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Hiking clouds!

Ah, os pés sem chão. Os pés acima de tudo que tocamos e conhecemos. Encarando as coisas e escondendo – durante alguns minutos – a nossa capacidade de não esquecer das coisas. Tão importante quanto lembrar é esquecer. Tão importante quanto esquecer é aprender com esse esquecimento. Transformar as lembranças em coisas novas, reciclar e saber que as coisas acontecem sim por acaso, mesmo que esse acaso seja encarado como destino.

E se o destino for só esquecer das coisas ou não parar de lembrar nunca? De nada adianta a mediocridade da razão se a emoção e a adrenalina são as formas que encontramos de fugir das coisas que mais nos assolam. Numa analogia barata, é como se para secar o chão usássemos apenas água.

O que nos alimenta desesperadamente todos os dias é uma coisa que ainda não entendemos bem, uma coisa que está além do alcance da compreensão ou dessa razão que vos falo. Minha razão só serve para dar asas à minha imaginação.

Do alto da minha cabeça, onde meus olhos vêem e meu corpo pensa, os sentimentos se distinguem em duas categorias: as coisas que eu quero loucamente e as outras que não quero loucamente.

A única coisa em comum, é claro, é a loucura e a ânsia de saber distinguir entre as duas.

Whatever, huh?

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Uma visita e algumas considerações

Naquele dia, um grande amigo meu veio me visitar. Chegou, como sempre, com bebida embaixo dos braços. Eu, que repousava de ressaca o meu descomportado corpo no sofá da sala, o recebi com dois sentimentos distintos: alegria de vê-lo e saber que teria uma tarde de sábado agradável e engraçada, e a tristeza de saber, já de antemão, que acabaria às 6 da manhã em algum lugar imundo, completamente bêbado e que meu domingo seria ainda pior que esses momentos que precedem a sua chegada. Minha cabeça doía.

Todos os meus amigos são grandes beberrões, alguns com extrema habilidade para tal e outros, mais fáceis de levar, que bebem menos do que eu. Não sei qual faz mais mal pra mim, sinceramente. Os que bebem muito, eu bebo pra acompanhar. Os que bebem pouco, eu bebo pra beber mais que eles e manter assim a tradição. Enfim, não tenho muita saída.

Ele entrou em casa como entram os grandes amigos, me reduzindo a um bom filho da puta bêbado e dizendo que minha cara estava horrível, além de estar amarelo, provavelmente por conta de algum problema de fígado. Dirigiu-se direto pra cozinha, abriu a geladeira, colocou as trocentas cervejas dentro e deixou duas pra fora.

Relutei, juro. Por dois longos minutos eu relutei incessantemente. Como bom amigo que é, me xingando de viado e coisas do gênero, abriu as duas cervejas, deitou no sofá, acendeu um cigarro e disse, com o maior grau de amizade já visto:

– Porra, tu já foi melhor, hein…

Aqui eu chego ao ponto: A chantagem emocional.

A chantagem emocional na amizade é a maior chantagem que se pode encontrar em todas as relações humanas. No amor, nas relações de trabalho, nas crises diplomáticas ou na chantagem pura simples, acreditem, há saída. Na chantagem emocional feita por um amigo, não há. Pelo menos pra mim.

O sentimento que aplaca o meu coração quando a chantagem é dirigida à minha pessoa é indefinível. Não sinto isso em nenhuma outra situação, juro. É uma coisa única, que trava as minhas pernas, seca a minha boca, me faz colocar as mãos no bolso quando os tenho disponíveis e, invariavelmente – digo, quase sempre – me faz sacudir a cabeça em sinal positivo, mesmo que comprima os lábios em sinal de negação.

Há, como nós sabemos e sofremos com isso, pessoas que sabem usar esse artifício de maneira irretocável. Mestres em fazer da digna arte da amizade uma mal trançada teia de chantagens emocionais e sentimentos de culpa.

E disso também se trata a amizade. Ceder a essas chantagens faz parte da entrega e da receita de uma boa e sincera amizade, pois o “por favor” não tem tanto apelo quanto a intimidade. Isso é fato.

Não cedo sempre, como pode parecer, mas garanto aos céus que aquela tarde continuaria a se desenvolver naquele mesmo sofá, de cuecas e com a minha cara de aspecto amarelado tranquilamente.

Por essas e outras que escolho meus amigos pontualmente. Deixo a eles o meu livre-arbítrio, pois, mais sábios, sabem melhor do que eu o que fazer e do que abdicar. Faço isso conscientemente, pois não há livre-arbítrio mesmo, só há essa profunda sensação de que a gente sabe o que está fazendo.

No final, posso estar completamente errado, como vivem falando que estou.

