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Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.

Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.

Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.

Naked, dressed or… whatever.

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Minha massa cinzenta é concreto!

A armadilha implacável de uma lição infalível num ritmo alucinante deixou o meu destino, iminente, estagnado e ecoando na minha cachola. De todas as idéias infindáveis que me escorrem cérebro adentro, a mais importante é a última que fica. Toda noite adquiro para o patrimônio que mora dentro da minha cabeça algum princípio idiota que jogarei fora no dia seguinte. São as formas estranhas e um tanto singelas de formação de uma mente insana e humanamente incontornável. Não sou volúvel e nem mesmo mudo de idéia rapidamente. Muito pelo contrário.

Minha cabeça dura e cérebro mole formam um par perfeito para mandar nesse corpo descontrolado que possuo e pretendo manter, mesmo que seja à força e regado à cerveja e loucura. Meu corpo é um lacaio do meu cérebro hiperativo. Eu penso, penso, penso e chego a alguma conclusão que, poucos minutos depois, já não lembro mais. Isso, entre outras coisas, significa que perco mais de dois terços da vida pensando em coisas que jamais sairão debaixo dos meus cabelos. Portanto, ou eu sou um desperdício para mim mesmo ou a punheta mental é essencial à manutenção da minha (in) sanidade, mesmo que não me leve a lugar nenhum. Todas as idéias perdidas – boas ou não – são apenas um reflexo da minha enorme capacidade de fazer as coisas não acontecerem. Sou um empreendedor às avessas e, por incrível que pareça, me absolvo disso plenamente. Sempre consigo achar um jeito mais difícil de fazer coisas que são fáceis. E em hipótese nenhuma admito que isso é culpa minha.

Quando nasci, mamãe, ainda de pernas pra cima e num ato instintivo, disse ao médico que me surrava a bunda com fervor:

– Doutor, eu que já carreguei o menino por 9 meses posso dizer com toda propriedade: não se preocupa em bater nele não que o menino já vai chorar.

Naquele exato momento, ainda lambuzado de sangue e com cheiro de vísceras, eu aprendi – para sempre – que as coisas não precisam sempre acontecer do modo mais difícil, mas há convenções nessa puta dessa vida que dificilmente deixarão de existir.

Whatever brain

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Não tinha teto, não tinha nada.

Eram duas as janelas abertas naquela casa já com pouca tinta e corroída pelo tempo. Algumas partes denunciavam a cor que, quase em harmonia, se misturava com o musgo recorrente no sopé de cada parede. Imponente, a frente do velho casarão mostrava a quem passava certa decadência, apesar do belo jardim que se espalhava ao longo do terreno. Era claro o cuidado e a manutenção rigorosa que era dada àquela construção histórica.

A rua, naquele final de outono, era toda permeada por folhas de todas as cores. As árvores desfolhadas em tons de amarelo eram em sua maioria de ipês que formavam uma espécie de túnel para quem passava por baixo. Do meio da rua mal se podia avistar o céu, a não ser pelas poucas passagens que as árvores caprichosamente deixavam e que criavam milhões de pequenos focos de luz, fazendo da rua um belo projeto paisagístico.

Nas duas janelas abertas era possível ver, com certa atenção, alguns detalhes que faziam muito sentido para alguém com um pouco de imaginação e sensibilidade. A cena das duas janelas permanentemente abertas se completava. O que se via numa delas terminava na outra. Era possível sentir que o lugar havia sido palco de muitas histórias tristes e felizes, assim como em outra casa qualquer. Mas não era isso que chamava a atenção dos transeuntes que ali passavam.

A inquietação dentro dos cômodos e a preocupação aparente com o mundo exterior delatavam a insegurança dos moradores daquele lar absorto em um mundo absolutamente particular. A constante presença de visitantes mostrava que ali era um mundo misterioso que permanecia na imaginação das pessoas e parecia não deixar transparecer completamente o seu teor. Ao final de uma cuidadosa olhada, era presumível que existissem esconderijos por todos os lados. Não esconderijos físicos desses onde as pessoas se escondem, mas esconderijos onde todos os medos e agruras são deixados lá, para que ninguém veja.

Apesar de passar constantemente pela rua onde está a casa, é difícil descobrir todos os seus segredos e idiossincrasias. Diariamente é possível ver algo diferente, algo que encante ou algo que amedronte. E ela parece não ter fim nos seus detalhes e nos seus moradores.

Essa é casa que mora dentro de mim.

Wherever I live.

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