Arquivo da categoria: Infamidades

Lá bem longe

Afasto de cada metro, de cada quilômetro, de cada dia. De contagens sem número que me mantém longe dos traços mais sinceros de quem eu sou. Dos meus pedaços, das minhas fotos, de meus sentimentos mais frágeis. Afasto dos eixos do meu corpo, do próximo retorno, da algoz falta que me fazem. Fujo da realidade escancarada que não quero ver e nem saber o que se tornaram.  Moro no beco, no escuro da minha imaginação, onde recrio os próprios personagens da minha vida. Limito suas histórias, os faço melhores que são e assim se tornam maiores e mais íntegros, mais inteligentes e com mais sentido dentro da vida que escolhi pra mim. Sou egoísta, pois prefiro que eles vivam do jeito que eu acho melhor. Não do jeito deles ou do jeito que a vida os fez. Do meu jeito, com a minha poesia e com o mesmo infantil e inocente traço que os desenho como vítimas da minha saudade. Assim os mantenho longe e os guardo dentro de uma caixa que mora dentro de mim. Abro de vez em quando, olho, remexo e volto a fechar com a esperança equilibrista de tentar me adaptar ao que um dia chamei de amizade.

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Arquivado em Autobiografia, impressões, Infamidades, Pecados, Sem categoria

Teor

O sumo da fruta próxima, da palavra grossa, da pessoa frouxa. O extrato borda, a letra acorda, o mar centelha numa dança amorfa. As paredes entram, o ar incensa, o espesso afina. Os lares brotam, os filhos parem, as portas morrem no concreto cru. A porra jorra, concentra gozo, invade o poço onde mora o amor. Impera a tora, meu porto a vela, a velha senhora de ossos à mostra. Invade o cheiro, ampara o óvulo, ausculta a parede do corpo inteiro. Corre o plasma, escoa o líquido, sobe à tona sem ar no peito. Respira. Volta e multiplica o espaço, ganha mais um maço, alastra a gosma sem limite de tempo. Avança os lares, ímpares inspirados em terços perfumados, carne que coincide com a sua carne. Estranho pedaço, trêmula chama de memória justa, venha e não avise. Venha e, de repente, torne invisível esse meu mundo possível.

Whatever possible

*Texto escrito para o Blog Rebuliço, da minha irmãzinha Tati Fávaro.

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Arquivado em impressões, Infamidades, Introspecção

Falando com “eu”

A cama torta, o lençol teso, o travesseiro preso. O olhar vago, o teto preto, o som calado. O sonho longe, o sono perto, o olho fechado. Dormiu?
Não.

Whatever zzz…

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O circo da pulga

Pula pulga, pula. Salta e batevoltaquica essa coceira da pata esquerda. Entre nos ralos pêlos da perna e sofregamente me sugue o sangue. Se lhe mato a fome a troco de algumas apupadas no local, você está perdoada. Desculpe tentar matá-la, mas o gesto por vezes abrupto é irracional. Não lhe mataria caso pedisse permissão, pois não é nada intencional.

Pulga, foge da minha mão.

Caso fosse um mero espectador, torceria por você contra mim. Torço sempre pelos subjugados e parasitas. Enfim, não meço esforços para a sua total e irrestrita satisfação. Se lhe fosse semelhante faria o mesmo, talvez numa perna mais bonitinha, mas, gosto, cada um tem um.

Não lhe julgo a atitude, lhe julgo a safadeza de não ficar pra ver. Seu prazer de pulga é enveredado pela sua forma prolixa de morder e não olhar o que acontece. Sinceramente, reveja seus conceitos. Nos meus momentos parasitas, sempre fiquei pra ver o que acontecia, numa mistura de medo e alegria. E se ainda fosse tão pouco visível como lhe é característica principal, seria ainda mais cara de pau. Morderia os lugares mais cabais, mais óbvios e deleitosos de sangue. Seria prazer do começo ao fim.

Se pulga eu fosse, causaria as maiores e mais prazerosas coceiras e saía de cada corpo felizão e de boca cheia. Portanto, aproveite essa brecha que lhe dou, mas não abuse em sua ceia. Uma mordida por dia e mantemos assim a diplomacia. Assim, você se sacia e eu mantenho minha sanidade conversando com você todos os dias. Ah, e me desculpe quando não volto pra casa, mas também não posso ser a sua única fonte de ideologia.

Vamos manter uma relação sadia, tá? Boa noite Pulga, boa poligamia.

Or not. So, whatever.

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Um conto infantil pra adultos

Essa é a mulher gigante.

De pernas longas e corpo desproporcional.
Uma pessoa mutante, com bócio nas pernas e tamanho descomunal.

Sua cabeça minúscula pensa nas coisas pequenas, que ela alcança com seus dedões em riste.
Mas do alto de seus braços turvos, ela vê o mundo triste.

E mesmo na praia, onde as ondas ficam na areia,
não há nada que a distraia, pois a solidão a sombreia.