Portanto, chantageiem-me, chantageiem-me!

Or don’t. Whatever.

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Considerações Olímpicas

Sou emotivo, o que não é segredo pra ninguém. Pra quem lê o que escrevo sabe que sou movido a essa coisa que poucos sabem explicar, muito menos eu.
Desde o começo da Olimpíada estou fazendo tradução de textos escritos por jornalistas que estão em Pequim e que nada tem a ver com o Brasil. Quanto mais leio textos de não-brasileiros sobre o Brasil, mais tenho certeza de que o Brasil ou é um país extremamente admirado ou extremamente depreciado. Não vejo meio termo.

A medalha de ouro que César Cielo ganhou hoje nos 50m contou muito bem essa história. Com propriedade, digo, sem o menor medo de ser piegas, que o texto mais emocionado da Olimpíada até agora foi o da vitória dele. Pela primeira vez vi as palavras “emotion” e ” real olympic spirit” em algum texto que recebi para traduzir. E esse “verdadeiro espírito olímpico” não quis dizer, absolutamente, a emoção da vitória, até porque o jornalista americano está muito mais do que acostumado a escrever sobre medalhas de ouro, vide o quadro de medalhas. O que quis dizer na verdade, foi a diferença do valor das coisas. O valor real das conquistas, o valor real do sentimento de representar um país da forma com que um povo merece, por mais nacionalista que isso possa parecer. A mim, mero tradutor, pareceu uma crítica voraz à absoluta onisciência de Michael Phelps nas piscinas, o incrível nadador que, apesar de ser um obcecado pela água, mais parece um predestinado a ganhar medalhas e um humano (?) que pouco sente o real valor de tantas conquistas olímpicas. Coisas de americano. Ou não.

Pra quem viu o choro descontrolado do nadador brasileiro no pódium ao receber a medalha enquanto ecoava o hino nacional e as clamorosas palmas ouvidas por todo o Cubo D’água, sabe exatamente o que estou falando. É por essas e outras que ainda acho que a emoção vale a pena e que as minorias ainda são as maiores potências. Talvez seja o eterno sentimento de inferioridade do brasileiro ou talvez seja simplesmente o orgulho de ter nascido nesse país. Sei lá. Sei que as melhores histórias e os melhores sentimentos sempre vêm da simplicidade e da honestidade das pessoas, e que a humanidade está cada vez menos preparada para lidar com isso. A busca pela perfeição é chata.

Ao ver Michael Phelps nas páginas dos jornais não me vem à cabeça a imagem da pessoa vitoriosa, do ícone maior, do ídolo absoluto, do super-herói. Confesso, sabendo que serei voto vencido, que, no fundo, ainda prefiro ver a vitória dos menores que não ganham medalhas, dos que não tiveram o preparo e o investimento, dos que não tiveram a base e nem o crédito. Dos que colocam o treino muito acima da própria dignidade e que, apesar do país injusto e egoísta em que vivem, sacrificam muito mais do que podem por saberem que têm apenas isso para vivenciar.

Confesso que acho que a crueldade e a dificuldade anterior à medalha ainda faz o melhor herói e que as melhores cenas passam longe dos louros da glória. Mas isso é só uma opinião.

Whatever medal.

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Quereres

E se pudéssemos ver além do que vemos?

Eu queria ver a tristeza por trás da vida do palhaço e a alegria de alguém que não teve sorte na vida. Queria ver a riqueza e a magnitude do caráter de uma pessoa comum ou o talento com que cada pessoa, sem exceção, nasce. Queria ver boas intenções das pessoas sem que algum ditado pessimista viesse me assolar depois. Queria sentir a imensa tristeza que algumas pessoas sentem ou a solidão a que elas são expostas. Queria ter a real dimensão do fardo que algumas pessoas carregam ou da sorte que algumas pessoas têm e não dão valor. Queria ver um mundo realmente novo em que as pessoas apenas se importassem com o que outras pessoas sentem. Queria entender, ao seu tempo, o motivo das atitudes das pessoas ou entender que algumas vezes fazemos coisas para as quais não temos explicação. Queria ter a sensibilidade para entender que as pessoas erram e que o erro, em algum grau, é justificável. Queria entender porque precisamos ver os defeitos dos outros para justificar os nossos ou qual a razão do nosso amor pelos outros precisar de argumentos. Queria rejeitar os rótulos e viver apenas aceitando que as pessoas são diferentes pelo simples fato de serem outras pessoas. Queria não ser tão cruel e egoísta e poder enxergar a simplicidade nas coisas sem contestá-las. Queria aprender, antes de me apaixonar loucamente por alguém, a gostar muito mais de mim.

Queria não ser tão humano.

Whatever being

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