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Finais

E aos poucos a festa íntima acabou. O fim havia se instaurado naquela relação já desgastada pelas constantes e intermináveis discussões sem sentido e sem imaginação. Amavam-se. Trocaram as últimas carícias, assim, sem jeito. As cabeças baixas e os olhares lânguidos não se cruzavam mais. Há tempos não dormiam em conchinha e não havia mais aquele carinho que se espera de anos de relação. Os diálogos não eram mais os mesmos e o calor e a agitação se extinguiram há tempos. As batidas no peito de ambos eram o único som audível, mesmo que isso fosse uma ironia incrível. O coração fala quando a boca já se calou. O coração grita quando o silêncio interrompe uma fala.

Só restaram os dois, trancados e isolados do mundo naquele espaço tantas vezes dividido e compartilhado. A frieza e a indiferença eram notórias nos corpos virados de costas um pro outro e pelas meias que ambos vestiam. As dele, com um buraco no dedão. As dela, com desenhos e já puída de tanto deslizar pelo chão. Nenhum dos dois dorme. As horas passam e os olhos continuam abertos, ora tentando se conformar com a situação e ora já pensando nos tempos solitários que virão.

Em meios as sombras que começam a se formar pelo raiar do sol, ficam as frustrações e a desesperança de um dia tudo se ajeitar. E o céu começa a clarear, apagando aos poucos, com a luz forte do dia, restos de uma coisa antiga chamada afeto.

Whatever ends

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Não tinha teto, não tinha nada.

Eram duas as janelas abertas naquela casa já com pouca tinta e corroída pelo tempo. Algumas partes denunciavam a cor que, quase em harmonia, se misturava com o musgo recorrente no sopé de cada parede. Imponente, a frente do velho casarão mostrava a quem passava certa decadência, apesar do belo jardim que se espalhava ao longo do terreno. Era claro o cuidado e a manutenção rigorosa que era dada àquela construção histórica.

A rua, naquele final de outono, era toda permeada por folhas de todas as cores. As árvores desfolhadas em tons de amarelo eram em sua maioria de ipês que formavam uma espécie de túnel para quem passava por baixo. Do meio da rua mal se podia avistar o céu, a não ser pelas poucas passagens que as árvores caprichosamente deixavam e que criavam milhões de pequenos focos de luz, fazendo da rua um belo projeto paisagístico.

Nas duas janelas abertas era possível ver, com certa atenção, alguns detalhes que faziam muito sentido para alguém com um pouco de imaginação e sensibilidade. A cena das duas janelas permanentemente abertas se completava. O que se via numa delas terminava na outra. Era possível sentir que o lugar havia sido palco de muitas histórias tristes e felizes, assim como em outra casa qualquer. Mas não era isso que chamava a atenção dos transeuntes que ali passavam.

A inquietação dentro dos cômodos e a preocupação aparente com o mundo exterior delatavam a insegurança dos moradores daquele lar absorto em um mundo absolutamente particular. A constante presença de visitantes mostrava que ali era um mundo misterioso que permanecia na imaginação das pessoas e parecia não deixar transparecer completamente o seu teor. Ao final de uma cuidadosa olhada, era presumível que existissem esconderijos por todos os lados. Não esconderijos físicos desses onde as pessoas se escondem, mas esconderijos onde todos os medos e agruras são deixados lá, para que ninguém veja.

Apesar de passar constantemente pela rua onde está a casa, é difícil descobrir todos os seus segredos e idiossincrasias. Diariamente é possível ver algo diferente, algo que encante ou algo que amedronte. E ela parece não ter fim nos seus detalhes e nos seus moradores.

Essa é casa que mora dentro de mim.

Wherever I live.

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