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Boring!

Vamos direto para o refrão. Lá, onde a melodia fica mais festiva, onde a letra se repete e nos dá tempo pra pensar. Direto pro refrão. Sem partes. Vamos decorar tudo antes de prosseguir ou mesmo antes de conhecer o resto. Vamos cheio de ansiedade direto ao que interessa, sem pormenores, acordes introdutórios ou frases que construirão a história. Vamos direto, porque é lá que a solução chega e as coisas se resolvem. É lá que se criam os conflitos e onde se começa a aprender a resolvê-los. No refrão.

Se não tivermos começo, tampouco teremos fim. E é isso que eu quero. Só quero meios, sem nuances, sem modulações ou mudanças de tom. Começaremos nele, ficaremos neles em ato contínuo e, depois de tudo resolvido, entoaremos mais uma vez até grudar bem na cabeça. Estribilho. Quero bis só do refrão, sem as partes chatas e sem a dança pra acompanhar o ritmo. Só o êxtase, o clímax, o cume da vereda. Sem espetáculos de preciosismo, virtuosismo ou vaidade egocêntrica (sic). Vamos ser simples e objetivos, sem delongas ou meio termo.

Se não for pra ser assim, não quero. Não mesmo. Cansei de histórias bobas, tolas e com pouco significado. Cansei dos problemas que se resolverão, da insignificância de certas coisas e das rimas ao final dos atos. Aborrece-me a reclamação das primeiras linhas e a declaração de amor pusilânime das últimas. Enfastia-me os últimos acordes, normalmente decorados por finais felizes.

O refrão – esse sim! – é aquela parte onde as coisas não têm medo ou que as palavras fazem mais sentido. Onde a paz reina e as pessoas se apaixonam. É onde as pessoas se apóiam, se suportam e vivem decentemente. Onde não há maldade, enfermidade ou morte. É o lugar mais perto que as pessoas chegam de acreditar na felicidade. É isso que quero da vida. Um exato e precioso refrão.

Whatever chorus.

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Arquivado em Autobiografia, generalidades, impressões, Introspecção

Palavras que não dizem "ni".

Quanto sonho e quanta fala nessa tarde livre de fantasia. Quanta graça e quanto mistério depois da esquina de cada rua. Também precisa a lágrima achar um chão da mesma forma que a distância sempre encontra a solidão. Sufoca a gente de carinho e namora o futuro na viagem sem volta. O quão possível de brincadeira nesse jogo que passa além da liberdade se esgota e lambe dentro da natureza ardente e tenra de um lençol branco. Essa é a saudade simples e sábia de um órgão que simplesmente não pensa.

Essa espera que arde cega e sedenta no jardim do peito. Quanta fala e quanto sonho nessa noite ocupada de alegria. E se faço feliz meu mundo e encho de estrela meu céu, chego ao fim do dia sem nada pra lamentar ou pra sofrer. Nenhuma arte e nenhuma sorte me comove mais que a coxa quente dessa bela e provocante idéia. O que me chega macio e que me soa como uma música numa manhã de sol é a parte mais clara e devota de um dia comum que chega e que eu torço pra nunca mais ir embora. E a língua trabalha mesmo assim, sem fala e nem palavra. Meu quase corpo, esgotado de pudor e inocência, olha para o outro lado da margem, sem nunca avistar o mar.

Eu olho pra frente sem nunca ver o agora. Essa é a minha encruzilhada: Um caminho de 4 rotas que eu perambulo e docemente volto ao mesmo lugar, sempre pela última vez. É o encantamento e a magia da inconstância.

Whatever crossroad

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Arquivado em Autobiografia

Um dia numa casa com um adolescente!

