de terra, sem traços, sem asfalto e sem limites. A construção é o que importa. O caminho é a glória. O destino é apenas inevitável.

Whatever highway

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Arquivado em Introspecção, Paz

Horizontes

Aconteceu há alguns dias. A imensa baía de Santos salta aos olhos de uma maneira cada dia diferente. De manhã cedo o cinza da areia se mistura com o emanar da luz natural, enquanto o céu faz seu trabalho de pintar tudo de azul. Beira-mar, com ondas bem pequenas, os pés são sobrepostos pela água, enquanto pequenos barcos enfeitam, ao longe, o cenário cada dia mais bonito. Na silenciosa entranha dessa paisagem, os tons de verde sobre a água reluzem o amanhecer e o horizonte tórrido e infinito desmistifica a lonjura de um inabalável silêncio. O cheiro da praia é outro nas manhãs. As pessoas que passeiam têm parte do rosto ocupado por olhos iluminados e outra parte escondida pela sombra, como se ainda buscassem um espaço no travesseiro há pouco abandonado. Conforme os raios se tornam mais intensos, mais intensas começam a ser as pessoas. Nas pegadas deixadas sobre a areia, numa confusão sem direção, são desenhadas histórias, nomes, corações e sentimentos. A praia, inerte e quintal do mundo, sorri todas as manhãs, dando preferência a dias claros e com pouca nuvem. Ao cair sobre o mar, as tardes se estilhaçam e o dia nos mostra sua tristeza, num lusco-fusco que quase chora. No vazio do crepúsculo terrestre, esse alarido misterioso de cores inimagináveis se transforma num sossego letal. E a areia fica fria, a água um pouco mais crespa e branca, as pessoas mais ríspidas e cansadas e a paisagem mais vazia e solitária. E, enfim, a noite nos tapa a cara. A partir desse momento não olhamos mais pra ela com o mesmo fulgor e paixão. Não olhamos mais para o mar. Não olhamos mais para a areia. Mas, mesmo na profunda escuridão da noite, temos a certeza consoladora de que outros dias virão, cada vez mais inconfundíveis.

Whatever sunny

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Arquivado em Autobiografia