Nos dias bonitos ela sai de casa, enorme recôndito de paralisia.
Acaba sempre nas fotos, titubeando entre o marasmo e a alegria.

A terra mal suja seus pés, pois não há areia que lhe caiba no sapato.
Já o céu, azul em seu esplêndido, mostra que há mais em seu formato.

Mas ela é ainda menor que os prédios ao fundo,
talvez a única coisa no mundo que entenda o que ela quer.

Na luz da manhã, sem porvir e nem torpor,
a mulher gigante aparece para dar todo o seu amor.

E as pessoas fogem, andando apressadas ao caminho do fim.
Ela, ao contrário, fica parada admirando sua própria sombra eternizando um pedaço de mim.

As pegadas que percorrem seu corpo e escalam seus ombros são meros devaneios tolos a lhe torturar.
Só servem de história que ela, relutante, nunca quer contar.

No caminho pra casa, bem longe do pé-de-feijão, a giganta se ajoelha em frente ao mar e, por alguns segundos, chora.
Por que esse corpo tão grande foi aflorar, ela implora.

Ninguém entende sua aflição. Pra ela, ser diferente nunca foi opção.
Afortunada em seu tamanho, a mulher perscruta: dos pés à cabeça são 5 metros de puta.

So, whatever.

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Uma dose de verdade

Minha soberba abasta a base da minha cabeça. Sussura solfejos a altura da lua e destrói em solavancos a grande beleza da melancolia. Seu choro contido e próspero se faz próprio de sua tristeza protetora de si mesmo. Esse escudo duro e inviolável em que vives não esconde a metáfora e a ironia da vida. Não perfaz a mediocridade do que sentes e nem enriquece de amor só dos outros. Sua linha tênue, desandada desde sempre, entre a marca e o propósito condiz com seus sapatos de longos saltos e sua vasta cabeleira sempre bem escovada. Suas cores são sempre artificiais, bem notadas combinações de amargura e sofrimento misturadas com essa vaga e indecisa felicidade que sentes vez em quando.

Nas noites claras, onde a luz da noite alumia mais os pensamentos, suas entranhas entram ainda mais pra onde ninguém consegue alcançar. Nos dias escuros, ainda mais soturnos que as noites mais negras, sua imprecisão se torna mais visível e transforma suas virtudes, até então duvidosas, em certezas efêmeras da sua personalidade. Você é mais você quando acha que está sendo má. Você soa mais falsa quando pratica o bem. Esse sereno que paira sobre as suas nuvens sucumbe a toda chuva que enfim possa lhe acertar a prosopopéia e limpar um pouco feiura da sua existência. Sua alma suja e infecta de preconceitos e superficialidades sujeita aos outros a absoluta e transparente medida da sua inconstância.

Seu andar, pé pós pé, sincroniza invertidamente com o balançar de seus braços, mão ante mão. Isso é irritante. Você é, sem dúvida, uma pequena porção daquilo que detesta. Você é, sem dúvida, uma porção generosa da sua insignificância.

But, who cares? Whatever…

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Estranho texto

Quando eu era menina as coisas eram mais fáceis. Eram mais singelas, como as bonecas que passeavam pelos corredores da casa dos meus pais. Eram mais simples, como os cachorros que latiam pra mim enquanto eu dançava as danças mais sem sentido que já dancei na vida. Eram mais crédulas, como os passeios que dava com meus pais pela praia, de mãos dadas e sentindo a maior segurança do mundo naquele gesto.

A noite era só mais um momento da vida e não a espera de um novo começo ou de uma nova oportunidade. Minha ansiedade era tola e banal, sem preocupações e sem rugas. As manhãs eram mais alegres e tinham o sabor que os outros dizem que devem ter hoje e, nem sempre, têm. A alegria criança é mais forte que a alegria adulta, apesar de menos intensa. A felicidade adulta é mais complicada do que a felicidade criança, onde coisas improváveis podem trazer felicidade instantânea.

Quando era menina a morte não me habitava. Não morava em mim as comparações, a beleza, a vaidade ou a inimizade. Vivenciava a vida plena, estéril de outros sexos e era capaz de contemplar, sem culpa, uma enorme e saborosa bomba de chocolate. Era capaz de ser chata sem me dar conta disso. Não precisava de bom senso e só agradava quem eu queria. Não ligava pros meus cabelos, para as sujeiras que habitavam minhas unhas ou para a maquiagem que ainda insisto em usar pra cobrir minhas falhas. Eu não tinha falhas quando era menina e nem tinha consciência da falha dos outros. Inocência? Sim, sem dúvida.

Tudo mudou naquele maldito dia em que me sangraram as entranhas. Foi nesse dia, à noite e quase sozinha na praia, que fugi do balanço e saí correndo pra deixar de ser criança. Não sabia que as coisas seriam assim. Não sabia que naquele momento eu deixava pra trás uma época que ainda queria viver hoje. Maldito balanço. Bobo e feio.

Whatever gender

Foto: Fernanda Tralalá

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