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Lá bem longe

Afasto de cada metro, de cada quilômetro, de cada dia. De contagens sem número que me mantém longe dos traços mais sinceros de quem eu sou. Dos meus pedaços, das minhas fotos, de meus sentimentos mais frágeis. Afasto dos eixos do meu corpo, do próximo retorno, da algoz falta que me fazem. Fujo da realidade escancarada que não quero ver e nem saber o que se tornaram.  Moro no beco, no escuro da minha imaginação, onde recrio os próprios personagens da minha vida. Limito suas histórias, os faço melhores que são e assim se tornam maiores e mais íntegros, mais inteligentes e com mais sentido dentro da vida que escolhi pra mim. Sou egoísta, pois prefiro que eles vivam do jeito que eu acho melhor. Não do jeito deles ou do jeito que a vida os fez. Do meu jeito, com a minha poesia e com o mesmo infantil e inocente traço que os desenho como vítimas da minha saudade. Assim os mantenho longe e os guardo dentro de uma caixa que mora dentro de mim. Abro de vez em quando, olho, remexo e volto a fechar com a esperança equilibrista de tentar me adaptar ao que um dia chamei de amizade.

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Antes do fim do dia

O sonho da palavra plano, da textura hoje, do fevereiro pródigo. A casa do amor amigo, do intestino aflito, da namorada longe. O peito do colega ausente, sob a mira à frente de um terço só. Escreve a letra fria sob panos quentes e derrota os males que invadem tristes a cabeça oca. Impera nos dedos duros os sentimentos trêmulos que não seguram seu coração. Bate, volta, ruge e torna possível a mágoa dilacerada de anos longos e piadas prontas. Força o ritmo, esquece a missa e se torna o milagre da sua própria existência. Levanta os mortos, mata os vivos, chora os amigos e dá asas à sua falsa eternidade. Solfeja os sonhos, alimenta o ego e descobre a realidade picada num pedaço velho de papel sujo. Sua alma entrelaça o travesseiro fofo da cama dura e permanece vegetativo sob o lençol que cobre aquilo que você não quer ver. Seu corpo é morto pela sua própria cabeça, que não move mais suas pernas, seus braços e nem seu pau. Em meio ao fevereiro pródigo, de textura hoje, este é o plano pra palavra sonho.

Whatever dream.

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Sobre terças-feiras às 15h.

3 da tarde. Eram 3 da tarde. Entrou num amorfo simpático a luz de uma primavera hostil. Entrou e me disse o horóscopo mais triste, mais pessimista que já se viu. Rimou, irritou e mostrou o destino visto pelas palavras que tanto aprecio. Não curti, não sorri, não me senti útil. Me conduziu a um estado adorno, daqueles que enfeitam os sentimentos que se lê nas palavras. Chuva. Só repeti com a estratégia do corpo as figuras tão conhecidas de uma pessoa ansiosa. Reli, ouvi música, andei de um lado para o outro. Senti paz por momentos em músicas e melodias que fizeram sentido. Rejuvenesci. Uma mágoa distante bateu em riste na membrana mais profunda da mente que se diz ágil. Frio. Criei, sob circunstâncias babacas, teorias acerca da mortalidade. Vivo ou morto, acresço sob formas estranhas e mereço de prontidão a mais recíproca condenação de ódio que já se viu. A noite cai, a lua invade, a escuridão enobrece. Encontro no vazio a mesma teoria mística que todas as palavras insistem em dizer coisas que não dizem nada.

Assim como este texto.

Perdão.

Whatever Sorry

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Intervalos sobre o mesmo tema

A gente vive num interlúdio. Dois atos principais, naquela meiuca de poucas palavras e beijos intensos. Naquela conversa em meio ao barulho de todas as pessoas. Sem muita música, sem espaço pra tanta poesia. Sem a intensidade devida, sem os acordes certos.

Você não está comigo no refrão. Não está comigo quando tudo explode num mar de felicidade ou naquelas tristes palavras que fazem tudo se arrepiar. Vivemos nos meios, nas pontes, nas modulações que tornam a música especial. E a gente sempre sobe o Tom, numa ausência tua difícil de aceitar, numa eterna espera de viver ao lado teu.

Quantos atos, quantas estrofes a gente vive pra chegar no refrão, pra chegar ao fim da música. Me deito na cama solfejando essa letra e tentando entender o fim. Vejo você ali, sinto sua pele e seu cheiro. Tento entender o começo. Tento entender o que o autor quis dizer com a palavra saudade que é recorrente em tudo que é frase. Me pego dormindo acordado, vivendo momentos que não aconteceram, imaginando outros finais, conjecturando tudo que ainda vai acontecer. E, mais intensamente, me pego tentando entender se eu devo interferir na letra, na música, no arranjo. 

Tento ser o autor da nossa música, alterando a letra, os sons, a melodia. Sou o compositor frustrado por nunca acabar a obra. Sou o compositor desesperado porque apenas as minhas frases não fazem um fim ou um novo começo. Não sei suas frases, suas intenções, seus tons e mil dons geniais. 

Sou só a metade.

A metade de todos os sons que já fizemos.

Serei a metade dos sons que virão.

Que assim seja. E que seja logo.

Whatever happens.

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Palavras sem leitura

Essa mania constante e soberba da forma mais contrastante de dizer palavras. Essa forma abstrata, ignorante e infame de tratar o que é complicado como se fosse simples. Ignorar, ridicularizar, mostrar ao extremo que as partes que formam o todo parecem frágeis demais frente aos acontecimentos recentes. Subestimar pessoas, julgar métodos, mensurar o destino a fim de manipular a história das pessoas e das coisas.

Entender o olhar e o franzir da testa. Saber que o lábio torto demonstra insatisfação e as covinhas nem sempre são tão amigáveis quanto a inocência de uma criança.

Sensibilizar a razão requer prática.

Racionalizar o sentimento é sempre – sempre! – uma forma decrépita de mostrar ao mundo que o concreto não é mais duro que a sua cabeça.

Whatever sign

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