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Sobre terças-feiras às 15h.

3 da tarde. Eram 3 da tarde. Entrou num amorfo simpático a luz de uma primavera hostil. Entrou e me disse o horóscopo mais triste, mais pessimista que já se viu. Rimou, irritou e mostrou o destino visto pelas palavras que tanto aprecio. Não curti, não sorri, não me senti útil. Me conduziu a um estado adorno, daqueles que enfeitam os sentimentos que se lê nas palavras. Chuva. Só repeti com a estratégia do corpo as figuras tão conhecidas de uma pessoa ansiosa. Reli, ouvi música, andei de um lado para o outro. Senti paz por momentos em músicas e melodias que fizeram sentido. Rejuvenesci. Uma mágoa distante bateu em riste na membrana mais profunda da mente que se diz ágil. Frio. Criei, sob circunstâncias babacas, teorias acerca da mortalidade. Vivo ou morto, acresço sob formas estranhas e mereço de prontidão a mais recíproca condenação de ódio que já se viu. A noite cai, a lua invade, a escuridão enobrece. Encontro no vazio a mesma teoria mística que todas as palavras insistem em dizer coisas que não dizem nada.

Assim como este texto.

Perdão.

Whatever Sorry

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Foco

Entrou a noite de bolinhas brancas

num quarto escuro à meia luz

introduziu nuances de cor com feixes de luz autônomos

sem muitas imagens e nem pessoas

atravessou a sala entre os móveis

ziguezagueando entre as roupas jogadas no carpete encardido

invadiu as pressas meus olhos e pupilas

que procuravam sentido no lusco-fusco.

E, sob a égide da máxima escuridão,

a luz apareceu dando alimento ao que mais aprecio na vida: a falta de foco.

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Sensações estranhas

Ao vento há o desprezo pelas gotículas de água que insistem em esguichar no rosto. Sem gosto aparente, a ansiedade cresce através dos poros um suor límpido, diferente do habitual. As mãos trêmulas que inundam a parte lateral da calça e da camisa cortam o ar de forma inusitada, nervosa, fazendo o mesmo vento ventar para os dois lados. O pescoço endurece de forma acentuada todas as agruras do cotidiano e, num ato de disfarce, a cabeça balança aos lados tentando, em vão, estalar todas as maltratadas vértebras. O olhar desesperado e esperançoso lançado para os lados não tem alvo. Tem somente a visão deturpada da paisagem horripilante e a agonia presente nas inúmeras batidas que o coração dá por minuto. O corpo tem como única e exclusiva preocupação continuar a se mexer freneticamente, pois a sensação de quietude é dolorosa ao extremo. Os olhos também suam. A loucura não é tão silente quanto imaginava, pois há comunicação entre o cérebro e a porção corpo, mesmo que involuntária. A sensação fria e refrescante de um copo de água faz bem. O corpo ainda cambaleante se dirige ao quarto escuro e se aconchega em posição fetal sobre a cama, quase que implorando por algumas horas de sono. As juntas da carcaça maltrapilha rangem alto, num pedido suplicante de descanso e hipocondria. As reações que se seguem são perturbadoras. A mente, normalmente aliada, trabalha contra o corpo e, por mais poderosa, cria espasmos e sensações únicas. O medo da morte ou de algo ainda pior é o único pensamento possível. E não há fuga, sonhos ou cores. O mundo se torna apenas um pensamento cinza. O medo é da loucura, que bate à porta sem pedir licença e destrói a estrutura de anos e anos de racionalidade consentida. É o poder da obsessão em essência.

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Boring!

Vamos direto para o refrão. Lá, onde a melodia fica mais festiva, onde a letra se repete e nos dá tempo pra pensar. Direto pro refrão. Sem partes. Vamos decorar tudo antes de prosseguir ou mesmo antes de conhecer o resto. Vamos cheio de ansiedade direto ao que interessa, sem pormenores, acordes introdutórios ou frases que construirão a história. Vamos direto, porque é lá que a solução chega e as coisas se resolvem. É lá que se criam os conflitos e onde se começa a aprender a resolvê-los. No refrão.

Se não tivermos começo, tampouco teremos fim. E é isso que eu quero. Só quero meios, sem nuances, sem modulações ou mudanças de tom. Começaremos nele, ficaremos neles em ato contínuo e, depois de tudo resolvido, entoaremos mais uma vez até grudar bem na cabeça. Estribilho. Quero bis só do refrão, sem as partes chatas e sem a dança pra acompanhar o ritmo. Só o êxtase, o clímax, o cume da vereda. Sem espetáculos de preciosismo, virtuosismo ou vaidade egocêntrica (sic). Vamos ser simples e objetivos, sem delongas ou meio termo.

