Arquivo da categoria: Pecados

Os 5 sentidos – Audição

Escuta aqui, será que você pode me ouvir? Será que em algum momento da vida você vai ouvir alguém e descer desse pedestal em que vives? Será que raciocinar e escutar o que os outros têm para falar dói tanto assim nesse seu cérebro sem ouvidos? Será que você possui esse sentido?

Tenho a certeza de que não sabe do que se trata o silêncio e do quão bom é manter a mente vazia, permanecer quieto e escutar a completa ausência do som. Sei da sua maior heresia, que não ouve nem Deus enquanto reza e sai profetizando sua palavra com a tirania própria da sua língua. Você que domina todos os assuntos na mesa do bar sem nunca reparar que a sua fala angustia e envergonha todos à sua volta, saiba que nem a percepção de saber que incomoda os outros lhe penetra os ouvidos. Enquanto você permanentemente soletra ao mundo as suas histórias e experiências, você perde o que de mais precioso a vida pode lhe dar. Conhecer os outros é saber ouvir. É sabido que quem tem um dos sentidos prejudicado tem o poder de aguçar os outros. Acredite, ouvir – e só ouvir – lhe trará maturidade. Você que perde os conselhos, as doutrinas, os desejos, a alegria. Você que perde por causa disso todos os ensinamentos e a sua eterna carta de alforria, pois quem não ouve acaba escravo da própria cabeça. A usual batalha que travo entre o falar e o ouvir é o exercício supremo da democracia do corpo. Você, ao contrário de toda a humanidade, tornou o ato de ouvir num moribundo sem poder de voto. A audição, que lhe deu a capacidade de falar, é o único sentido que não podemos controlar, apesar da sua imensa vontade de fazer cessar essa propriedade nata do seu corpo barulhento. Ao emergir do profundo estado de graça que porventura venha a se aventurar, não saia à caça procurando para quem contar. Contenha sua ânsia de falar e procure suas orelhas nesse seu rosto tácito. Caso contrário, corre o risco de ver vermelha essas abas que seguram seus óculos. Ou pior ainda, corre o risco de, ao final da vida e com a língua cansada e os ouvidos ainda virgens, ouvir o maior silêncio de todos enquanto jogam terra por cima do seu caixão. O maior risco de não usar os ouvidos é que os outros ouvem por você.

Whatever hear!

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Os 5 sentidos – Visão

Esse é o seu espelho. É a imagem que você vê refletida todos os dias ao entrar no banheiro. Você olha mil vezes, ajeita todos os detalhes, desde os fios do cabelo até os cravos que porventura venham a enfeitar seu rosto. O que vê é apenas o reflexo do que exterioriza para o mundo. Seu maior carma, sua maior obsessão, seu risco de perder o que tem e o de ganhar a liberdade. Mas não, você só usa a visão para ver a vaidade, tão materializada por trás desses olhos que tanto insiste em enfeitar. Todo dia, ao despertar com a visão desfocada de remela, você abdica de tentar entender a vida e o que se passa nela, virando a cara para as coisas que vê e insiste em não sentir. O que os olhos vêem precisa ser entendido antes de digerir a informação, ou seriam apenas imagens perdidas em meio ao seu universo restrito. O que comove e emociona é pra ser sentido de olhos fechados e com a mão na frente da vista. Você, pobre de espírito e cega de sentimento, não merece nenhuma lágrima que tenha escorrido de seus belos olhos. A visão é o único dos 5 sentidos que precisa de complemento, seja de outro sentido ou de emoção. Inerte a tudo que assiste e com a certeza absoluta de que a imagem se traduz em uma afirmação imediata, você é a maior prova disso. Amanhã, ao acordar e abrir os olhos mais uma vez, levante as mãos ao céu e agradeça esse bem que ganhaste quando nasceu e nunca usou do jeito que deveria. Talvez já velha e experiente se dê conta de que há coisa muito mais importante do que cuidar dos pés-de-galinha que circundam esses dois buracos expostos na sua cara.

Feche os olhos e de uma vez por todas entenda uma coisa: De nada adianta manter os olhos abertos, vívidos e atentos a tudo que aparece. O pior cego não é o que não quer ver, é o que não sente. A pior cegueira é a do coração.

Whatever view

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Apenas mais um monte de palavras…

Prazer que abala as estruturas,
E te manda de volta a infância,
Que absorve todo o seu corpo,
E imita a arte sem plágio nem perdão.
Salienta o modo de viver,
Persegue a cria de forma inusitada,
Chora a respeito do passado,
Dramatiza e volta ao presente,
E sente que não quer sair,
Não quer ir embora nem ficar,
Quer a paz de outrora,
Quer o prazer de agora,
Tudo ao mesmo tempo agora,
Sem nada que atrapalhe sua solidão,
Tem medo do futuro e se lamenta do passado,
Desgraça a vida conjecturando,
Contenta-se com o pecado,
Limita-se a ver o que quer,
Quer o que vê e não chora,
Demora, apavora e sai ileso,
Não dói agora mas doerá depois,
Quando souber que chegou ao fim,
E abdicou de tantos amores,
E não provou dos tantos sabores,
Que a vida lhe ofereceu.

Whatever…

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