Jesus Rodrigues Veloso, 16 anos, cabeludo e punheteiro, filho da classe média. Bem média, do tipo que é rico pros pobres e maltrapilho pros ricos. Ganhou uma guitarra magnífica e um amplificador barulhento. Passava o dia inteiro tocando uma nota só, num só tom e num só acorde. Distorcia, Wha whava, usava delay e não saía disso. Enlouquecedor.
O pai, um homem médio, mas com um pouco mais de sensibilidade não tolhia o filho, mas tentava encaminhá-lo para algo melhor. Ao passo de um mês ouvindo o mesmo bordão de fá, o pai não aguentou. Chegou perto do garoto e disse:
– Escuta aqui filhote, se você está interessado em música, por que não estuda harmonia, técnica, teoria e tudo o mais?
– Qualé velho, tu não sabe de nada!, disse o delinquente musical. “Esse negócio é besteira, merda. Cago pra virtuose. Eu uso meu feeling e não vou contaminar minha sensibilidade com esses conceitos fora de moda!”.
O pai, sempre compreensivo, retrucou:
– Meu filho, me ouça, técnica é técnica. Ou você aprende ou vai ficar nesse marasmo a vida inteira. Desde que eu lhe comprei essa guitarra você só aprendeu uma posição, fixou os dedos nela e não sai disso. Você não acha que precisa de ajuda?
– Que que há pai, qual é a tua?, interrompeu o asno musicante. “Não vem com essa do teu tempo. O negócio agora é insistência. A tua geração tava completamente perdida e só trocava de acorde porque não sabia onde enfiar os dedos. Nós, com o lance da Internet, encontramos o lugar certo. Não precisa variar”.
O pai, visivelmente resignado, virou as costas e deu o braço a torcer. Sentou-se ao meu lado, na sala de sua casa e, num gesto espontâneo ergueu a cerveja e brindou:
– Tô fudido!

Whatever teens

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Arquivado em Contos, Pura Estupidez

Qual o tom?

Sob o som original de coisas que me emocionam eu escrevo essas palavras. Um Sol, um Si bemol esquisito, um aqui e muitas sétimas acolá eu deslizo meus dedos sobre o que me complementa. As variações impressionam, salientam e inspiram o talento e a pouca musicalidade que insiste em existir dentro do meu cérebro diapasão. O batuque é intermitente, a melodia é pegajosa e as muitas freqüências transitam no mesmo indiscutível quatro por quatro de minha existência. Sob nonas, quintas, terças e muitas feiras, os dias passam com a clave de um sol extremamente límpido e substancial. Em singelas seis cordas de aço ou nylon a arte influi na vida, nos gestos e atitudes que declaram a música como forma de expressão. Não toco, não canto, não me dignifico entre essa arte, mas compactuo em cada slide entre cada traste, meio tom sobre meio tom. Os dedos se colocam em maiores e menores, sustenidos transeuntes de um braço bêbado, dedilhando a ínfima teoria que pouco vale entre quem consegue fazer a diferença. Somos todos maiores, oitavos inspirados sobre uma das sete artes. Música não é e nunca foi poesia, pois é a mesma coisa. Nunca teve fórmula e, no entanto, é a maior fonte de expressão de qualquer idiota sem cérebro que continua freqüentando a segunda série após decorar a oitava, a sexta, ou a quarta sinfonia de um cidadão sem orelha. Música é alma e estado de graça, onde o desafino é erro cometido no cotidiano de quem mais importa na vida. Amor, ternura e sensibilidade que faz chorar quem prega e finge a dureza harmônica e cristalina sob qualquer outro aspecto da vida, onde o coração forja um paradido fajuto de baquetadas sem pegada alguma. É um mundo onde cifras, tablaturas e audições mais atentas desmistificam ídolos e apagam a admiração contumaz e desenfreada sobre qualquer ser humano. Há extraterrestres, sem dúvida. Há também pessoas frustradas, como quem vos escreve, que sempre sonhou em ser lírico, poético e numa simples tríade de palavras conseguir expressar um monte – ou poucas e singelas – notas que delimitassem a sutil diferença entre a emoção e a euforia.

Whatever tone

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Arquivado em Autobiografia