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Puro sangue

O sangue escorre pelos dedos e escarra na máquina o deleite vermelho e viscoso que veste um pedaço da mesa. Também assume a posição de líquido maior deixando a palavra suja e escura a cada apertar de tecla. Denigre a imagem branca da folha e acompanha violentamente o texto que marca – em preto – a luz fria que brilha e reflete na máquina cansada de apanhar a cada palavra escrita. A ferramenta que agora cospe uma tinta suada, aguada e infame é a mesma que escreveu ideologias, sonhos infantis e palavras límpidas e inocentes. Não domina a verdade, não calcula o risco e nem julga os adjetivos. Não mistura sentimentos e se concentra somente naquilo para o que está determinada. É calculista, cheia de parâmetros e investe em novas palavras que pouco dizem e, ainda assim, dizem mais que antes.

Nesse rabisco de sangue, entranha em forma de dor, permanece espessa a crença indigna e a possibilidade mórbida de começar a sujar outras formas de diálogos e expressões sentimentais.

Por fim, as palavras saem assim, meio sangue e meio falácia. Mas enfim, quer coisa mais orgânica que uma poesia escrita com sangue?

Whatever words I say.

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Só mais um texto esquizofrênico…

Espelho de vida em metades iguais,
Uma lá outra cá.
Cada imagem designa um ser,
Antagônicos por si só.
Enquanto um ri o outro chora,
Quando um chama o outro vai embora.
Só há uma linha tênue de meio termo,
Que me encontro uma vez ao ano,
Mas minha lucidez está em uns dos lados,
Ora lá, ora cá.
É quase uma esquizofrenia consentida,
Pensada e analisada.
É fuga, é solução de vida.
É metade quente e metade fria.
Não há distância e nem local,
É cada igual em euforia.
Simplesmente diferente,
Alheio a mim mesmo em pessoa e prosa.
Qual escreve e qual só sente,
Pra mim eu sou dois,
Pros outros, muitos,
O agora, depois.
Meu maior teste, o texto.

Whatever who?

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Arquivado em Autobiografia

O que não se apaga

Beija o meu beijo e fecha cara e abre a perna e solvendo o seu desejo desespera voz como se esse algoz me deixasse menos desejoso de todo o seu esforço em me compreender. Essa mancha que inibe tristeza que apavora toda essa demora e beleza que enverga o corpo e sufoca o meu peito meio aberto e certo de que esse é o lugar. É essa a tentativa solavanca e enxerida dessa dor mais desvalida e comedida por tentar se afastar de todo modo e todo medo e todo tudo nesse enredo. Esse vôo cego absorve outro sentido e satisfaz essa libido e ultrapassa e me disseca num cavalgo de açoitar. Sua pele em forma líquida escorre tímida e forma poça nesse poço escuro só de entrada que precisa de apupo para a polpa deleitar. Intercedo esse profundo segredo imaginável e escafedo pela porta até o parto que entrecorta e transporta a minha sede e me concede deleite imediato e intensamente caricato. Fecundo meu mundo com a lembrança doce e amarga que propaga e estraga que alimenta e vicia que afugenta e me sacia. No contorno e seus adornos junto aos gemidos mais urdidos e precisamente merecidos é que se encontra o indelével beijo. O indelével beijo. Indelével.

Whatever kiss

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