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Olho do umbigo

O olho cansado, a pele exausta, a cabeça ferida. Entre as peles do corpo estão órgãos maculados de inocência, respeito e sofreguidão. Sua intenção clara, amorfa, paciente, seduz até a mais voraz e dedicada espécie de gente. Retrato capaz de incentivar a mordaça de todos os detentores da hipocrisia do amor. Seu perfil inerte e sedutor traduz em suma a riqueza e a veracidade daquilo que sempre buscou, por mais contumaz que todas as atitudes simulem. Entre o parto do ato, a ansiedade da denúncia, a iminência da declaração não sobrepujam maiores incidências. Estas são meras fagulhas de ardor que proliferam entre todas as pessoas que se tornam mais pessoas por conta de outras pessoas. Todos nós.

É oca, tola, perspicaz porém. Sua anedota sangra por entre os olhos raivosos diante da passividade do sexo oposto. Suas mãos suam por entre as rugas e cortes da sua vida já um tanto desgastada. Seu temor é visível nas ancas, nas pernas e no colo, por mais adornado que lhe pareça o espelho. Nada esconde mais o pavor da solidão. Nem mesmo o silêncio de um bom livro e o tilintar da sua taça de vinho.

Whatever I’m talking about

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Arquivado em Contos, Introspecção

Estranho texto

Quando eu era menina as coisas eram mais fáceis. Eram mais singelas, como as bonecas que passeavam pelos corredores da casa dos meus pais. Eram mais simples, como os cachorros que latiam pra mim enquanto eu dançava as danças mais sem sentido que já dancei na vida. Eram mais crédulas, como os passeios que dava com meus pais pela praia, de mãos dadas e sentindo a maior segurança do mundo naquele gesto.

A noite era só mais um momento da vida e não a espera de um novo começo ou de uma nova oportunidade. Minha ansiedade era tola e banal, sem preocupações e sem rugas. As manhãs eram mais alegres e tinham o sabor que os outros dizem que devem ter hoje e, nem sempre, têm. A alegria criança é mais forte que a alegria adulta, apesar de menos intensa. A felicidade adulta é mais complicada do que a felicidade criança, onde coisas improváveis podem trazer felicidade instantânea.

Quando era menina a morte não me habitava. Não morava em mim as comparações, a beleza, a vaidade ou a inimizade. Vivenciava a vida plena, estéril de outros sexos e era capaz de contemplar, sem culpa, uma enorme e saborosa bomba de chocolate. Era capaz de ser chata sem me dar conta disso. Não precisava de bom senso e só agradava quem eu queria. Não ligava pros meus cabelos, para as sujeiras que habitavam minhas unhas ou para a maquiagem que ainda insisto em usar pra cobrir minhas falhas. Eu não tinha falhas quando era menina e nem tinha consciência da falha dos outros. Inocência? Sim, sem dúvida.

Tudo mudou naquele maldito dia em que me sangraram as entranhas. Foi nesse dia, à noite e quase sozinha na praia, que fugi do balanço e saí correndo pra deixar de ser criança. Não sabia que as coisas seriam assim. Não sabia que naquele momento eu deixava pra trás uma época que ainda queria viver hoje. Maldito balanço. Bobo e feio.

Whatever gender

Foto: Fernanda Tralalá

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Arquivado em Contos, impressões, Infamidades

Shazam!

Surgiu no palco, em meio às luzes, o mágico com a sua cartola longa e seu smoking preto. Coisa tradicional, puro estereótipo do que conhecemos por mágico. Número após número, o sagaz homem fazia de bobo todos os que olhavam e admiravam aquilo que parecia coisa do outro mundo. A “mágica” é a prova irrefutável de que fomos feitos para acreditar na mentira. Todos sabem que nada daquilo é verdade, mas a admiração e a credibilidade de alguém em cima do palco nos dá essa dura e muita vezes errônea impressão. Assim como na vida.

Nunca gostei de mágicos. Sempre os achei uma espécie de palhaços do mal. A minha curiosidade só me permitia tentar achar qual era o erro nas mágicas. Qual era o ponto que ninguém percebia – onde estava o exato ponto que eles nos passavam pra trás. Nunca descobri muito coisa.

Nunca gostei de ser burro. Quando alguém te faz de idiota é porque encontrou oportunidade pra isso, né não? E pra mim, assistir ao mágico é uma forma de me tornar burro e me deixar ser feito de idiota. Por isso nunca fui de fumar maconha, nunca tive ídolos e nunca falei mais do que devia. Não que isso deixe as pessoas burras – por favor! -, mas pra mim nunca funcionou do jeito que deveria. Nunca consegui ter tranqüilidade para apreciar essas coisas, pois nunca me permiti aceitar as coisas como elas deveriam ser, apesar de querer. Sempre fui o menino chato que pergunta tudo e quer ouvir tudo, assim, sem mágica. Gosto da realidade das coisas, sem muita fantasia. Mesmo porque a minha cabeça é a maior fantasia e o maior conto de fadas que alguém possa imaginar.

