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Shhh…

O silêncio, tão necessário em meio às grandes sinfonias desafinadas do cotidiano, também é extremamente útil pra se ouvir pequenos ruídos. Pergunto então – por que não calar tudo para ouvir as ondas do nada emitidas por ninguém, no encontro da ininteligibilidade com a falta de ressonância? Mesmo na vida habitual, onde os sons são todos, por que uma alma nobre não pode se dirigir a uma alma presunçosa na mensagem da mudez, na comunicação ansiosa de quem perscruta o buraco da fechadura da existência?

Pois só os inexatos e os inadequados não compreendem a eloquência do não-dito e se prendem ao superficial do transmitido expressamente. E, assim, jamais ouvirão o que é comunicado no ausente, o intercâmbio profundo do que se calou sem ter falado. Pois agora, mais do que nunca, entre os desentendimentos do enunciado e do expressado, vale é a mensagem em branco, descrita na tela em tinta invisível e lida por locutor mudo.

A moral contida é que só se comenta um silêncio com outro silêncio ainda maior, assim como só um imenso bocejo preenche um incomensurável vazio.*

O meu silêncio passa por outros estágios, ainda mais dissonantes. Perpetua-se o minuto que dura horas. A falta de barulho é transmitida em ondas curtas e, por incrível que pareça, nunca ninguém ouviu, nem mesmo eu que sou o eco daquilo que falo. Ali, parado e quieto, admiro a mais completa manifestação do sentimento humano: a falta e a saudade das coisas.

Whatever sounds

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Horizontes

Aconteceu há alguns dias. A imensa baía de Santos salta aos olhos de uma maneira cada dia diferente. De manhã cedo o cinza da areia se mistura com o emanar da luz natural, enquanto o céu faz seu trabalho de pintar tudo de azul. Beira-mar, com ondas bem pequenas, os pés são sobrepostos pela água, enquanto pequenos barcos enfeitam, ao longe, o cenário cada dia mais bonito. Na silenciosa entranha dessa paisagem, os tons de verde sobre a água reluzem o amanhecer e o horizonte tórrido e infinito desmistifica a lonjura de um inabalável silêncio. O cheiro da praia é outro nas manhãs. As pessoas que passeiam têm parte do rosto ocupado por olhos iluminados e outra parte escondida pela sombra, como se ainda buscassem um espaço no travesseiro há pouco abandonado. Conforme os raios se tornam mais intensos, mais intensas começam a ser as pessoas. Nas pegadas deixadas sobre a areia, numa confusão sem direção, são desenhadas histórias, nomes, corações e sentimentos. A praia, inerte e quintal do mundo, sorri todas as manhãs, dando preferência a dias claros e com pouca nuvem. Ao cair sobre o mar, as tardes se estilhaçam e o dia nos mostra sua tristeza, num lusco-fusco que quase chora. No vazio do crepúsculo terrestre, esse alarido misterioso de cores inimagináveis se transforma num sossego letal. E a areia fica fria, a água um pouco mais crespa e branca, as pessoas mais ríspidas e cansadas e a paisagem mais vazia e solitária. E, enfim, a noite nos tapa a cara. A partir desse momento não olhamos mais pra ela com o mesmo fulgor e paixão. Não olhamos mais para o mar. Não olhamos mais para a areia. Mas, mesmo na profunda escuridão da noite, temos a certeza consoladora de que outros dias virão, cada vez mais inconfundíveis.

Whatever sunny

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