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O circo da pulga

Pula pulga, pula. Salta e batevoltaquica essa coceira da pata esquerda. Entre nos ralos pêlos da perna e sofregamente me sugue o sangue. Se lhe mato a fome a troco de algumas apupadas no local, você está perdoada. Desculpe tentar matá-la, mas o gesto por vezes abrupto é irracional. Não lhe mataria caso pedisse permissão, pois não é nada intencional.

Pulga, foge da minha mão.

Caso fosse um mero espectador, torceria por você contra mim. Torço sempre pelos subjugados e parasitas. Enfim, não meço esforços para a sua total e irrestrita satisfação. Se lhe fosse semelhante faria o mesmo, talvez numa perna mais bonitinha, mas, gosto, cada um tem um.

Não lhe julgo a atitude, lhe julgo a safadeza de não ficar pra ver. Seu prazer de pulga é enveredado pela sua forma prolixa de morder e não olhar o que acontece. Sinceramente, reveja seus conceitos. Nos meus momentos parasitas, sempre fiquei pra ver o que acontecia, numa mistura de medo e alegria. E se ainda fosse tão pouco visível como lhe é característica principal, seria ainda mais cara de pau. Morderia os lugares mais cabais, mais óbvios e deleitosos de sangue. Seria prazer do começo ao fim.

Se pulga eu fosse, causaria as maiores e mais prazerosas coceiras e saía de cada corpo felizão e de boca cheia. Portanto, aproveite essa brecha que lhe dou, mas não abuse em sua ceia. Uma mordida por dia e mantemos assim a diplomacia. Assim, você se sacia e eu mantenho minha sanidade conversando com você todos os dias. Ah, e me desculpe quando não volto pra casa, mas também não posso ser a sua única fonte de ideologia.

Vamos manter uma relação sadia, tá? Boa noite Pulga, boa poligamia.

Or not. So, whatever.

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Estranho texto

Quando eu era menina as coisas eram mais fáceis. Eram mais singelas, como as bonecas que passeavam pelos corredores da casa dos meus pais. Eram mais simples, como os cachorros que latiam pra mim enquanto eu dançava as danças mais sem sentido que já dancei na vida. Eram mais crédulas, como os passeios que dava com meus pais pela praia, de mãos dadas e sentindo a maior segurança do mundo naquele gesto.

A noite era só mais um momento da vida e não a espera de um novo começo ou de uma nova oportunidade. Minha ansiedade era tola e banal, sem preocupações e sem rugas. As manhãs eram mais alegres e tinham o sabor que os outros dizem que devem ter hoje e, nem sempre, têm. A alegria criança é mais forte que a alegria adulta, apesar de menos intensa. A felicidade adulta é mais complicada do que a felicidade criança, onde coisas improváveis podem trazer felicidade instantânea.

Quando era menina a morte não me habitava. Não morava em mim as comparações, a beleza, a vaidade ou a inimizade. Vivenciava a vida plena, estéril de outros sexos e era capaz de contemplar, sem culpa, uma enorme e saborosa bomba de chocolate. Era capaz de ser chata sem me dar conta disso. Não precisava de bom senso e só agradava quem eu queria. Não ligava pros meus cabelos, para as sujeiras que habitavam minhas unhas ou para a maquiagem que ainda insisto em usar pra cobrir minhas falhas. Eu não tinha falhas quando era menina e nem tinha consciência da falha dos outros. Inocência? Sim, sem dúvida.

Tudo mudou naquele maldito dia em que me sangraram as entranhas. Foi nesse dia, à noite e quase sozinha na praia, que fugi do balanço e saí correndo pra deixar de ser criança. Não sabia que as coisas seriam assim. Não sabia que naquele momento eu deixava pra trás uma época que ainda queria viver hoje. Maldito balanço. Bobo e feio.

Whatever gender

Foto: Fernanda Tralalá

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Uma menina, muitos palitos.

Era uma vez a história de uma menina que plantava palitos. Para cada sorvete que tomava, um palito ela enterrava. E não eram poucos os que ela chupava. A cada dia, a cada decepção ou alegria, um palito entrava para a coleção! E eram tantos sorvetes e de tantos sabores que o jardim estava ficando pequeno.  Em cada palmo da grama verde repousava um item da coleção. De cores diferentes, tamanhos diversos e sabores variados, hora após hora um novo palito surgia no seu quintal.

E a coleção aumentava tanto e tão rápido que a pequena menina começou a plantar nos outros jardins, enfeitando seu bairro e despertando a ira de seus vizinhos, que se deparavam com os pequenos pauzinhos em todos os lugares, por vezes indesejados. Logo a mania foi descoberta na pequena cidade da nanica menina, que se sentia tolhida na sua prazerosa e inocente atividade. Na escola era alvo de piadas maldosas, daquelas que só as crianças são capazes de fazer. Mas ela, mesmo se sentindo solitária, continuou a alimentar o seu gosto por palitos e sorvete. Passou por toda a juventude sem parar um dia sequer de fazer o que mais gostava, sem se importar com o que pensariam dela.

