Arquivo da categoria: Introspecção

I’ll miss u

Entre as portas do amanhecer e as ondas da escuridão a minha vontade permanece no limiar da luz. Penumbra de amor, vontade de estar junto. Entre a ignorância do sentimento e a racionalidade do encontro, permaneço com o coração justo, apertado, meio doído. Vergonha do sentimento, insegurança do contato. Vivo dias naquele lusco fusco do tempo, quando já se sabe que a noite chega, mas se quer viver o dia. O adeus mais próximo, o fim de uma coisa que nem começou. O medo da escuridão, do vazio profundo que é completado com doses cavalares de todas as coisas que não são você. Doses cavalares de toques e beijos que não são os seus. Naquela despedida, à meia luz, sorrio de canto de boca, pisco profundamente e descubro, neste momento, que quero viver no escuro. Não na escuridão, mas no escuro dos olhos fechados, rindo com o coração e com a boca colada nos seus mais profundos e sinceros goodbyes.

Whenever You Come Around

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Foco

Entrou a noite de bolinhas brancas

num quarto escuro à meia luz

introduziu nuances de cor com feixes de luz autônomos

sem muitas imagens e nem pessoas

atravessou a sala entre os móveis

ziguezagueando entre as roupas jogadas no carpete encardido

invadiu as pressas meus olhos e pupilas

que procuravam sentido no lusco-fusco.

E, sob a égide da máxima escuridão,

a luz apareceu dando alimento ao que mais aprecio na vida: a falta de foco.

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Olho do umbigo

O olho cansado, a pele exausta, a cabeça ferida. Entre as peles do corpo estão órgãos maculados de inocência, respeito e sofreguidão. Sua intenção clara, amorfa, paciente, seduz até a mais voraz e dedicada espécie de gente. Retrato capaz de incentivar a mordaça de todos os detentores da hipocrisia do amor. Seu perfil inerte e sedutor traduz em suma a riqueza e a veracidade daquilo que sempre buscou, por mais contumaz que todas as atitudes simulem. Entre o parto do ato, a ansiedade da denúncia, a iminência da declaração não sobrepujam maiores incidências. Estas são meras fagulhas de ardor que proliferam entre todas as pessoas que se tornam mais pessoas por conta de outras pessoas. Todos nós.

É oca, tola, perspicaz porém. Sua anedota sangra por entre os olhos raivosos diante da passividade do sexo oposto. Suas mãos suam por entre as rugas e cortes da sua vida já um tanto desgastada. Seu temor é visível nas ancas, nas pernas e no colo, por mais adornado que lhe pareça o espelho. Nada esconde mais o pavor da solidão. Nem mesmo o silêncio de um bom livro e o tilintar da sua taça de vinho.

Whatever I’m talking about

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Instrospecção

Aquela alma calma, recôndita e serena entre a pessoa translúcida e a fraqueza aparentemente estúpida mostra a riqueza da face obscena. A espera descansa e esbanja na letra aquilo que prova que a magia é maior e mais latente que qualquer anomalia. Entre as frases tristes, chorosas, se vê um mundo de outras coisas claramente menos enigmáticas. Entender as palavras é fácil. Entender a alma humana é complicado, mas é uma das coisas pra qual mais tenho talento na vida. Acredito nisso piamente.

Whatever comprehension

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Is It truth?

Entre o orgasmo pródigo e a lúxuria constante, a imaginação amniótica e a precisão cirúrgica das ferramentas de incisão. O aprendizado amador de letras borradas e palavras muitas vezes escondidas entre as frases refeitas. A intensa vontade de adaptação ao coletivo ao que importa naquele momento, sem precisar esclarecer o que há dentro das suas vontades mais fundas.
Ser verdadeiro é difícil. Tão difícil quanto ser.
Verdade.

Whatever you say

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Teor

O sumo da fruta próxima, da palavra grossa, da pessoa frouxa. O extrato borda, a letra acorda, o mar centelha numa dança amorfa. As paredes entram, o ar incensa, o espesso afina. Os lares brotam, os filhos parem, as portas morrem no concreto cru. A porra jorra, concentra gozo, invade o poço onde mora o amor. Impera a tora, meu porto a vela, a velha senhora de ossos à mostra. Invade o cheiro, ampara o óvulo, ausculta a parede do corpo inteiro. Corre o plasma, escoa o líquido, sobe à tona sem ar no peito. Respira. Volta e multiplica o espaço, ganha mais um maço, alastra a gosma sem limite de tempo. Avança os lares, ímpares inspirados em terços perfumados, carne que coincide com a sua carne. Estranho pedaço, trêmula chama de memória justa, venha e não avise. Venha e, de repente, torne invisível esse meu mundo possível.

Whatever possible

*Texto escrito para o Blog Rebuliço, da minha irmãzinha Tati Fávaro.

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O farol e eu

O farol, ao alto do mar, é uma ilha sob as nuvens carregadas que virão. Padece a tarde, chega a noite e a escuridão insiste no preto, enquanto apenas uma sóbria luz pisca para alertar a vida. O farol não dá direção. Ao contrário, só indica que há algo no caminho. E o que busca quem está no farol, visto que aponta pra todos os lados?
Eu lhes digo, pois vivo no farol desde pequeno.

Quem mora lá busca, basicamente, paz. Busca estar longe pra pensar perto. Busca a solidão para não sentir solidão. Busca compreender a própria cabeça, identificar o próprio corpo, reluzir sozinho a própria luz.
Quem mora lá busca eternidade. E só é eterno aquele que não tem a quem contar coisas.

Ao aportar no farol, acordo. Volto a fugir desse lugar por onde tanta onda já bateu e tanta gente já passou.

O farol, foi-se. Fiquei eu, alto mar e os pensamentos intransponíveis da vida.

Só.

Whatever lighthouse

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