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Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.

Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.

Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.

Naked, dressed or… whatever.

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Fora da minha, cara!

Nessa ou naquela hora, ora, por que a cara da gente nunca vai embora?

De vez em quando eu me canso dessa história de dormir e acordar com a mesma cara. Amassada de manhã e desgastada à noite.

Ora, quando vou deixar de ficar na minha cara?

Essa coisa que me representa, que me inquire mesmo no espelho, que me entrega na mentira e que me absolve na verdade.

Essa é a minha cara, às vezes rindo e às vezes chorando. Essa é a minha cara, às vezes feita de pau e às vezes o puro reflexo do coração.

Os dois olhos, as duas orelhas, essa napa no meio da cara e esse buraco com dentes. É disso que sou feito? E é por isso que sou muitas vezes avaliado?

As olheiras só crescem e minha testa fica mais pelancuda. Minhas orelhas parecem aumentar e os pêlos nascem de onde a gente nem imagina.

Quando será que vou embora da minha cara?

Será que só a morte ou um bom cirurgião me farão livre desse rosto trintinha?

Não, não irei morrer ou fazer uma cirurgia pra me ver livre da minha cara. Também não a odeio todos os dias e nem quero viver tão longe dela, mas bem que podia haver uma pausa, uma suspensão de tempo dos meus olhos, uma interdição no meu nariz e uma paralisação da minha boca.

Acordo todo dia e ela está lá, com cara de boba. Às vezes, idiota mesmo. Trouxa.

É nessas horas, ora, que quero viver fora da minha cara.

Whatever faces.

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Like a child!


É, eu também tenho medo. Eu também me escondo atrás das mãos, como se isso me desse alguma proteção. Eu também olho assim, entre os dedos, procurando uma saída para o medo ou alguém pra compartilhar o meu segredo. Meus olhos tremem, semicerram-se e meu coração parece bater nos lábios. Meu corpo esfria, sua e aquece a palma da minha mão. Minha decência se esvai, minha sinceridade se aproxima, meu ego some. Minha alma já não é mais minha, assim como o meu “eu” já não é mais de ninguém. Eu continuo precisando crer naquilo que se cria. Preciso controlar minha inimaginável covardia. Nesse entrelaçar de dedos perante meu rosto que garante meu salva-guarda de maturidade, minha testa franze, meu cabelo molha e meus olhos olham pra dentro de mim. E tenho medo do irrefreável e do desconhecido e também daquilo que freia e de quem eu conheço. Não sou mais criança e meus medos também cresceram e ficaram mais onipotentes perante meu modo de pensar. Não sou mais tão frágil e nem tão digno de pena, mas evidencio em cada cena aquilo que me faz mal. Não saio mais correndo e nem faço barulho pra pedir ajuda. E não o faço por puro orgulho. Tenho ânsia de resolvê-los, revolvê-los e revivê-los cada vez mais naturalmente.
Por isso – vez em quando -, tiro as mãos da frente da cara, as ponho no bolso e dou um passo atrás do outro em direção daquilo que mais temo. É burrice, eu sei, mas é burrice ter medo?

Whatever hidden

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Olho

Foto da genial Fernanda Tralala

De uma pálpebra retinta de cores que mascaram o dia surgem coisas inimagináveis. O que os olhos podem ver ofuscam muitas vezes todas as verdades contidas no coração. Cílios, sobrancelhas e o resto dos pêlos que circundam os buracos da visão não passam despercebidos mediante aos olhos verdes, azuis ou de qualquer outra cor. Sem preconceitos, espelham sentimentos, estigmas, verdades e mentiras como nenhum outro órgão ou sentido denuncia. O arregalar não exprime só o susto ou a atenção, mas delata as corrosivas explosões internas que a alma sofre. Semi-cerrados não apenas manifestam o nosso lado nipônico, mas acusam de forma sutil a desaprovação por determinados assuntos que não conseguem nos ultrapassar a retina. Aos olhos normais, em estado de completa inércia, todos os fatos são apenas curiosidades, reflexões da vida, dos acontecimentos e situações que rodeiam aquilo que o destino nos prescreve. A cegueira, fato iminente a todos que vêem, é determinante no crescimento da mente, do espírito da gente e afeta sempre o lado amoroso em algum momento da vida. O não ver talvez seja um dos sentidos mais apurados do ser humano. Está tudo ali na sua cara, mas os olhos, teimosos e repugnantes, teimam em olhar apenas para o lado de fora do corpo. O cérebro pensa pensando na visão. Ao fundo, as enormes teias que se misturam ao branco do olho formam complexas transações que resultam em dúvidas e sonhos. O sonho é visto e o olho sempre denota o sentimento que se sente. O olho é o mar da tranqüilidade.

Whatever eye

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