Quando pequeno – criança mesmo! – minha mãe me deu um caixa de mágico. Tinha uma varinha de condão, uma capa, uma cartola, um baralho cheio de truques e um manual de como fazer as mágicas. Essa provavelmente tenha sido a primeira coisa que li de verdade. Uma ironia foda da vida.

Essa caixa de mágico, a qual me lembrei hoje, me trouxe uma verdade incrível e que não pensava há muito tempo. A gente só acredita nas coisas por dois motivos: inocência pura – como era o caso – e a vontade de acreditar, seja lá por qual motivo – que o caso de hoje.

Minha mágica, a qual acredito piamente, é transformar em realidade os meus sonhos e crenças. Creio estar longe – físicamente – dos meus sonhos e sonho, todos os dias, estar cada vez mais perto da minha crença.

Abracadabra? Whatever…

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Uma menina, muitos palitos.

Era uma vez a história de uma menina que plantava palitos. Para cada sorvete que tomava, um palito ela enterrava. E não eram poucos os que ela chupava. A cada dia, a cada decepção ou alegria, um palito entrava para a coleção! E eram tantos sorvetes e de tantos sabores que o jardim estava ficando pequeno.  Em cada palmo da grama verde repousava um item da coleção. De cores diferentes, tamanhos diversos e sabores variados, hora após hora um novo palito surgia no seu quintal.

E a coleção aumentava tanto e tão rápido que a pequena menina começou a plantar nos outros jardins, enfeitando seu bairro e despertando a ira de seus vizinhos, que se deparavam com os pequenos pauzinhos em todos os lugares, por vezes indesejados. Logo a mania foi descoberta na pequena cidade da nanica menina, que se sentia tolhida na sua prazerosa e inocente atividade. Na escola era alvo de piadas maldosas, daquelas que só as crianças são capazes de fazer. Mas ela, mesmo se sentindo solitária, continuou a alimentar o seu gosto por palitos e sorvete. Passou por toda a juventude sem parar um dia sequer de fazer o que mais gostava, sem se importar com o que pensariam dela.

Sua liberdade era, diferente de todos os outros mortais, traduzida naquele singelo gesto. Era o que fazia a diferença entre a liberdade extrema e a infelicidade intensa. Palitos. Sem julgar, subjugar ou estalar os dedos em tom de fantasia, o livre-arbítrio se formava em cada chupada colorida e docemente decorada. Ao contrário do que todos os seus amigos a aconselhavam, a menina não se tornou uma chupadora oficial. Preferiu continuar a situação prazerosa, sendo amadora e colecionadora de sabores. E assim foi durante toda a vida.

Esse ano, num dia de calor, ela morreu. Derreteu sem saber como e nem o motivo. Deixou como legado uma infindável coleção de palitos, que agora são disputados à tapa por admiradores e tarados de plantão.

Seu sabor, ninguém jamais provou

Whatever flavor.

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Um dia, uma praia.

As sete gotas d’água desceram escoradas por aquele corpo belo que se encontrava franzino e desprotegido. Havia certa tristeza e melancolia no ar bucólico daquele final de tarde. As nuvens desenhavam formas extensas e escorridas por causa do vento que insistia em ventar lá no alto e a sacudir todos os cabelos aqui no chão. Com ela não era diferente. Suas mãos delicadas alisavam sua própria cabeça como quem faz carinho em si, mesmo pensando ser a mão de outra pessoa. O jeito esparramado no chão com as pernas estendidas mostravam desleixo e preocupação com alguém que, definitivamente, não estava ali. As marcas na areia à sua volta e suas costas e cabelos pincelados com grãos da praia indicavam uma constante inquietação. Só a via de costas, sem nunca ver o rosto. Apesar da tristeza e solidão aparentes, a imagem não deixava de ser bonita e digna de admiração. Alguns minutos se passaram, mas sem conseguir precisar exatamente quantos foram. A imaginação sobre o que a mulher pensava remeteu à minha realidade e a problemas e saudades que me fariam sentar na areia e agir exatamente como a mulher à beira d’água. Tive vontade de chorar, de compartilhar o que sentia, de exprimir o que reprimi a vida toda e senti certa inveja de não estar sozinho na praia, sentado, enxugando as mágoas e saboreando as alegrias.

Mas o que realmente senti foi compaixão.

A mulher se levantou ainda de cabeça baixa e ombros curvados e seguiu a vida. Não pude ver nada além disso. Levantei e fui até o lugar onde ela se encontrava. No chão, bem próximo ao mar calmo e de ondas pequenas e reconfortantes, eram claras as marcas da água. Havia sete lágrimas, dispostas em formato de lamento e saudade. Ao longe, era possível uma última imagem da mulher, já com a cabeça erguida e as mãos fazendo o movimento de um andar mais confiante. De forma poética, uma onda despretensiosa limpou aquele momento pra sempre e deu paz a quem tanto procurava, pelo menos na minha história.

