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Traços, destino e infamidade!

Meu mar calmo anda agitado. Anda com ondas altas e poucas marolas. Bonança não se vê mais, nem mesmo no horizonte. Nem de longe parece a maré calma e torturante que assolava minha canoa. Nesse pedaço de mar preto por onde passo, arremesso as ondas pra cima dos outros com algum pudor. Aprendi – a duras penas – a ser assim, um pouco mais egoísta com os outros e mais fiel comigo mesmo, mas ainda sinto dentro do meu barco as ondas que batem nos barcos alheios. Isso também me fez assimilar um pouco melhor o agito do meu mar e a tornar meu porto um pouco mais seguro.

A proa aponta o destino que traço naquele filete que já desenhei faz tempo na minha cabeça. A popa desmancha alguns detalhes, deixando pra trás alguns sonhos frustrados, um pouco de arrependimento e a certeza marota e intermitente que assola minha rota. Só o que me importa hoje em dia é ir. Ir, mesmo que sem destino algum ou que seja esse aquele destino que foge das nossas mãos. Ir, mesmo que não haja razão ou que essa razão seja ainda maior que a própria vontade.

Meu mar cada vez gosta mais do desconhecido e meu barco já balança menos do que outrora. Será agora a minha viagem sem volta? Será agora meu partir sem retorno?

Whatever is OK.

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Arquivado em Autobiografia

Um textículo confuso!

O dia que foge de mim e a noite que foge do dia. A lua que se opõe ao sol e o sol que não atinge a sombra que vive no breu que habita a solidão. A solidão foge da alegria que evita o medo que nada tem a ver com a coragem. A coragem some de mim que fujo da vida que foge da morte. A morte escapa da luz e vive no escuro que se perde no quarto todas as manhãs. A terra sofre com a água que apaga o fogo que foge do vento.

O vento não foge.

A noite não passa por mim e você não passa do dia. A lua do sol e o sol da sombra. A sombra do breu e o breu da solidão. A solidão da alegria e a alegria, por si só, não vive sem medo. O medo tem medo da coragem e a coragem me habita só de vez em quando. O quando se assusta com o agora e o tempo se afirma com a certeza. A certeza me dá sono. O sono é o cansaço sem dormir e o despertar sem deitar na cama. Minha cama não foge, mas eu vivo fugindo da cama.

Whatever sheep.

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Arquivado em Autobiografia, generalidades

Like a child!


É, eu também tenho medo. Eu também me escondo atrás das mãos, como se isso me desse alguma proteção. Eu também olho assim, entre os dedos, procurando uma saída para o medo ou alguém pra compartilhar o meu segredo. Meus olhos tremem, semicerram-se e meu coração parece bater nos lábios. Meu corpo esfria, sua e aquece a palma da minha mão. Minha decência se esvai, minha sinceridade se aproxima, meu ego some. Minha alma já não é mais minha, assim como o meu “eu” já não é mais de ninguém. Eu continuo precisando crer naquilo que se cria. Preciso controlar minha inimaginável covardia. Nesse entrelaçar de dedos perante meu rosto que garante meu salva-guarda de maturidade, minha testa franze, meu cabelo molha e meus olhos olham pra dentro de mim. E tenho medo do irrefreável e do desconhecido e também daquilo que freia e de quem eu conheço. Não sou mais criança e meus medos também cresceram e ficaram mais onipotentes perante meu modo de pensar. Não sou mais tão frágil e nem tão digno de pena, mas evidencio em cada cena aquilo que me faz mal. Não saio mais correndo e nem faço barulho pra pedir ajuda. E não o faço por puro orgulho. Tenho ânsia de resolvê-los, revolvê-los e revivê-los cada vez mais naturalmente.
Por isso – vez em quando -, tiro as mãos da frente da cara, as ponho no bolso e dou um passo atrás do outro em direção daquilo que mais temo. É burrice, eu sei, mas é burrice ter medo?

Whatever hidden

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Arquivado em Citações, Introspecção

Realidade

Minha realidade sórdida, redimida e exorcizada me mantém mais sereno que nunca. Meus acasos, minhas agruras, meu temperamento quieto e por vezes impassível me determina uma verdade muito mais engraçada que poderia supor. Minha angústia, superada por muito pelo amargo do acordar, me mantém célebre, onipotente ao espelho, narcisista na minha redoma, incomensurável dentro do meu poder. Não sei como, mas as intempéries do meu humor variam cada vez menos, meu centro tem se tornado maior, meu equilíbrio mais lúcido e minhas fraquezas mais fáceis de suportar. Medo já não há, receio tampouco e minha maior vaidade é supor o que tenho certeza que poderia fazer, apesar de negar veementemente tudo isso. O meu cigarro queima mais rápido, meu copo cede à minha sede com mais velocidade e demoro cada vez menos para saciar meu sono. Tenho me tornado cada vez mais impassível aos sentimentos alheios, sem esquecer meus princípios tão latentes, como sempre foram. Comecei a encarar a sociedade e os fatos que a acompanham como uma grande e enfadonha piada. E, na minha concepção impiedosa e irônica, é exatamente isso de que se tratam esses assuntos triviais. Não dou mais valor a coisas sem valor e nem menos valor ao que é genial. As coisas são o que elas são. E não valem nem mais nem menos por isso. Percebi que a minha loucura é fundamental, é sonora e que há coisas belas e escrotas na mesma proporção em tudo que se pensa ou que se faz.

É por tudo isso que toda noite eu saio por aí vestido de azul e com uma capa vermelha para lutar contra o mal e os maus, pois, após reler tudo que escrevi acima, tenho certeza de que virei um grande e mal amado super-homem.

Whatever hero

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Arquivado em impressões, Infamidades

O medo!

Sob o muro que divide minha absoluta razão de meu irrefreável medo de insetos, pousou essa criatura bizarra. À primeira vista é apenas um inseto pequeno, definhando atrás de qualquer coisa que satisfaça seu corpo de artrópode. Porém, dentro da minha cabeça ele se torna monstruosamente nefasto. Um bicho capaz de criar as maiores mazelas, de me impor uma insegurança coercitiva. Mesmo com sua importância na cadeia alimentar, no balanço da vida, no come-come diário de todas as espécies, nada me faz gostar, ou ao menos sentir indiferença, de um bicho que possui antenas. Quisera eu poder vê-los apenas assim, parados, estagnados e inertes à frente de uma câmera. Não os odeio por igual. Há os insetos mais simpáticos, inofensivos na aparência e que cumprem seu papel social de modo mais digno do que assustar as pessoas e causar-lhes nojo e náuseas. Noé certamente errou ao pegar um casal de baratas e colocar na arca. A vida seria melhor se todas elas tivessem sumido com o dilúvio. Em defesa deles, digo que somos muito mais cruéis e sanguinários, sem a menor sombra de dúvida. O ser humano é dotado dessa capacidade incrivelmente idiota de achar que um inseto do tamanho de uma unha pode lhe atacar ferozmente a jugular e lhe por a pique em segundos. Plagiando tortamente Blaise Pascal, “tem coisas que a razão desconhece”. Já o medo, lhes digo, é o nosso sentimento mais sincero.

Whatever truth

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Arquivado em Autobiografia, impressões