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Corpo insano, mente insana.

Nasci tropeçando no cordão umbilical. O ventre da minha mãe com seu umbigo à mostra já não ensejava um bebê de pelica. Caí da barriga gordo, ruivo e resmungão. Fui um bebê chato, que chorava quando tinha que rir e ria quando fazia os outros chorarem.

Tive carinhos acidentados e acidentes no carinhar. Me doeram os borbotões, sangraram minhas canelas, mãos e arranharam minha cara, orelhas e cabeça. Fui muito costurado nos poros e suei para dentro durante muito tempo. Não me brotavam feridas, apenas os hormônios que me saiam pêlos pelos buracos do meu tecido.

Meu cabelo desruivou, minha barriga murchou e os resmungos continuam debaixo da minha pele de pelica. Os meus olhos jaziam cansados do bálsamo desgostoso da infância e dos muitos brinquedos idiotas que tive que engolir. Dos sonhos pueris que tinha, não restaram muitos pedaços, só pra dizer que ainda resta um mínimo de constrangimento e inocência dentro dos badalos da cachola que insiste em reviver um tempo que não volta mais.

Já nasci com dor, o amálgama da minha vida. O sentimento que prima pela minha existência, seja na tristeza ou na mais pura felicidade. A dor construiu os pilares da minha ignorância e dirimiu as controvérsias das minhas dúvidas.

Eu já nasci com 10 anos e sem hemorragia eu não vivo.

So, whatever.

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Arquivado em Autobiografia

Sobre o que vejo…

Agora exonera essa farsa que vigorou outrora na minha cara. Também pudera! Essa farpa de cera que acende essa vela afora, só acalora o buraco que mora dentro do peito.

Dilacera essa âncora e escancara essa vara que impera aliciadora no meio da perna. Dispara essa espera agora, amadora senhora que declara seu tiro e reverbera cantora nessa voz que agoura e encara esse grande suspiro. Pantera que era, venera essa fera afora e separa teu choro pra outra hora.

Na próxima aurora, embora contrapopusera, teu mimo que sara a cada amanteigada sincera, impede essa rara e controversa demora, enganadora das tuas vestes e escultora dos teus transpiros. Ora, pecadora por ora e pagadora quando lhe retorna a penhora, prolifera a tara e sara quando aparece em outra seara.

Conspiro por vezes contra essa nobre pastora de gostos tão vis e patrocinadora de causas austeras. Dentro de toda megera mora e opera uma tutora traidora das próprias ulceras internas.

O mundo nunca foi tão dissimulado.

So, whatever.

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Arquivado em impressões, Ofensas

Puro sangue

O sangue escorre pelos dedos e escarra na máquina o deleite vermelho e viscoso que veste um pedaço da mesa. Também assume a posição de líquido maior deixando a palavra suja e escura a cada apertar de tecla. Denigre a imagem branca da folha e acompanha violentamente o texto que marca – em preto – a luz fria que brilha e reflete na máquina cansada de apanhar a cada palavra escrita. A ferramenta que agora cospe uma tinta suada, aguada e infame é a mesma que escreveu ideologias, sonhos infantis e palavras límpidas e inocentes. Não domina a verdade, não calcula o risco e nem julga os adjetivos. Não mistura sentimentos e se concentra somente naquilo para o que está determinada. É calculista, cheia de parâmetros e investe em novas palavras que pouco dizem e, ainda assim, dizem mais que antes.

Nesse rabisco de sangue, entranha em forma de dor, permanece espessa a crença indigna e a possibilidade mórbida de começar a sujar outras formas de diálogos e expressões sentimentais.

Por fim, as palavras saem assim, meio sangue e meio falácia. Mas enfim, quer coisa mais orgânica que uma poesia escrita com sangue?

Whatever words I say.

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Arquivado em Introspecção

Meu olhar de saudade

É esse o perfume que me toca. Esse que acabei de sentir e que ainda sinto, mesmo que tenha sido semanas atrás. O cheiro que me proporciona coisas inimagináveis e que aguça a minha saudade a níveis estratosféricos. Meu ânimo aumenta, meu coração aperta e viro criança a cada 7 minutos pra depois voltar a ser adolescente. Meu discurso fica mais animado, mais esperançoso e minha sinceridade se manifesta de maneira intensa, pois pra mim a verdade sempre foi extremamente sexy. Fico bobo, tolo, patético e, talvez essa seja a única situação em que me sinto bem com isso. Minha cegueira se faz presente simbolizando não a razão das coisas, mas a emoção mais pura que possa existir. Fico assim, meio afeto e meio medroso, meio ansioso e meio desesperado.

