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Estranho texto

Quando eu era menina as coisas eram mais fáceis. Eram mais singelas, como as bonecas que passeavam pelos corredores da casa dos meus pais. Eram mais simples, como os cachorros que latiam pra mim enquanto eu dançava as danças mais sem sentido que já dancei na vida. Eram mais crédulas, como os passeios que dava com meus pais pela praia, de mãos dadas e sentindo a maior segurança do mundo naquele gesto.

A noite era só mais um momento da vida e não a espera de um novo começo ou de uma nova oportunidade. Minha ansiedade era tola e banal, sem preocupações e sem rugas. As manhãs eram mais alegres e tinham o sabor que os outros dizem que devem ter hoje e, nem sempre, têm. A alegria criança é mais forte que a alegria adulta, apesar de menos intensa. A felicidade adulta é mais complicada do que a felicidade criança, onde coisas improváveis podem trazer felicidade instantânea.

Quando era menina a morte não me habitava. Não morava em mim as comparações, a beleza, a vaidade ou a inimizade. Vivenciava a vida plena, estéril de outros sexos e era capaz de contemplar, sem culpa, uma enorme e saborosa bomba de chocolate. Era capaz de ser chata sem me dar conta disso. Não precisava de bom senso e só agradava quem eu queria. Não ligava pros meus cabelos, para as sujeiras que habitavam minhas unhas ou para a maquiagem que ainda insisto em usar pra cobrir minhas falhas. Eu não tinha falhas quando era menina e nem tinha consciência da falha dos outros. Inocência? Sim, sem dúvida.

Tudo mudou naquele maldito dia em que me sangraram as entranhas. Foi nesse dia, à noite e quase sozinha na praia, que fugi do balanço e saí correndo pra deixar de ser criança. Não sabia que as coisas seriam assim. Não sabia que naquele momento eu deixava pra trás uma época que ainda queria viver hoje. Maldito balanço. Bobo e feio.

Whatever gender

Foto: Fernanda Tralalá

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One more picture!


All rights reserved!

Na tela do meu cinema, espelho de minha alma, o narcisismo pulsante de artérias vermelhas de vergonha formam listras que me incomodam. Fico sem cor, acanhada, rio risada fechada de dentes cobertos, um preto e branco colorido reflete o espelho que não paro de olhar. Ajeito cabelo, pernas, tetas e surpreendo minha imagem assim, meio de lado, meio querendo saber o que pode acontecer. Um cigarro queima entre dedos que admiram uma mulher sobre a camisa branca e a parede que insiste em permanecer parada sobre o lado esquerdo da minha sensualidade. Unhas brilham e refletem o fogo permanente que brota entre minhas pernas cruzadas e ansiosas em alcançar o divino foco de minha máquina. Detalhes passam despercebidos sob o olhar curioso de quem escreve e narra a cena admirada pela fotógrafa. O botão de power negligencia a escuridão de um monitor feliz em refletir a imagem singela e bela de quem não sabe pra onde olhar. A foto significa a sutil diferença entre ver o que vê a autora ou o que vê quem vê o conceito. Uma tela de algumas polegadas traduz toda a nicotina envolta em meu pulmão fêmea, onde as narinas se afinam nas tragadas flagradas pela lente compulsiva de minha maior arte. E nesse escuro infinito, onde a tela cheia de mim ilumina poucas partes de minha ansiedade, a silhueta inquieta explica ao mundo a visão eterna que terei de mim mesma. Talvez sem o cigarro.

Whatever female

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Gostei da brincadeira das fotos…

Todos os direitos reservados!

O mundo ficou todo escuro. Virei um furo em meio à tela preta. Uma tarjeta da censura por todos os lados. Calado, não conseguia ver nada. Cada pedaço de breu ritmava a música da noite e sob o açoite da minha alma encarnei e voltei ao pó. Só, sobrei eu no meu mundo todo vazio. Um pretinho básico, clássico e sem maquiagem. Encontro-me na triagem de um futuro esperançoso, alegre e definitivo. Criativo e colorido, projeto imagens que se tornam cada vez mais claras e, por serem tão raras, tento ao máximo não esquecer e nem lembrar muito. Num circuito em que não me acho, a escuridão solitária revigora a alma e traduz a imaginação do meu estado de espírito. Desacredito toda forma de claridade e, sôfrega e impunemente, desacelero pensamentos que ecoam sob a égide total da ausência de cor. É um favor que faço à minha sombra, que enfim pode descansar e parar de ir de lá pra cá numa perseguição continua e desguarnecida. É a amiga das minhas maiores sensações e dá transparência a todos os meus sentidos, exceto a visão. É essa escuridão que me sensibiliza o tato, o olfato e o paladar, no sentido mais carnal que a palavra possa ter. Meter o pé pelas mãos num infinito onde só meio rosto pode aparecer.

Whatever blackout


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Olho

Foto da genial Fernanda Tralala

De uma pálpebra retinta de cores que mascaram o dia surgem coisas inimagináveis. O que os olhos podem ver ofuscam muitas vezes todas as verdades contidas no coração. Cílios, sobrancelhas e o resto dos pêlos que circundam os buracos da visão não passam despercebidos mediante aos olhos verdes, azuis ou de qualquer outra cor. Sem preconceitos, espelham sentimentos, estigmas, verdades e mentiras como nenhum outro órgão ou sentido denuncia. O arregalar não exprime só o susto ou a atenção, mas delata as corrosivas explosões internas que a alma sofre. Semi-cerrados não apenas manifestam o nosso lado nipônico, mas acusam de forma sutil a desaprovação por determinados assuntos que não conseguem nos ultrapassar a retina. Aos olhos normais, em estado de completa inércia, todos os fatos são apenas curiosidades, reflexões da vida, dos acontecimentos e situações que rodeiam aquilo que o destino nos prescreve. A cegueira, fato iminente a todos que vêem, é determinante no crescimento da mente, do espírito da gente e afeta sempre o lado amoroso em algum momento da vida. O não ver talvez seja um dos sentidos mais apurados do ser humano. Está tudo ali na sua cara, mas os olhos, teimosos e repugnantes, teimam em olhar apenas para o lado de fora do corpo. O cérebro pensa pensando na visão. Ao fundo, as enormes teias que se misturam ao branco do olho formam complexas transações que resultam em dúvidas e sonhos. O sonho é visto e o olho sempre denota o sentimento que se sente. O olho é o mar da tranqüilidade.

Whatever eye

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