Sua liberdade era, diferente de todos os outros mortais, traduzida naquele singelo gesto. Era o que fazia a diferença entre a liberdade extrema e a infelicidade intensa. Palitos. Sem julgar, subjugar ou estalar os dedos em tom de fantasia, o livre-arbítrio se formava em cada chupada colorida e docemente decorada. Ao contrário do que todos os seus amigos a aconselhavam, a menina não se tornou uma chupadora oficial. Preferiu continuar a situação prazerosa, sendo amadora e colecionadora de sabores. E assim foi durante toda a vida.

Esse ano, num dia de calor, ela morreu. Derreteu sem saber como e nem o motivo. Deixou como legado uma infindável coleção de palitos, que agora são disputados à tapa por admiradores e tarados de plantão.

Seu sabor, ninguém jamais provou

Whatever flavor.

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Um dia, uma praia.

As sete gotas d’água desceram escoradas por aquele corpo belo que se encontrava franzino e desprotegido. Havia certa tristeza e melancolia no ar bucólico daquele final de tarde. As nuvens desenhavam formas extensas e escorridas por causa do vento que insistia em ventar lá no alto e a sacudir todos os cabelos aqui no chão. Com ela não era diferente. Suas mãos delicadas alisavam sua própria cabeça como quem faz carinho em si, mesmo pensando ser a mão de outra pessoa. O jeito esparramado no chão com as pernas estendidas mostravam desleixo e preocupação com alguém que, definitivamente, não estava ali. As marcas na areia à sua volta e suas costas e cabelos pincelados com grãos da praia indicavam uma constante inquietação. Só a via de costas, sem nunca ver o rosto. Apesar da tristeza e solidão aparentes, a imagem não deixava de ser bonita e digna de admiração. Alguns minutos se passaram, mas sem conseguir precisar exatamente quantos foram. A imaginação sobre o que a mulher pensava remeteu à minha realidade e a problemas e saudades que me fariam sentar na areia e agir exatamente como a mulher à beira d’água. Tive vontade de chorar, de compartilhar o que sentia, de exprimir o que reprimi a vida toda e senti certa inveja de não estar sozinho na praia, sentado, enxugando as mágoas e saboreando as alegrias.

Mas o que realmente senti foi compaixão.

A mulher se levantou ainda de cabeça baixa e ombros curvados e seguiu a vida. Não pude ver nada além disso. Levantei e fui até o lugar onde ela se encontrava. No chão, bem próximo ao mar calmo e de ondas pequenas e reconfortantes, eram claras as marcas da água. Havia sete lágrimas, dispostas em formato de lamento e saudade. Ao longe, era possível uma última imagem da mulher, já com a cabeça erguida e as mãos fazendo o movimento de um andar mais confiante. De forma poética, uma onda despretensiosa limpou aquele momento pra sempre e deu paz a quem tanto procurava, pelo menos na minha história.

Whatever I tell you.

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Considerações Olímpicas

Sou emotivo, o que não é segredo pra ninguém. Pra quem lê o que escrevo sabe que sou movido a essa coisa que poucos sabem explicar, muito menos eu.
Desde o começo da Olimpíada estou fazendo tradução de textos escritos por jornalistas que estão em Pequim e que nada tem a ver com o Brasil. Quanto mais leio textos de não-brasileiros sobre o Brasil, mais tenho certeza de que o Brasil ou é um país extremamente admirado ou extremamente depreciado. Não vejo meio termo.

A medalha de ouro que César Cielo ganhou hoje nos 50m contou muito bem essa história. Com propriedade, digo, sem o menor medo de ser piegas, que o texto mais emocionado da Olimpíada até agora foi o da vitória dele. Pela primeira vez vi as palavras “emotion” e ” real olympic spirit” em algum texto que recebi para traduzir. E esse “verdadeiro espírito olímpico” não quis dizer, absolutamente, a emoção da vitória, até porque o jornalista americano está muito mais do que acostumado a escrever sobre medalhas de ouro, vide o quadro de medalhas. O que quis dizer na verdade, foi a diferença do valor das coisas. O valor real das conquistas, o valor real do sentimento de representar um país da forma com que um povo merece, por mais nacionalista que isso possa parecer. A mim, mero tradutor, pareceu uma crítica voraz à absoluta onisciência de Michael Phelps nas piscinas, o incrível nadador que, apesar de ser um obcecado pela água, mais parece um predestinado a ganhar medalhas e um humano (?) que pouco sente o real valor de tantas conquistas olímpicas. Coisas de americano. Ou não.

