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Shhh…

O silêncio, tão necessário em meio às grandes sinfonias desafinadas do cotidiano, também é extremamente útil pra se ouvir pequenos ruídos. Pergunto então – por que não calar tudo para ouvir as ondas do nada emitidas por ninguém, no encontro da ininteligibilidade com a falta de ressonância? Mesmo na vida habitual, onde os sons são todos, por que uma alma nobre não pode se dirigir a uma alma presunçosa na mensagem da mudez, na comunicação ansiosa de quem perscruta o buraco da fechadura da existência?

Pois só os inexatos e os inadequados não compreendem a eloquência do não-dito e se prendem ao superficial do transmitido expressamente. E, assim, jamais ouvirão o que é comunicado no ausente, o intercâmbio profundo do que se calou sem ter falado. Pois agora, mais do que nunca, entre os desentendimentos do enunciado e do expressado, vale é a mensagem em branco, descrita na tela em tinta invisível e lida por locutor mudo.

A moral contida é que só se comenta um silêncio com outro silêncio ainda maior, assim como só um imenso bocejo preenche um incomensurável vazio.*

O meu silêncio passa por outros estágios, ainda mais dissonantes. Perpetua-se o minuto que dura horas. A falta de barulho é transmitida em ondas curtas e, por incrível que pareça, nunca ninguém ouviu, nem mesmo eu que sou o eco daquilo que falo. Ali, parado e quieto, admiro a mais completa manifestação do sentimento humano: a falta e a saudade das coisas.

Whatever sounds

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Arquivado em Autobiografia, Citações, impressões, Introspecção, Millôr

Você por aqui?


O significado dos lugares não existe. Eles não são significativos sem as pessoas. Eles não são mais nem menos sem elas, que o fizeram, o construíram e lhe deram vida. É engraçado como associo sempre um lugar a uma pessoa. E não faço isso conscientemente, juro. Nos lugares onde estive, por onde passei e em muitos por onde pernoitei, sempre me lembro de alguém que, ou estava comigo, ou simplesmente estava lá. Digo isso porque costumo prestar muita atenção nas coisas que acontecem ao meu redor e gosto, sempre e mesmo que esteja acompanhado, de ficar em silêncio e reparar no cotidiano das pessoas. Reparo o olhar, as expressões, as linhas faciais, o amor e a raiva que circunda o momento. E tanto faz se é numa rua de terra batida no fim do mundo, em uma grande e poluída cidade de concreto ou na mais paradisíaca praia. Meu estado de espírito é muito mais forte que meus olhos, pois assim consigo enxergar muito além do que uma bela ou triste paisagem. No meu mundo cego, onde não há tato, olfato, paladar e sou surdo, as coisas acontecem sem eu querer e fora da minha alçada. Ainda bem, pois se eu controlasse o mundo, seria muito pior que já é. Sempre fui um árduo fã do acaso e quem me conhece sabe muito bem disso. Nunca procurei muito as situações, e, às vezes, essas ocasiões acontecem muito menos do que gostaria. O acaso compõe a melhor música, faz a melhor arte, inspira o melhor momento e cria o mais bonito momento de amor. Não há nuances nos desencontros, não há nuance nas coincidências, não há acaso por acaso, a não ser como retórica. Se o meu pé está indo pra lá e o seu pra cá, algum motivo tem. Acredito nisso piamente. Acredito mais nisso do que no próprio acaso.

Whatever happen

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