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Palavras

Comprei minhas palavras. Todas elas. Elas são o que de mais singular eu tenho, por mais plural que possam ser. Não as dou, a não ser como garantia. Não as empresto, a não ser que me dêem crédito. Não as credito, a não ser que sejam escritas. Todo o possível nesse espaço presente é mais comum e frio que a saudade partir pela terra sem graça e brilho, assim como outro canta e chega pela manhã, assim pequeno de corpo e alma, onde estamos além e quase maior que a própria palavra. Minha palavra é bêbada, prolixa e joga contra mim a todo tempo. Exprime um desejo que quero que permaneça intacto e sai quase como uma necessidade fisiológica, sem arte alguma. Brinca comigo como a saudade brinca com o meu coração. Me pego traído por ela que a todo momento me promete paz e partir. Mas ela volta e fica comigo tantas e tantas vezes ao dia que chego a enjoar do desejo e da alegria inocente que ela proporciona. Tempo que escorre fácil entre elas, que anda certo em letras próprias e parte a todo momento para um outro nível. Brilha em vão e me dá a surpresa de sentir a minha exata natureza, vezes assustadora. Aos 29 anos ainda não as entendo completamente e não acho que terei tempo suficiente para isso. Talvez, num certo dia ao amanhecer, seja possível desvendar esse mistério. Confesso, derrotado e sem pretensão alguma, que minhas palavras são muito maiores do que eu.

Whatever words.

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Arquivado em Autobiografia

Do fundo do meu fígado.

Pudor desenfreado de cometer loucura e assassinar o bom senso invalida a generosidade que me acomete esses dias. Não venho escrever por raiva ou por amor. Venho escrever por necessidade orgânica e inquieta de quem não diz o que quer dizer na hora em que deveria. Descarrego nas letras todas as minhas frustrações e, assim, não encho o saco de ninguém, apesar do merecimento por boa parte das pessoas. Muitas vezes meus dedos pensam mais rápido que meu cérebro e, quando vejo, já psicografei alguns dos meus problemas. Disfarço a graça e o sorriso maroto de quem, humildemente, não entende as necessidades alheias e emburrece o mundo com as suas generalidades matutas de cidadão dito espetaculoso. Vejo barrigas se encolhendo, peitos estufados e novos cortes de cabelo dando lugar à verdade inconsciente que todos – incluindo eu – deveríamos presenciar. Não debato, não brigo e nem falo mal. Continuo inerte em meio a todas essas obscuridades e com o desejo apreensivo que as pessoas fossem o que elas realmente quisessem, e respeitassem de modo contínuo e empolgante todas as atitudes das pessoas que nos cercam. Essa mixaria intelectual que vive cochichando pelos cantos não consegue deturpar o fato infalível de que somos feitos inteiros de vaidade. E a vaidade, ao contrário do meu saco, nunca tem fim.

Whatever throw up

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Arquivado em impressões, Infamidades