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Teor

O sumo da fruta próxima, da palavra grossa, da pessoa frouxa. O extrato borda, a letra acorda, o mar centelha numa dança amorfa. As paredes entram, o ar incensa, o espesso afina. Os lares brotam, os filhos parem, as portas morrem no concreto cru. A porra jorra, concentra gozo, invade o poço onde mora o amor. Impera a tora, meu porto a vela, a velha senhora de ossos à mostra. Invade o cheiro, ampara o óvulo, ausculta a parede do corpo inteiro. Corre o plasma, escoa o líquido, sobe à tona sem ar no peito. Respira. Volta e multiplica o espaço, ganha mais um maço, alastra a gosma sem limite de tempo. Avança os lares, ímpares inspirados em terços perfumados, carne que coincide com a sua carne. Estranho pedaço, trêmula chama de memória justa, venha e não avise. Venha e, de repente, torne invisível esse meu mundo possível.

Whatever possible

*Texto escrito para o Blog Rebuliço, da minha irmãzinha Tati Fávaro.

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Só mais um texto esquizofrênico…

Espelho de vida em metades iguais,
Uma lá outra cá.
Cada imagem designa um ser,
Antagônicos por si só.
Enquanto um ri o outro chora,
Quando um chama o outro vai embora.
Só há uma linha tênue de meio termo,
Que me encontro uma vez ao ano,
Mas minha lucidez está em uns dos lados,
Ora lá, ora cá.
É quase uma esquizofrenia consentida,
Pensada e analisada.
É fuga, é solução de vida.
É metade quente e metade fria.
Não há distância e nem local,
É cada igual em euforia.
Simplesmente diferente,
Alheio a mim mesmo em pessoa e prosa.
Qual escreve e qual só sente,
Pra mim eu sou dois,
Pros outros, muitos,
O agora, depois.
Meu maior teste, o texto.

Whatever who?

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Só uma brincadeira infame!

Pelo amor
Pêlo em pé
Pêlo paixão
Pelo que é
Um pêlo
Por ela
Pela santa
Pêlo na perna
Sem pêlo
Pela estética
Pêlo prazer
Pela fonética
Parte do pêlo
Pela pele sai
Pêlo à parte
Pelo que cai.
Pêlo amor de Deus
Pelo que cresce na barriga
Pêlos que nascem teus
Pelos que originam a vida.

Whatever for/hair

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Qual o tom?

Sob o som original de coisas que me emocionam eu escrevo essas palavras. Um Sol, um Si bemol esquisito, um aqui e muitas sétimas acolá eu deslizo meus dedos sobre o que me complementa. As variações impressionam, salientam e inspiram o talento e a pouca musicalidade que insiste em existir dentro do meu cérebro diapasão. O batuque é intermitente, a melodia é pegajosa e as muitas freqüências transitam no mesmo indiscutível quatro por quatro de minha existência. Sob nonas, quintas, terças e muitas feiras, os dias passam com a clave de um sol extremamente límpido e substancial. Em singelas seis cordas de aço ou nylon a arte influi na vida, nos gestos e atitudes que declaram a música como forma de expressão. Não toco, não canto, não me dignifico entre essa arte, mas compactuo em cada slide entre cada traste, meio tom sobre meio tom. Os dedos se colocam em maiores e menores, sustenidos transeuntes de um braço bêbado, dedilhando a ínfima teoria que pouco vale entre quem consegue fazer a diferença. Somos todos maiores, oitavos inspirados sobre uma das sete artes. Música não é e nunca foi poesia, pois é a mesma coisa. Nunca teve fórmula e, no entanto, é a maior fonte de expressão de qualquer idiota sem cérebro que continua freqüentando a segunda série após decorar a oitava, a sexta, ou a quarta sinfonia de um cidadão sem orelha. Música é alma e estado de graça, onde o desafino é erro cometido no cotidiano de quem mais importa na vida. Amor, ternura e sensibilidade que faz chorar quem prega e finge a dureza harmônica e cristalina sob qualquer outro aspecto da vida, onde o coração forja um paradido fajuto de baquetadas sem pegada alguma. É um mundo onde cifras, tablaturas e audições mais atentas desmistificam ídolos e apagam a admiração contumaz e desenfreada sobre qualquer ser humano. Há extraterrestres, sem dúvida. Há também pessoas frustradas, como quem vos escreve, que sempre sonhou em ser lírico, poético e numa simples tríade de palavras conseguir expressar um monte – ou poucas e singelas – notas que delimitassem a sutil diferença entre a emoção e a euforia.

Whatever tone

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Substantivos

Desafiando a sorte,
Em saída de qualquer parte,
Em que predomina o porte,
No que denomina a arte.
Que desfigura a vida,
Que desmascara a fala,
Em ponto que não tem vírgula,
Em frase que a boca cala.
No grito que não tem gesto,
No símbolo que não significa,
Em cada crise de fato,
Que abala, que cria conflito.
O meio que surge mascara,
Esconde na fria metade,
Desespero em choro criança,
Pecado em cabeça de frade.
Toca dentro do peito,
Insurge e treme corpo,
Aquilo que não se explica,
Aquilo que finge desgosto.
Sai de forma rara,
E, triste, toca pra frente,
Sabe que a vida segue,
O nasce que vira poente.
Noite que nasce de dia,
Céu que confunde verão,
De nuvem que não me basta,
De tempo que não me dão.

Whatever rhymes

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