Esse é o perfume que eu quero e sempre quis. E não me amedronta esse querer absoluto, precipitado e crescente. Pelo contrário. Me afirma e me deixa mais seguro sobre quem eu sou e quem eu sempre fui. As coisas conspiram pra que eu seja menos do jeito que eu sou. Mas de uma maneira irônica e cômica, eu ainda quero ser o que sempre sonhei, apesar dos desmandos da vida.

Eu tô indo cada vez mais longe e as coisas me levam cada vez mais perto. Acho que o segredo é esse: ir o mais longe possível pra voltar rastejando pra onde e pra quem a gente se sente em casa. Jamais subestimarei o destino outra vez.

Whenever, wherever ou just… whatever.

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Arquivado em Autobiografia, impressões

Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.

Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.

Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.

Naked, dressed or… whatever.

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Ao alcance das mãos

Vem que eu te alcanço. Não tem medo não, pode confiar em mim. Estende essa mão que a minha alma já está contigo. Sagrados são esses centímetros que nos separam. São sagrados porque determinam até onde vai a vontade e a força dessa vontade. Mas não tem medo não. Pode segurar que eu te puxo pra perto de mim.

Vamos corromper todos os apectos da física, dirimir alguns segredos da química e reduzir todas as probabilidades matemáticas a um sentimento único e alheio a todas essas coisas. Aperta a minha mão que eu te levo pra cima. Te levo pra todos os lugares em que estive e compartilho contigo as minhas experiências mais necessárias.

Vamos, segura minha mão que falta tão pouco. Essa essência mantenedora da ordem das coisas varia de acordo com esse momento. Varia e decide qual será a história que teremos pra contar daqui a pouco tempo. Estica seus dedos que o meu coração já está dilatado, aberto e saudoso da tua presença. Acolha essa mão que ganharás de presente todo o resto. E, mesmo que seja resto, será honesto, livre de parcimônias, detalhes e manuais. Será intenso, valoroso, arbitrário e corriqueiro. É só você segurar, assim, sem temer a nada. E, garanto, que será a última vez que terá medo ou dúvida quanto a isso.

Nos próximos dias, meses e anos, esse será o ato que fará mais inadvertidamente e sem querer. Agarrará a minha mão como se não estivesse fazendo nada. Será instantâneo, impensado e significará que, nesse dia, por algum motivo, nós nos demos as mãos.
Vem que eu te alcanço.

Whatever range

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Se essa rua fosse minha (ou pelo menos se eu tivesse controle)…

Naquela rua branca eu desfilei meus sapatos de sola preta. Deixei pegadas por toda a extensão, seja de comprimento ou largura. Seu céu branco também ficou poluído com a fumaça cinza do meu cigarro ou com a sedução vermelha da minha vontade. Minhas cicatrizes se fincaram no seu corpo e minha ansiedade me afastou de sua infantil e ingênua forma de ser.

A imagem que tenho ainda é de um mundo todo branco, como se eu pudesse ver neve no céu. Mas a minha cobiça, por mais que eu tente, é de ver as coisas mais escuras, complicadas e fora do meu alcance. Essa é a minha dura realidade. É onde me sinto liberto, me sinto à vontade com a minha sanidade e com medo de descobrir que o mundo não se contenta com o meu humor num domingo de manhã. E me dói a falta de paixão, o coração de concreto e a racionalidade exagerada que me invade de vez em quando.  Sou muito mais da metade feito só de coração, mas tenho um pouco menos da metade de um sentimento imaturo e falacioso que corrompe as minhas mais sinceras relações.

Aprendi a ser sincero, sabe Deus como. Aprendi a decorar essa rua branca com um monte de cores que só vivem dentro da minha cabeça e que, sem mais nem menos, se vão de forma lancinante. Não aprendi ainda a lidar comigo e nem a fazer as pessoas não sofrerem, como eu sempre quis.  Decoro a minha rua, por mais branca que ela seja, da maneira que me convém e faço a decoração sumir da mesma forma fácil e dócil que perfaço a vida. Azar ou sorte dos que me cruzam, amor ou ódio dos que me permanecem. Na minha rua branca, branquinha, está guardado um enorme e pulsante pedaço de mim. Meu maior pedaço e por poucas vezes tocado, apesar das constantes batidas que a inércia lhe dá por minuto. “Ó pedaço de mim, eu não quero levar comigo a mortalha do amor. Adeus!”.

Whatever NOPE.

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