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Um conto infantil pra adultos

Essa é a mulher gigante.

De pernas longas e corpo desproporcional.
Uma pessoa mutante, com bócio nas pernas e tamanho descomunal.

Sua cabeça minúscula pensa nas coisas pequenas, que ela alcança com seus dedões em riste.
Mas do alto de seus braços turvos, ela vê o mundo triste.

E mesmo na praia, onde as ondas ficam na areia,
não há nada que a distraia, pois a solidão a sombreia.

Nos dias bonitos ela sai de casa, enorme recôndito de paralisia.
Acaba sempre nas fotos, titubeando entre o marasmo e a alegria.

A terra mal suja seus pés, pois não há areia que lhe caiba no sapato.
Já o céu, azul em seu esplêndido, mostra que há mais em seu formato.

Mas ela é ainda menor que os prédios ao fundo,
talvez a única coisa no mundo que entenda o que ela quer.

Na luz da manhã, sem porvir e nem torpor,
a mulher gigante aparece para dar todo o seu amor.

E as pessoas fogem, andando apressadas ao caminho do fim.
Ela, ao contrário, fica parada admirando sua própria sombra eternizando um pedaço de mim.

As pegadas que percorrem seu corpo e escalam seus ombros são meros devaneios tolos a lhe torturar.
Só servem de história que ela, relutante, nunca quer contar.

No caminho pra casa, bem longe do pé-de-feijão, a giganta se ajoelha em frente ao mar e, por alguns segundos, chora.
Por que esse corpo tão grande foi aflorar, ela implora.

Ninguém entende sua aflição. Pra ela, ser diferente nunca foi opção.
Afortunada em seu tamanho, a mulher perscruta: dos pés à cabeça são 5 metros de puta.

So, whatever.

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Estranho texto

Quando eu era menina as coisas eram mais fáceis. Eram mais singelas, como as bonecas que passeavam pelos corredores da casa dos meus pais. Eram mais simples, como os cachorros que latiam pra mim enquanto eu dançava as danças mais sem sentido que já dancei na vida. Eram mais crédulas, como os passeios que dava com meus pais pela praia, de mãos dadas e sentindo a maior segurança do mundo naquele gesto.

A noite era só mais um momento da vida e não a espera de um novo começo ou de uma nova oportunidade. Minha ansiedade era tola e banal, sem preocupações e sem rugas. As manhãs eram mais alegres e tinham o sabor que os outros dizem que devem ter hoje e, nem sempre, têm. A alegria criança é mais forte que a alegria adulta, apesar de menos intensa. A felicidade adulta é mais complicada do que a felicidade criança, onde coisas improváveis podem trazer felicidade instantânea.

Quando era menina a morte não me habitava. Não morava em mim as comparações, a beleza, a vaidade ou a inimizade. Vivenciava a vida plena, estéril de outros sexos e era capaz de contemplar, sem culpa, uma enorme e saborosa bomba de chocolate. Era capaz de ser chata sem me dar conta disso. Não precisava de bom senso e só agradava quem eu queria. Não ligava pros meus cabelos, para as sujeiras que habitavam minhas unhas ou para a maquiagem que ainda insisto em usar pra cobrir minhas falhas. Eu não tinha falhas quando era menina e nem tinha consciência da falha dos outros. Inocência? Sim, sem dúvida.

Tudo mudou naquele maldito dia em que me sangraram as entranhas. Foi nesse dia, à noite e quase sozinha na praia, que fugi do balanço e saí correndo pra deixar de ser criança. Não sabia que as coisas seriam assim. Não sabia que naquele momento eu deixava pra trás uma época que ainda queria viver hoje. Maldito balanço. Bobo e feio.

Whatever gender

Foto: Fernanda Tralalá

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Um dia, uma praia.

As sete gotas d’água desceram escoradas por aquele corpo belo que se encontrava franzino e desprotegido. Havia certa tristeza e melancolia no ar bucólico daquele final de tarde. As nuvens desenhavam formas extensas e escorridas por causa do vento que insistia em ventar lá no alto e a sacudir todos os cabelos aqui no chão. Com ela não era diferente. Suas mãos delicadas alisavam sua própria cabeça como quem faz carinho em si, mesmo pensando ser a mão de outra pessoa. O jeito esparramado no chão com as pernas estendidas mostravam desleixo e preocupação com alguém que, definitivamente, não estava ali. As marcas na areia à sua volta e suas costas e cabelos pincelados com grãos da praia indicavam uma constante inquietação. Só a via de costas, sem nunca ver o rosto. Apesar da tristeza e solidão aparentes, a imagem não deixava de ser bonita e digna de admiração. Alguns minutos se passaram, mas sem conseguir precisar exatamente quantos foram. A imaginação sobre o que a mulher pensava remeteu à minha realidade e a problemas e saudades que me fariam sentar na areia e agir exatamente como a mulher à beira d’água. Tive vontade de chorar, de compartilhar o que sentia, de exprimir o que reprimi a vida toda e senti certa inveja de não estar sozinho na praia, sentado, enxugando as mágoas e saboreando as alegrias.

