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Puro sangue

O sangue escorre pelos dedos e escarra na máquina o deleite vermelho e viscoso que veste um pedaço da mesa. Também assume a posição de líquido maior deixando a palavra suja e escura a cada apertar de tecla. Denigre a imagem branca da folha e acompanha violentamente o texto que marca – em preto – a luz fria que brilha e reflete na máquina cansada de apanhar a cada palavra escrita. A ferramenta que agora cospe uma tinta suada, aguada e infame é a mesma que escreveu ideologias, sonhos infantis e palavras límpidas e inocentes. Não domina a verdade, não calcula o risco e nem julga os adjetivos. Não mistura sentimentos e se concentra somente naquilo para o que está determinada. É calculista, cheia de parâmetros e investe em novas palavras que pouco dizem e, ainda assim, dizem mais que antes.

Nesse rabisco de sangue, entranha em forma de dor, permanece espessa a crença indigna e a possibilidade mórbida de começar a sujar outras formas de diálogos e expressões sentimentais.

Por fim, as palavras saem assim, meio sangue e meio falácia. Mas enfim, quer coisa mais orgânica que uma poesia escrita com sangue?

Whatever words I say.

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Arquivado em Introspecção

Palavras

Comprei minhas palavras. Todas elas. Elas são o que de mais singular eu tenho, por mais plural que possam ser. Não as dou, a não ser como garantia. Não as empresto, a não ser que me dêem crédito. Não as credito, a não ser que sejam escritas. Todo o possível nesse espaço presente é mais comum e frio que a saudade partir pela terra sem graça e brilho, assim como outro canta e chega pela manhã, assim pequeno de corpo e alma, onde estamos além e quase maior que a própria palavra. Minha palavra é bêbada, prolixa e joga contra mim a todo tempo. Exprime um desejo que quero que permaneça intacto e sai quase como uma necessidade fisiológica, sem arte alguma. Brinca comigo como a saudade brinca com o meu coração. Me pego traído por ela que a todo momento me promete paz e partir. Mas ela volta e fica comigo tantas e tantas vezes ao dia que chego a enjoar do desejo e da alegria inocente que ela proporciona. Tempo que escorre fácil entre elas, que anda certo em letras próprias e parte a todo momento para um outro nível. Brilha em vão e me dá a surpresa de sentir a minha exata natureza, vezes assustadora. Aos 29 anos ainda não as entendo completamente e não acho que terei tempo suficiente para isso. Talvez, num certo dia ao amanhecer, seja possível desvendar esse mistério. Confesso, derrotado e sem pretensão alguma, que minhas palavras são muito maiores do que eu.

Whatever words.

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Arquivado em Autobiografia

O que não se apaga

Beija o meu beijo e fecha cara e abre a perna e solvendo o seu desejo desespera voz como se esse algoz me deixasse menos desejoso de todo o seu esforço em me compreender. Essa mancha que inibe tristeza que apavora toda essa demora e beleza que enverga o corpo e sufoca o meu peito meio aberto e certo de que esse é o lugar. É essa a tentativa solavanca e enxerida dessa dor mais desvalida e comedida por tentar se afastar de todo modo e todo medo e todo tudo nesse enredo. Esse vôo cego absorve outro sentido e satisfaz essa libido e ultrapassa e me disseca num cavalgo de açoitar. Sua pele em forma líquida escorre tímida e forma poça nesse poço escuro só de entrada que precisa de apupo para a polpa deleitar. Intercedo esse profundo segredo imaginável e escafedo pela porta até o parto que entrecorta e transporta a minha sede e me concede deleite imediato e intensamente caricato. Fecundo meu mundo com a lembrança doce e amarga que propaga e estraga que alimenta e vicia que afugenta e me sacia. No contorno e seus adornos junto aos gemidos mais urdidos e precisamente merecidos é que se encontra o indelével beijo. O indelével beijo. Indelével.

Whatever kiss

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