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Os 5 sentidos – Fala (?)

Ah, cala a tua boca. Não enche o meu saco com a tua culpa. Não me acuse das coisas que você faz tão bem e sem o menor constrangimento. Esse teu contento em falar, principalmente o que não lhe convém, é a tua mais preciosa e louca ousadia. Esse som gutural que sai pelas tuas narinas enquanto rosnas palavras sem nexo me deixa enojado de ter beijado tua boca tantas vezes e por tantas vezes ter feito sexo enquanto você dizia coisas irreconhecíveis apenas para fingir prazer. Essa tua simpatia radiante, essa alegria irritante com que narras essa sua vida insignificante é a maneira mais fácil e dócil de convencer os outros de que és alguém mais que uma chata do caralho. Ou tu achas que ninguém percebe que essa mania interminável de nunca parar de falar é a defesa que achaste para ninguém perceber que és uma escrota que nada tem a acrescentar na vida de ninguém? A mim não enganas mais.

Eu, que fui condenado pela vida a te ouvir todos os dias, frase após frase, parágrafo após parágrafo, lamurio atrás de lamurio, me contento com a sua mudez. Talvez assim, no remoto e longínquo dia em que permitires que o silêncio tome posse da tua língua, você fique mais bonita, mais simpática e menos estúpida. Nesse dia, exatamente nesse dia, estarei ao seu lado e permanecerei em completo silêncio, contemplando a sua incrível agonia de deixar transparecer sua mediocridade apenas pelo gestual. Prometo que só responderei ao teu silêncio com um silêncio ainda maior e um bocejo antes de me retirar da tua presença. O problema em si não é a tua fala, mas a tua imensa vontade de falar. A fala é o aparelho excretor do cérebro.

Whatever talk

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Desejos!


Eu quero o nome disso. Eu quero o nome das coisas, quero o teor, a procedência. Eu quero saber do que são feitas e quero também um pedaço. Quero compreender o gosto daquilo que me enche de asco. Quero um frasco, um pote, um punhado daquele negócio. Quero saber quando é o fim desse consórcio do corpo, o seu significado, o motivo das cores, do aspecto dócil e doce de cada coisa que me sinto culpado. Quero saber do que se trata a ânsia que habita as minhas coisas e o fundamento exato do eterno batuque dos meus dedos.

Quero ver a minha cara quando converso e sentir o que eu digo aos outros. Quero ver as minhas reações e me julgar apenas pela visão. Quero um pouco mais de instrução. Quero um pouco mais de êxtase, de autoria, quero as coisas mais assimétricas, divididas por categoria. Quero entender a demagogia, habitar a mentira e unir inteiramente minha alma ao meu corpo numa plena orgia. Quero aprender a magoar os outros sem sentir culpa, apenas acreditando naquilo que creio. Quero o egoísmo alheio com seus devaneios.

Quero entender o significado da redenção e o porquê do perdão ser mais valioso do que a integridade. Quero a erudição da calma e a sabedoria do riso. Quero entender mais de improviso nessa tão atrevida e incoerente biografia. Não procuro mais essência.
Quero conhecer a frase que deu início ao prefácio da minha vida.

E eu quero tanto o nome das coisas. Quero saber simplesmente para procurar no Google.

Whatever search

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