Arquivo da tag: escuro

Meu chão

Aqui o chão que piso cessa. Cassa a pegada frágil no caminho torto e apertado por onde piso. Meus pés descobrem a linha tênue e simples de coisas que havia esquecido. Param as pernas de andar por onde caminho. Aqui o piso cessa. Me cede o chão e me mede o princípio. Seca o tempo da couraça e poupa o nervo que dissolve quando encontra a minha casca. Abraça o chão. Voa cego na escuridão e orbita de peito aberto na mais vaga ilusão. Aqui nessa sombra que me engole, nessa massa que me mancha, nessa mesa que me mata.

Aqui o piso cessa.

Nessa mesma brasa que ilumina esse breu. Nesse mesmo contorno por onde pesam o resto de mim acima do chão. Atravessa até onde não exista mais teto no andar de baixo. Aqui o piso insiste em permanecer sobre o pé. Não há acesso à falta de gravidade. É treva a terra que não cede. Aqui o piso cessa. Aqui o piso não tem paz.

Whatever floor

1 comentário

Arquivado em Introspecção, Paz

One more picture!


All rights reserved!

Na tela do meu cinema, espelho de minha alma, o narcisismo pulsante de artérias vermelhas de vergonha formam listras que me incomodam. Fico sem cor, acanhada, rio risada fechada de dentes cobertos, um preto e branco colorido reflete o espelho que não paro de olhar. Ajeito cabelo, pernas, tetas e surpreendo minha imagem assim, meio de lado, meio querendo saber o que pode acontecer. Um cigarro queima entre dedos que admiram uma mulher sobre a camisa branca e a parede que insiste em permanecer parada sobre o lado esquerdo da minha sensualidade. Unhas brilham e refletem o fogo permanente que brota entre minhas pernas cruzadas e ansiosas em alcançar o divino foco de minha máquina. Detalhes passam despercebidos sob o olhar curioso de quem escreve e narra a cena admirada pela fotógrafa. O botão de power negligencia a escuridão de um monitor feliz em refletir a imagem singela e bela de quem não sabe pra onde olhar. A foto significa a sutil diferença entre ver o que vê a autora ou o que vê quem vê o conceito. Uma tela de algumas polegadas traduz toda a nicotina envolta em meu pulmão fêmea, onde as narinas se afinam nas tragadas flagradas pela lente compulsiva de minha maior arte. E nesse escuro infinito, onde a tela cheia de mim ilumina poucas partes de minha ansiedade, a silhueta inquieta explica ao mundo a visão eterna que terei de mim mesma. Talvez sem o cigarro.

Whatever female

3 Comentários

Arquivado em impressões

Gostei da brincadeira das fotos…

Todos os direitos reservados!

O mundo ficou todo escuro. Virei um furo em meio à tela preta. Uma tarjeta da censura por todos os lados. Calado, não conseguia ver nada. Cada pedaço de breu ritmava a música da noite e sob o açoite da minha alma encarnei e voltei ao pó. Só, sobrei eu no meu mundo todo vazio. Um pretinho básico, clássico e sem maquiagem. Encontro-me na triagem de um futuro esperançoso, alegre e definitivo. Criativo e colorido, projeto imagens que se tornam cada vez mais claras e, por serem tão raras, tento ao máximo não esquecer e nem lembrar muito. Num circuito em que não me acho, a escuridão solitária revigora a alma e traduz a imaginação do meu estado de espírito. Desacredito toda forma de claridade e, sôfrega e impunemente, desacelero pensamentos que ecoam sob a égide total da ausência de cor. É um favor que faço à minha sombra, que enfim pode descansar e parar de ir de lá pra cá numa perseguição continua e desguarnecida. É a amiga das minhas maiores sensações e dá transparência a todos os meus sentidos, exceto a visão. É essa escuridão que me sensibiliza o tato, o olfato e o paladar, no sentido mais carnal que a palavra possa ter. Meter o pé pelas mãos num infinito onde só meio rosto pode aparecer.

Whatever blackout


2 Comentários

Arquivado em impressões