Mas o que realmente senti foi compaixão.

A mulher se levantou ainda de cabeça baixa e ombros curvados e seguiu a vida. Não pude ver nada além disso. Levantei e fui até o lugar onde ela se encontrava. No chão, bem próximo ao mar calmo e de ondas pequenas e reconfortantes, eram claras as marcas da água. Havia sete lágrimas, dispostas em formato de lamento e saudade. Ao longe, era possível uma última imagem da mulher, já com a cabeça erguida e as mãos fazendo o movimento de um andar mais confiante. De forma poética, uma onda despretensiosa limpou aquele momento pra sempre e deu paz a quem tanto procurava, pelo menos na minha história.

Whatever I tell you.

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TOC

No alvorecer da manhã, ia eu pelo calçadão da praia de Santos, olhando sob os meus pés aquelas ondas brancas e pretas intercaladas que formam um mosaico adorado por todos e bastante enlouquecedor para quem algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo. Aos poucos, e ainda sem me dar conta, pois também ouvia música, minhas pernas começaram a só pisar nas ondas brancas, como todo bom santista fez pelo menos uma vez na vida. Após alguns minutos fazendo isso, me dei conta que algumas pessoas olhavam para mim, pois não é uma tarefa das mais fáceis percorrer longos trajetos na mesma cor, visto que cada onda deve ter mais ou menos um metro e meio.

Ora é preciso brecar bruscamente e ora é preciso esticar as pernas ou até saltar. Tentei estabelecer um padrão de movimento que não despertasse a curiosidade e nem os olhares alheios, mas é impossível, garanto. Devo ter parecido um tanto ridículo, o que, absolutamente, não é novidade nenhuma pra mim e pior, talvez nem para os outros. Depois de quase um quilômetro só pisando nas pedras brancas atravessei a rua antes que enlouquecesse de vez. O asfalto, todo cinza, é mais seguro para pessoas como eu.

O mais assustador foi que, ao final, fiquei com a nítida impressão de que aquele gesto tinha acabado de salvar o mundo. A pergunta que fica é: isso é normal?

Whatever walk

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Você por aqui?


O significado dos lugares não existe. Eles não são significativos sem as pessoas. Eles não são mais nem menos sem elas, que o fizeram, o construíram e lhe deram vida. É engraçado como associo sempre um lugar a uma pessoa. E não faço isso conscientemente, juro. Nos lugares onde estive, por onde passei e em muitos por onde pernoitei, sempre me lembro de alguém que, ou estava comigo, ou simplesmente estava lá. Digo isso porque costumo prestar muita atenção nas coisas que acontecem ao meu redor e gosto, sempre e mesmo que esteja acompanhado, de ficar em silêncio e reparar no cotidiano das pessoas. Reparo o olhar, as expressões, as linhas faciais, o amor e a raiva que circunda o momento. E tanto faz se é numa rua de terra batida no fim do mundo, em uma grande e poluída cidade de concreto ou na mais paradisíaca praia. Meu estado de espírito é muito mais forte que meus olhos, pois assim consigo enxergar muito além do que uma bela ou triste paisagem. No meu mundo cego, onde não há tato, olfato, paladar e sou surdo, as coisas acontecem sem eu querer e fora da minha alçada. Ainda bem, pois se eu controlasse o mundo, seria muito pior que já é. Sempre fui um árduo fã do acaso e quem me conhece sabe muito bem disso. Nunca procurei muito as situações, e, às vezes, essas ocasiões acontecem muito menos do que gostaria. O acaso compõe a melhor música, faz a melhor arte, inspira o melhor momento e cria o mais bonito momento de amor. Não há nuances nos desencontros, não há nuance nas coincidências, não há acaso por acaso, a não ser como retórica. Se o meu pé está indo pra lá e o seu pra cá, algum motivo tem. Acredito nisso piamente. Acredito mais nisso do que no próprio acaso.

Whatever happen

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