Pra quem viu o choro descontrolado do nadador brasileiro no pódium ao receber a medalha enquanto ecoava o hino nacional e as clamorosas palmas ouvidas por todo o Cubo D’água, sabe exatamente o que estou falando. É por essas e outras que ainda acho que a emoção vale a pena e que as minorias ainda são as maiores potências. Talvez seja o eterno sentimento de inferioridade do brasileiro ou talvez seja simplesmente o orgulho de ter nascido nesse país. Sei lá. Sei que as melhores histórias e os melhores sentimentos sempre vêm da simplicidade e da honestidade das pessoas, e que a humanidade está cada vez menos preparada para lidar com isso. A busca pela perfeição é chata.

Ao ver Michael Phelps nas páginas dos jornais não me vem à cabeça a imagem da pessoa vitoriosa, do ícone maior, do ídolo absoluto, do super-herói. Confesso, sabendo que serei voto vencido, que, no fundo, ainda prefiro ver a vitória dos menores que não ganham medalhas, dos que não tiveram o preparo e o investimento, dos que não tiveram a base e nem o crédito. Dos que colocam o treino muito acima da própria dignidade e que, apesar do país injusto e egoísta em que vivem, sacrificam muito mais do que podem por saberem que têm apenas isso para vivenciar.

Confesso que acho que a crueldade e a dificuldade anterior à medalha ainda faz o melhor herói e que as melhores cenas passam longe dos louros da glória. Mas isso é só uma opinião.

Whatever medal.

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O que não se apaga

Beija o meu beijo e fecha cara e abre a perna e solvendo o seu desejo desespera voz como se esse algoz me deixasse menos desejoso de todo o seu esforço em me compreender. Essa mancha que inibe tristeza que apavora toda essa demora e beleza que enverga o corpo e sufoca o meu peito meio aberto e certo de que esse é o lugar. É essa a tentativa solavanca e enxerida dessa dor mais desvalida e comedida por tentar se afastar de todo modo e todo medo e todo tudo nesse enredo. Esse vôo cego absorve outro sentido e satisfaz essa libido e ultrapassa e me disseca num cavalgo de açoitar. Sua pele em forma líquida escorre tímida e forma poça nesse poço escuro só de entrada que precisa de apupo para a polpa deleitar. Intercedo esse profundo segredo imaginável e escafedo pela porta até o parto que entrecorta e transporta a minha sede e me concede deleite imediato e intensamente caricato. Fecundo meu mundo com a lembrança doce e amarga que propaga e estraga que alimenta e vicia que afugenta e me sacia. No contorno e seus adornos junto aos gemidos mais urdidos e precisamente merecidos é que se encontra o indelével beijo. O indelével beijo. Indelével.

Whatever kiss

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Gordo, barbudo e sem graça

O papai Noel, sabidamente um velho batuta, veio voando lá do Pólo Norte, explorando de maneira terrível suas pobres e escravas renas. Sempre sentado com sua bunda gorda e vermelha no trenó, papai Noel escraviza também seus duendes, seres pequeninos, de roupas verdes e com certa carga de meiguice à mostra. Com os triglicérides literalmente nas alturas e com alto risco de enfarte, esse velho apenas fica sentado nos shoppings, não reage aos menores estímulos e nunca faz exercício. Eles que fazem – os duendes -, de forma industrial, todos os brinquedos que o velho gordo irá distribuir de forma desigual entre os desiguais. O Noel é o boss, se é que me entendem. Manda, desmanda e só visa o lucro. Essa baleia vermelha de gorro ridículo só leva o crédito. Presentes bons para os ricos e podres para os pobres. É por essas e outras que as crianças pobres descobrem muito mais rápido a verdade e amadurecem mais depressa. E, pasmem, descobri que ele não existe. Todas as criancinhas se comportando bem, tratando bem os amiguinhos, tirando notas azuis para quando chegar a época natalina, ser lembrado pelo infame velho barbado, barrigudo e de roupas rubras. Numa incomensurável conspiração adulta – talvez a maior da história do mundo – o papai Noel é a maneira preguiçosa dos pais delegarem um pedaço da educação a um ser fantasioso e livre de culpas e dores. Um mundo inteiro reunido para enganar uma criança é a maior demonstração de covardia que se tem notícia. É claro que há todo um contexto lúdico para as crianças, mas convenhamos: O que há de lúdico num borra botas de vermelho?

E o pior é a aclamação que esse glutão recebe. Experimente xingar ou se referir de maneira pouco respeitosa a essa entidade. Papai Noel é uma espécie de Deus natalino. Tenho certeza que antes de morrer ainda verei em alguma rua dessa cidade uma igreja com os dizeres: Igreja Presbiteriana do Amado e Robusto Bíblico Noel. E sairá de lá de dentro, um pastor endiabrado e com um gorrinho dizendo que o fim está próximo e que precisamos ser devotos. Aí, exatamente nesse dia, seremos apenas renas e duendes, se já não o somos.

Whatever ho ho ho.

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