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Boring!

Vamos direto para o refrão. Lá, onde a melodia fica mais festiva, onde a letra se repete e nos dá tempo pra pensar. Direto pro refrão. Sem partes. Vamos decorar tudo antes de prosseguir ou mesmo antes de conhecer o resto. Vamos cheio de ansiedade direto ao que interessa, sem pormenores, acordes introdutórios ou frases que construirão a história. Vamos direto, porque é lá que a solução chega e as coisas se resolvem. É lá que se criam os conflitos e onde se começa a aprender a resolvê-los. No refrão.

Se não tivermos começo, tampouco teremos fim. E é isso que eu quero. Só quero meios, sem nuances, sem modulações ou mudanças de tom. Começaremos nele, ficaremos neles em ato contínuo e, depois de tudo resolvido, entoaremos mais uma vez até grudar bem na cabeça. Estribilho. Quero bis só do refrão, sem as partes chatas e sem a dança pra acompanhar o ritmo. Só o êxtase, o clímax, o cume da vereda. Sem espetáculos de preciosismo, virtuosismo ou vaidade egocêntrica (sic). Vamos ser simples e objetivos, sem delongas ou meio termo.

Se não for pra ser assim, não quero. Não mesmo. Cansei de histórias bobas, tolas e com pouco significado. Cansei dos problemas que se resolverão, da insignificância de certas coisas e das rimas ao final dos atos. Aborrece-me a reclamação das primeiras linhas e a declaração de amor pusilânime das últimas. Enfastia-me os últimos acordes, normalmente decorados por finais felizes.

O refrão – esse sim! – é aquela parte onde as coisas não têm medo ou que as palavras fazem mais sentido. Onde a paz reina e as pessoas se apaixonam. É onde as pessoas se apóiam, se suportam e vivem decentemente. Onde não há maldade, enfermidade ou morte. É o lugar mais perto que as pessoas chegam de acreditar na felicidade. É isso que quero da vida. Um exato e precioso refrão.

Whatever chorus.

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Arquivado em Autobiografia, generalidades, impressões, Introspecção

Um dia numa casa com um adolescente!

Jesus Rodrigues Veloso, 16 anos, cabeludo e punheteiro, filho da classe média. Bem média, do tipo que é rico pros pobres e maltrapilho pros ricos. Ganhou uma guitarra magnífica e um amplificador barulhento. Passava o dia inteiro tocando uma nota só, num só tom e num só acorde. Distorcia, Wha whava, usava delay e não saía disso. Enlouquecedor.
O pai, um homem médio, mas com um pouco mais de sensibilidade não tolhia o filho, mas tentava encaminhá-lo para algo melhor. Ao passo de um mês ouvindo o mesmo bordão de fá, o pai não aguentou. Chegou perto do garoto e disse:
– Escuta aqui filhote, se você está interessado em música, por que não estuda harmonia, técnica, teoria e tudo o mais?
– Qualé velho, tu não sabe de nada!, disse o delinquente musical. “Esse negócio é besteira, merda. Cago pra virtuose. Eu uso meu feeling e não vou contaminar minha sensibilidade com esses conceitos fora de moda!”.
O pai, sempre compreensivo, retrucou:
– Meu filho, me ouça, técnica é técnica. Ou você aprende ou vai ficar nesse marasmo a vida inteira. Desde que eu lhe comprei essa guitarra você só aprendeu uma posição, fixou os dedos nela e não sai disso. Você não acha que precisa de ajuda?
– Que que há pai, qual é a tua?, interrompeu o asno musicante. “Não vem com essa do teu tempo. O negócio agora é insistência. A tua geração tava completamente perdida e só trocava de acorde porque não sabia onde enfiar os dedos. Nós, com o lance da Internet, encontramos o lugar certo. Não precisa variar”.
O pai, visivelmente resignado, virou as costas e deu o braço a torcer. Sentou-se ao meu lado, na sala de sua casa e, num gesto espontâneo ergueu a cerveja e brindou:
– Tô fudido!

Whatever teens

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