Whatever I tell you.

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Um dia numa casa com um adolescente!

Jesus Rodrigues Veloso, 16 anos, cabeludo e punheteiro, filho da classe média. Bem média, do tipo que é rico pros pobres e maltrapilho pros ricos. Ganhou uma guitarra magnífica e um amplificador barulhento. Passava o dia inteiro tocando uma nota só, num só tom e num só acorde. Distorcia, Wha whava, usava delay e não saía disso. Enlouquecedor.
O pai, um homem médio, mas com um pouco mais de sensibilidade não tolhia o filho, mas tentava encaminhá-lo para algo melhor. Ao passo de um mês ouvindo o mesmo bordão de fá, o pai não aguentou. Chegou perto do garoto e disse:
– Escuta aqui filhote, se você está interessado em música, por que não estuda harmonia, técnica, teoria e tudo o mais?
– Qualé velho, tu não sabe de nada!, disse o delinquente musical. “Esse negócio é besteira, merda. Cago pra virtuose. Eu uso meu feeling e não vou contaminar minha sensibilidade com esses conceitos fora de moda!”.
O pai, sempre compreensivo, retrucou:
– Meu filho, me ouça, técnica é técnica. Ou você aprende ou vai ficar nesse marasmo a vida inteira. Desde que eu lhe comprei essa guitarra você só aprendeu uma posição, fixou os dedos nela e não sai disso. Você não acha que precisa de ajuda?
– Que que há pai, qual é a tua?, interrompeu o asno musicante. “Não vem com essa do teu tempo. O negócio agora é insistência. A tua geração tava completamente perdida e só trocava de acorde porque não sabia onde enfiar os dedos. Nós, com o lance da Internet, encontramos o lugar certo. Não precisa variar”.
O pai, visivelmente resignado, virou as costas e deu o braço a torcer. Sentou-se ao meu lado, na sala de sua casa e, num gesto espontâneo ergueu a cerveja e brindou:
– Tô fudido!

Whatever teens

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Inveja

A música começou a soar. Num estampido em meio ao tablado de madeira surgiu uma bailarina de corpo esguio, simetricamente perfeita. Sua roupa era composta de muitos tons de bege e seus movimentos expressavam toda sua sensualidade. A platéia permanecia vidrada em todos os gestos, passos e maestria no andar e dançar. Sua pele parecia sedosa, do tipo que só a bailarina tem. Seu olhar tenro demonstrava toda sua concentração e dedicação naquela rotina extremamente ensaiada para parecer espontânea. Seu abrir e fechar de pernas fazia a platéia estremecer em meio ao silêncio e tensão que havia no ar.

Todos torciam pra que tudo desse certo e para que a bailarina se safasse ilesa a mais uma apresentação. Menos o homem de boina. Ele queria mais é que ela caísse, errasse um passo, tomasse um tombo apenas para poder rir às suas custas. A beleza da bailarina não lhe traria muito assunto no dia seguinte. Já o seu fracasso tomaria o seu dia de uma felicidade esfuziante. Seu mundo cinza, como a cor de sua boina, não lhe concedia certos benefícios, como por exemplo, a magnitude e a beleza do sucesso alheio.

Acreditava piamente, em sua face almiscarada, que a bailarina era seu contraponto na vida. Pelo menos naquele instante silencioso. Inversamente proporcional à sua felicidade. E quanto mais ela rodopiava, abaixava e se virava, seu rosto se retorcia e ensaiava um riso, aguardando o momento exato do fracasso. A hora do êxtase, do clímax, do orgasmo mental, da punheta cerebral. A hora que alimentaria seu vício, encheria novamente sua sanidade, encarnaria sua maldade e ganharia por completo a sua luta diária contra seu cotidiano monótono e rotineiro.

A bailarina, que continuava linda e esbelta em sua apresentação, não imaginava em cima de sua sapatilha de madeira que, apenas por ser o centro de muitas atenções, seria o alvo de tamanho agouro. Num de seus vívidos saltos coreografados, por causa de uma ripa solta no tablado, a bailarina, temente a Deus, caiu loucamente sob os olhares atônitos dos espectadores. Sua queda, mesmo decepcionante para a platéia, não foi a mesma imaginada embaixo da boina. Houve até certa graça naquele ato falho, pois uma bailarina não cai como qualquer outro mortal. A platéia, num ato de gentileza incontinenti, a saudou com efusivas palmas. O homem de boina, discretamente abriu um sorriso e até bateu palmas também.

Ao sair do teatro com seu andar tímido, se percebia claramente que ele jurava pra si mesmo que aquela queda era só sua. Que ele havia sido o responsável pelo breve e quase despercebido fracasso da bailarina. Foi pra casa feliz, dormiu o sono dos justos e acordou no outro dia vestindo seu collant bege, com a bailarina ainda nua ao seu lado.

Whatever pas-de-deux.

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