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Corpo insano, mente insana.

Nasci tropeçando no cordão umbilical. O ventre da minha mãe com seu umbigo à mostra já não ensejava um bebê de pelica. Caí da barriga gordo, ruivo e resmungão. Fui um bebê chato, que chorava quando tinha que rir e ria quando fazia os outros chorarem.

Tive carinhos acidentados e acidentes no carinhar. Me doeram os borbotões, sangraram minhas canelas, mãos e arranharam minha cara, orelhas e cabeça. Fui muito costurado nos poros e suei para dentro durante muito tempo. Não me brotavam feridas, apenas os hormônios que me saiam pêlos pelos buracos do meu tecido.

Meu cabelo desruivou, minha barriga murchou e os resmungos continuam debaixo da minha pele de pelica. Os meus olhos jaziam cansados do bálsamo desgostoso da infância e dos muitos brinquedos idiotas que tive que engolir. Dos sonhos pueris que tinha, não restaram muitos pedaços, só pra dizer que ainda resta um mínimo de constrangimento e inocência dentro dos badalos da cachola que insiste em reviver um tempo que não volta mais.

Já nasci com dor, o amálgama da minha vida. O sentimento que prima pela minha existência, seja na tristeza ou na mais pura felicidade. A dor construiu os pilares da minha ignorância e dirimiu as controvérsias das minhas dúvidas.

Eu já nasci com 10 anos e sem hemorragia eu não vivo.

So, whatever.

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Amor sublime amor

Nas últimas vezes ela tem sorrido mais. Tem estado mais simpática e mostra cada vez menos indiferença à minha constante e insistente presença. A procuro sempre que posso, olho fotos o dia inteiro. Tenho muita saudade e vontade de estar perto, mas, infelizmente, nem sempre posso. Ela, ao contrário, nunca me liga, nunca me procura e me trata muitas vezes com desdém. Mas apenas um sorriso seu me traz uma felicidade incontrolável e, ainda bem, difícil de digerir. Persisto em fazê-la me amar, como se isso fosse possível a essa altura. Ainda hei de conseguir. Seu olhar não demonstra gratidão pelos inúmeros presentes que já lhe ofertei. Inútil dizer que nunca ganhei nada dela, a não ser a sua insuperável forma de vida. Sua loirice de olhos azuis estonteantes me mata de ciúmes que reprimo veementemente dos pés à cabeça. Minha disposição com ela é interminável, algo que, até hoje, só ela conseguiu. A paciência não se esgota, brota do mais profundo e sincero amor que despendi a alguém que simplesmente não se importa. Muitas vezes isso não me basta e me afasta por poucas horas, mas retorno sempre sem nenhum arrependimento e com a imensa e imponderável saudade que me arremete desde que a conheci. Perfaço integralmente todos os seus passos, abraços e beijos econômicos ao qual tive a sorte de ganhar. Já vi e vivi situações com ela às quais, normalmente, deveria ter me causado nojo ou, no mínimo, certo constrangimento. Nem isso me afastou e dei ainda mais risada, apaixonado pelo seu jeito pouco ortodoxo de se comportar.
Continuo assim, um condenado a amá-la e com o desejo de que ela, acima de tudo, seja feliz. Felicidade esta que, hoje em dia, se resume a qualquer brinquedo colorido que faça algum tipo de barulho. E não me importa se ela dá bom dia à parede, beija o vidro e, rindo, tenta abraçar um raio do sol. Quisera eu fazer isso todo dia, sem nenhuma preocupação. No alto de seus poucos meses de vida ela é quase toda composta de choro, meiguice, sujeira e mimo. Merecidamente e com muito amor.

My Lu.

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Memórias…

Da escuridão do útero, sob o efeito amniótico desse líquido que envolve nossa profunda infusão materna, uma luz brota reluzente e me tira desse espaço quentinho e escuro chamado mãe. Esse feixe de luz que transborda através da boceta cria a esperança fulgás que tanto precisamos ao nascer, crescer e apagar essa luz ao adentrar novamente a ela. Ao nascer, fiquei de cabeça pra baixo e quanto mais me procuravam dentro da barriga, mais eu corria pra dentro da escuridão. Eu gostava das vísceras, do vermelho e de meus vizinhos órgãos como uma perfeita comunidade onde todos tinham função e trabalhavam juntos por um objetivo em comum. Eu era o único parasita, estado que permanece ainda hoje. No dia em que me expulsaram traumaticamente lá de dentro, as coisas mudaram. Comecei a perceber que aquela sociedade orgânica não fazia o menor sentido aqui fora, a começar pelas palmadas que levei na bunda segundos depois de explodir em nascimento e pelo corte impiedoso e arbitrário que me deceparam a umbilica. Até hoje eu tenho um buraco no meio. Dois, pra ser mais preciso.

Na fantasia mais remota do meu parto, esse foi o momento solene em que o criador me deu cria. Enquanto chorava, delirava com o meu leite quente, urrava a atenção paciente, inundava minha fralda absorvente e me esbaldava no ócio somente, ninguém me achava demente e nem me xingava. Já grande, beberrão e matreiro, me lembro com orgulho do tempo em que era careca, mas ainda teria uma longa cabeleira pela frente. Dessa memória escassa e silente, pouco me resta a fazer a não ser aceitar de bom grado o dia que a foda “papai e mamãe” foi mais do que uma mera e prazerosa posição sexual.

Whatever born

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