Lá bem longe

Afasto de cada metro, de cada quilômetro, de cada dia. De contagens sem número que me mantém longe dos traços mais sinceros de quem eu sou. Dos meus pedaços, das minhas fotos, de meus sentimentos mais frágeis. Afasto dos eixos do meu corpo, do próximo retorno, da algoz falta que me fazem. Fujo da realidade escancarada que não quero ver e nem saber o que se tornaram.  Moro no beco, no escuro da minha imaginação, onde recrio os próprios personagens da minha vida. Limito suas histórias, os faço melhores que são e assim se tornam maiores e mais íntegros, mais inteligentes e com mais sentido dentro da vida que escolhi pra mim. Sou egoísta, pois prefiro que eles vivam do jeito que eu acho melhor. Não do jeito deles ou do jeito que a vida os fez. Do meu jeito, com a minha poesia e com o mesmo infantil e inocente traço que os desenho como vítimas da minha saudade. Assim os mantenho longe e os guardo dentro de uma caixa que mora dentro de mim. Abro de vez em quando, olho, remexo e volto a fechar com a esperança equilibrista de tentar me adaptar ao que um dia chamei de amizade.

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Arquivado em Autobiografia, impressões, Infamidades, Pecados, Sem categoria

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