Se não for pra ser assim, não quero. Não mesmo. Cansei de histórias bobas, tolas e com pouco significado. Cansei dos problemas que se resolverão, da insignificância de certas coisas e das rimas ao final dos atos. Aborrece-me a reclamação das primeiras linhas e a declaração de amor pusilânime das últimas. Enfastia-me os últimos acordes, normalmente decorados por finais felizes.

O refrão – esse sim! – é aquela parte onde as coisas não têm medo ou que as palavras fazem mais sentido. Onde a paz reina e as pessoas se apaixonam. É onde as pessoas se apóiam, se suportam e vivem decentemente. Onde não há maldade, enfermidade ou morte. É o lugar mais perto que as pessoas chegam de acreditar na felicidade. É isso que quero da vida. Um exato e precioso refrão.

Whatever chorus.

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Um textículo confuso!

O dia que foge de mim e a noite que foge do dia. A lua que se opõe ao sol e o sol que não atinge a sombra que vive no breu que habita a solidão. A solidão foge da alegria que evita o medo que nada tem a ver com a coragem. A coragem some de mim que fujo da vida que foge da morte. A morte escapa da luz e vive no escuro que se perde no quarto todas as manhãs. A terra sofre com a água que apaga o fogo que foge do vento.

O vento não foge.

A noite não passa por mim e você não passa do dia. A lua do sol e o sol da sombra. A sombra do breu e o breu da solidão. A solidão da alegria e a alegria, por si só, não vive sem medo. O medo tem medo da coragem e a coragem me habita só de vez em quando. O quando se assusta com o agora e o tempo se afirma com a certeza. A certeza me dá sono. O sono é o cansaço sem dormir e o despertar sem deitar na cama. Minha cama não foge, mas eu vivo fugindo da cama.

Whatever sheep.

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Maconha X Futebol

Enquanto se combate o uso de drogas apenas pelo simples fato de elas serem chamadas assim e, portanto, atemorizarem essa nossa língua deturpada, o futebol, praticado sem nenhum controle, continua sendo permitido e até mesmo divulgado em todas as camadas sociais, sobretudo nas mais inferiores, que não têm qualquer defesa em relação ao estúpido esporte bretão. Se essa lamentável prática fosse diversificada e o tempo e a energia útil dos cidadãos se diversificasse para outros segmentos sociais, incluindo aí outras modalidades esportivas, o mal seria muito menor e menos xiita.

Enquanto a repressão combate a maconha com absoluto e provável insucesso, a hipertrofia do futebol cria dependência cretina, ajuntamentos perigosos de multidões, motiva muito a violência, causa engarrafamentos monstruosos e leva pessoas a crimes que elas jamais pensariam em cometer se não fosse o maldito do juiz ou o brasão que está ali naquela outra camisa de cor diferente da sua.

Deve-se combater de maneira energética e rápida a implantação e o incentivo de pequenos jogadores de futebol e, ainda mais importante, esses campinhos de várzea espalhados por todo o Brasil. Plantemos maconha em todos eles, onde o verde da planta será apenas mais um tom de uma cor que designa a natureza.

Chega de pátria de chuteiras. Quero estar vivo pra ver a primeira transmissão nacional, narrada pelo Galvão e direto do Maracanã, de 200 mil maconheiros, todos com camisas diferentes. Será uma vitória da sociedade, que nesse momento se tornará menos hipócrita e talvez nos dê algum futuro.

Pitemos!

Whatever high

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Corruptela

Dizem por aí que todo homem tem seu preço. Há quem vá ainda mais longe afirmando que alguns homens são vendidos a preço de banana. Sempre esperei, na vida, o dia da grande corrupção e, confesso, decepcionado, que ele nunca veio. A mim só aparecem causas meritórias, oportunidades de sacrifício, salvações da pátria ou pura e frontalmente a hedionda tarefa de lutar contra a dita corrupção. Enquanto eu procuro desesperadamente uma oportunidade, as pessoas e entidades agem comigo de tal forma que, às vezes, chego a duvidar de que tal mazela exista. Nunca tentaram me subornar com uma maleta cheia de dinheiro, nunca censuraram meu blog, nunca usufrui do nepotismo e nenhum guarda até hoje me pediu dinheiro pra nada. O mais próximo que cheguei da corrupção foi levar um processo ao cartório com dinheiro dentro, para que as coisas andassem mais rápido. E eu era estagiário e o dinheiro não era meu, portanto, tenho licença poética para tal.

O problema desse país é que todo mundo quer levar vantagem em tudo e ninguém tem culpa de nada. Afinal, uma característica curiosa dos corruptos se verifica em restaurantes e bares. O corrupto sempre está na outra mesa.

Pataca levanta as mãos.

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