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I’ll miss u

Entre as portas do amanhecer e as ondas da escuridão a minha vontade permanece no limiar da luz. Penumbra de amor, vontade de estar junto. Entre a ignorância do sentimento e a racionalidade do encontro, permaneço com o coração justo, apertado, meio doído. Vergonha do sentimento, insegurança do contato. Vivo dias naquele lusco fusco do tempo, quando já se sabe que a noite chega, mas se quer viver o dia. O adeus mais próximo, o fim de uma coisa que nem começou. O medo da escuridão, do vazio profundo que é completado com doses cavalares de todas as coisas que não são você. Doses cavalares de toques e beijos que não são os seus. Naquela despedida, à meia luz, sorrio de canto de boca, pisco profundamente e descubro, neste momento, que quero viver no escuro. Não na escuridão, mas no escuro dos olhos fechados, rindo com o coração e com a boca colada nos seus mais profundos e sinceros goodbyes.

Whenever You Come Around

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Sensações estranhas

Ao vento há o desprezo pelas gotículas de água que insistem em esguichar no rosto. Sem gosto aparente, a ansiedade cresce através dos poros um suor límpido, diferente do habitual. As mãos trêmulas que inundam a parte lateral da calça e da camisa cortam o ar de forma inusitada, nervosa, fazendo o mesmo vento ventar para os dois lados. O pescoço endurece de forma acentuada todas as agruras do cotidiano e, num ato de disfarce, a cabeça balança aos lados tentando, em vão, estalar todas as maltratadas vértebras. O olhar desesperado e esperançoso lançado para os lados não tem alvo. Tem somente a visão deturpada da paisagem horripilante e a agonia presente nas inúmeras batidas que o coração dá por minuto. O corpo tem como única e exclusiva preocupação continuar a se mexer freneticamente, pois a sensação de quietude é dolorosa ao extremo. Os olhos também suam. A loucura não é tão silente quanto imaginava, pois há comunicação entre o cérebro e a porção corpo, mesmo que involuntária. A sensação fria e refrescante de um copo de água faz bem. O corpo ainda cambaleante se dirige ao quarto escuro e se aconchega em posição fetal sobre a cama, quase que implorando por algumas horas de sono. As juntas da carcaça maltrapilha rangem alto, num pedido suplicante de descanso e hipocondria. As reações que se seguem são perturbadoras. A mente, normalmente aliada, trabalha contra o corpo e, por mais poderosa, cria espasmos e sensações únicas. O medo da morte ou de algo ainda pior é o único pensamento possível. E não há fuga, sonhos ou cores. O mundo se torna apenas um pensamento cinza. O medo é da loucura, que bate à porta sem pedir licença e destrói a estrutura de anos e anos de racionalidade consentida. É o poder da obsessão em essência.

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O que não esqueço

Inunda passo na poça e afunda o piso no troço que enterra a tristeza na fossa e emerge do fundo do poço.

A posse de todo o pescoço endossa o amor pelo moço que coça no vosso desgosto e almoça o caroço que prende seu doce.

Esboce o jeito por vezes insosso e enlace o corpo nesse alvoroço. Acosse e abrace a carcaça até o momento em que peço pra que se satisfaça.

Trespasse esse descontento na face e siga em frente enquanto adoeço. Não lhe peço nenhum tipo de apreço e nem ao menos professo os inúmeros e felizes excessos. Confesso que compadeço, mas amadureço cada vez que anoitece.

Não desfaça todo o trajeto espesso e por vezes possesso em troca de qualquer preço. Recomeço, menos chato e sem rimas, mas reabasteço e te ofereço toda a minha pirraça. Mesmo que comumente isso fracasse, eu esbraveço toda minha arruaça.

Ainda compareço de forme dócil e tacanha e faço aqui um recesso impreciso, fomentado pelo adereço do amor que enaltece o começo avassalador.

Meça direito tudo o que mereço e impeça o regresso da condição de promessa. Cesso aqui essa desgraça de texto inconfesso e me expresso pela última vez sobre o que não esqueço: amo.

So, what?

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Dúvida cruel!


Whatever Garfield

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Chuva!

O vento venta lá fora e a chuva é questão de espera, não cairá agora, mas não demora. É como a caça diante da fera. E quando cai faz cheirar cheiro de chuva, que molha a terra e cresce planta. Cria também imagem de santa, lavando a casa em uma prece muda. Não perdoa ninguém e nenhuma situação, não perdoa festa e nem ao menos procissão. Molha todos indistintamente, do mais glorioso rico ao pobre moribundo indigente. Nos remete à infância, ao nosso estado criança, quando os pingos caíam na gente como parte do dia e ninguém se importava com isso. Nos lembra um tempo sem compromisso, a vida sem responsabilidade, a existência sem idade, um tempo onde era um primor ser ingênuo. E numa simples comparação entre outrora e os tempos que virão, não conseguimos sequer descobrir a razão de torcermos todos os dias para fazer sol, desprezando a chuva por completo. A chuva só atrapalha, nos molha, nos encharca, maltrata e nos faz mudar de planos. A chuva não é o oposto do sol, pois também chove de noite. São meras gotas que se diluem em muitos enredos que a vida nos dá e tira, pois apesar de longa, a vida é curta demais para a chuva. Ao final, todo mundo reclama, mas ninguém padece. Ao contrário, a água nos dá coragem e marca o momento. Chora a vida, felicita e enobrece. E quando a última gota cai dando fim ao espetáculo e deixando as nuvens mais brancas, leva com ela a certeza efêmera de um belo e ensolarado dia. A chuva é uma eterna injustiçada.

Whatever rain

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Apenas mais um monte de palavras…

Prazer que abala as estruturas,
E te manda de volta a infância,
Que absorve todo o seu corpo,
E imita a arte sem plágio nem perdão.
Salienta o modo de viver,
Persegue a cria de forma inusitada,
Chora a respeito do passado,
Dramatiza e volta ao presente,
E sente que não quer sair,
Não quer ir embora nem ficar,
Quer a paz de outrora,
Quer o prazer de agora,
Tudo ao mesmo tempo agora,
Sem nada que atrapalhe sua solidão,
Tem medo do futuro e se lamenta do passado,
Desgraça a vida conjecturando,
Contenta-se com o pecado,
Limita-se a ver o que quer,
Quer o que vê e não chora,
Demora, apavora e sai ileso,
Não dói agora mas doerá depois,
Quando souber que chegou ao fim,
E abdicou de tantos amores,
E não provou dos tantos sabores,
Que a vida lhe ofereceu.

Whatever…

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