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Corpo insano, mente insana.

Nasci tropeçando no cordão umbilical. O ventre da minha mãe com seu umbigo à mostra já não ensejava um bebê de pelica. Caí da barriga gordo, ruivo e resmungão. Fui um bebê chato, que chorava quando tinha que rir e ria quando fazia os outros chorarem.

Tive carinhos acidentados e acidentes no carinhar. Me doeram os borbotões, sangraram minhas canelas, mãos e arranharam minha cara, orelhas e cabeça. Fui muito costurado nos poros e suei para dentro durante muito tempo. Não me brotavam feridas, apenas os hormônios que me saiam pêlos pelos buracos do meu tecido.

Meu cabelo desruivou, minha barriga murchou e os resmungos continuam debaixo da minha pele de pelica. Os meus olhos jaziam cansados do bálsamo desgostoso da infância e dos muitos brinquedos idiotas que tive que engolir. Dos sonhos pueris que tinha, não restaram muitos pedaços, só pra dizer que ainda resta um mínimo de constrangimento e inocência dentro dos badalos da cachola que insiste em reviver um tempo que não volta mais.

Já nasci com dor, o amálgama da minha vida. O sentimento que prima pela minha existência, seja na tristeza ou na mais pura felicidade. A dor construiu os pilares da minha ignorância e dirimiu as controvérsias das minhas dúvidas.

Eu já nasci com 10 anos e sem hemorragia eu não vivo.

So, whatever.

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Dor. Alheio a dor.

Dor. Não lembro como e nem onde. Aliás, não lembro do último dia em que não senti. A dor física não se lembra, dói. E pra dor não há lembrança, assim como o prazer também não necessita de memória, pois a gente não sente tudo de novo se simplesmente não sentir tudo de novo. Tanto a dor como o prazer são sensações imediatas, que, assim como os segundos, passam. Dor e tempo.

A dor só serve pra indicar onde é que dói, pra você dar pistas para o médico investigar. Pra quê mais serve a dor?

Talvez sirva também pra nos mostrar que somos impotentes diante dela. Pra nos ensinar a ser humilde perante o nosso próprio corpo e a suportar coisas maiores, como a dor da perda, a dor do parto ou a dor de chutar o móvel da sala com o dedinho do pé. A dor é inversamente proporcional à maturidade. São necessárias e nos dão a certeza do quanto somos capazes de suportar, seja física ou psicologicamente. Entre as nuances dela, leve à excruciante, a dor agride, invade, perscruta as entranhas e arregaça a pele do corpo, deixando marcas visíveis a todos que quiserem ver. As outras dores, por serem menos palpáveis, nos machucam ainda mais, permanecendo no corpo por longos períodos num ir e vir cruel e lancinante. As dores alteram a vida, o humor, as relações e nossas vontades. A dor altera os sentimentos.

Independente do tipo, a dor é covarde, mas é um sentimento puro, digno de admiração. É um sentimento que não conseguimos compartilhar com ninguém. É o momento da solidão total, onde nos concentramos intensamente naquilo, como poucas vezes fazemos na vida.

Não tenho medo da dor. Não tenho – e nunca tive – medo de sofrer. Morro de medo da dor alheia e não sei conviver com ela. Aquela coisa que nos corrompe a alma, que nos destrói de dentro pra fora. Aquilo que não conseguimos suportar simplesmente porque não está dentro da gente. Ainda morro disso. Dor alheia.

Whatever hurts

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O que não se apaga

Beija o meu beijo e fecha cara e abre a perna e solvendo o seu desejo desespera voz como se esse algoz me deixasse menos desejoso de todo o seu esforço em me compreender. Essa mancha que inibe tristeza que apavora toda essa demora e beleza que enverga o corpo e sufoca o meu peito meio aberto e certo de que esse é o lugar. É essa a tentativa solavanca e enxerida dessa dor mais desvalida e comedida por tentar se afastar de todo modo e todo medo e todo tudo nesse enredo. Esse vôo cego absorve outro sentido e satisfaz essa libido e ultrapassa e me disseca num cavalgo de açoitar. Sua pele em forma líquida escorre tímida e forma poça nesse poço escuro só de entrada que precisa de apupo para a polpa deleitar. Intercedo esse profundo segredo imaginável e escafedo pela porta até o parto que entrecorta e transporta a minha sede e me concede deleite imediato e intensamente caricato. Fecundo meu mundo com a lembrança doce e amarga que propaga e estraga que alimenta e vicia que afugenta e me sacia. No contorno e seus adornos junto aos gemidos mais urdidos e precisamente merecidos é que se encontra o indelével beijo. O indelével beijo. Indelével.

Whatever kiss

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Observações

Desrespeitarei toda humanidade, independentemente do sexo, idade, raça ou religião. Farei apologia das coisas mais estapafúrdias. Brincarei com os sentimentos dos outros de forma a causar a maior dor possível. Chatearei e provocarei meus amigos, parentes e seus filhos até tornar sua existência insuportável. Achincalharei todas as minorias. Farei da minha vida um exemplo de intolerância e incompreensão. Glorificarei todo tipo de arrogância, apoiarei todas as reivindicações estúpidas e egoístas. Serei inimigo capital dos casais bem casados, dos amigos de infância e das famílias tranqüilas. Para isso usarei de todos os meios, por mais vis que eles sejam.

Aí acordarei e descobrirei que sou muito bonzinho pra isso e que não chego nem aos pés dos vilões da novela das oito. É duro saber que não sirvo nem pra cometer essas maldades e aquele cara lá, naquele carrão, só se preocupa com isso. Que tolice…

Whatever hero

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