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Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.

Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.

Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.

Naked, dressed or… whatever.

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Arquivado em Autobiografia

Shazam!

Surgiu no palco, em meio às luzes, o mágico com a sua cartola longa e seu smoking preto. Coisa tradicional, puro estereótipo do que conhecemos por mágico. Número após número, o sagaz homem fazia de bobo todos os que olhavam e admiravam aquilo que parecia coisa do outro mundo. A “mágica” é a prova irrefutável de que fomos feitos para acreditar na mentira. Todos sabem que nada daquilo é verdade, mas a admiração e a credibilidade de alguém em cima do palco nos dá essa dura e muita vezes errônea impressão. Assim como na vida.

Nunca gostei de mágicos. Sempre os achei uma espécie de palhaços do mal. A minha curiosidade só me permitia tentar achar qual era o erro nas mágicas. Qual era o ponto que ninguém percebia – onde estava o exato ponto que eles nos passavam pra trás. Nunca descobri muito coisa.

Nunca gostei de ser burro. Quando alguém te faz de idiota é porque encontrou oportunidade pra isso, né não? E pra mim, assistir ao mágico é uma forma de me tornar burro e me deixar ser feito de idiota. Por isso nunca fui de fumar maconha, nunca tive ídolos e nunca falei mais do que devia. Não que isso deixe as pessoas burras – por favor! -, mas pra mim nunca funcionou do jeito que deveria. Nunca consegui ter tranqüilidade para apreciar essas coisas, pois nunca me permiti aceitar as coisas como elas deveriam ser, apesar de querer. Sempre fui o menino chato que pergunta tudo e quer ouvir tudo, assim, sem mágica. Gosto da realidade das coisas, sem muita fantasia. Mesmo porque a minha cabeça é a maior fantasia e o maior conto de fadas que alguém possa imaginar.

Quando pequeno – criança mesmo! – minha mãe me deu um caixa de mágico. Tinha uma varinha de condão, uma capa, uma cartola, um baralho cheio de truques e um manual de como fazer as mágicas. Essa provavelmente tenha sido a primeira coisa que li de verdade. Uma ironia foda da vida.

Essa caixa de mágico, a qual me lembrei hoje, me trouxe uma verdade incrível e que não pensava há muito tempo. A gente só acredita nas coisas por dois motivos: inocência pura – como era o caso – e a vontade de acreditar, seja lá por qual motivo – que o caso de hoje.

Minha mágica, a qual acredito piamente, é transformar em realidade os meus sonhos e crenças. Creio estar longe – físicamente – dos meus sonhos e sonho, todos os dias, estar cada vez mais perto da minha crença.

Abracadabra? Whatever…

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Arquivado em Contos

Se essa rua fosse minha (ou pelo menos se eu tivesse controle)…

Naquela rua branca eu desfilei meus sapatos de sola preta. Deixei pegadas por toda a extensão, seja de comprimento ou largura. Seu céu branco também ficou poluído com a fumaça cinza do meu cigarro ou com a sedução vermelha da minha vontade. Minhas cicatrizes se fincaram no seu corpo e minha ansiedade me afastou de sua infantil e ingênua forma de ser.

A imagem que tenho ainda é de um mundo todo branco, como se eu pudesse ver neve no céu. Mas a minha cobiça, por mais que eu tente, é de ver as coisas mais escuras, complicadas e fora do meu alcance. Essa é a minha dura realidade. É onde me sinto liberto, me sinto à vontade com a minha sanidade e com medo de descobrir que o mundo não se contenta com o meu humor num domingo de manhã. E me dói a falta de paixão, o coração de concreto e a racionalidade exagerada que me invade de vez em quando.  Sou muito mais da metade feito só de coração, mas tenho um pouco menos da metade de um sentimento imaturo e falacioso que corrompe as minhas mais sinceras relações.

Aprendi a ser sincero, sabe Deus como. Aprendi a decorar essa rua branca com um monte de cores que só vivem dentro da minha cabeça e que, sem mais nem menos, se vão de forma lancinante. Não aprendi ainda a lidar comigo e nem a fazer as pessoas não sofrerem, como eu sempre quis.  Decoro a minha rua, por mais branca que ela seja, da maneira que me convém e faço a decoração sumir da mesma forma fácil e dócil que perfaço a vida. Azar ou sorte dos que me cruzam, amor ou ódio dos que me permanecem. Na minha rua branca, branquinha, está guardado um enorme e pulsante pedaço de mim. Meu maior pedaço e por poucas vezes tocado, apesar das constantes batidas que a inércia lhe dá por minuto. “Ó pedaço de mim, eu não quero levar comigo a mortalha do amor. Adeus!”.

Whatever NOPE.

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Arquivado em Autobiografia

Realidade

Minha realidade sórdida, redimida e exorcizada me mantém mais sereno que nunca. Meus acasos, minhas agruras, meu temperamento quieto e por vezes impassível me determina uma verdade muito mais engraçada que poderia supor. Minha angústia, superada por muito pelo amargo do acordar, me mantém célebre, onipotente ao espelho, narcisista na minha redoma, incomensurável dentro do meu poder. Não sei como, mas as intempéries do meu humor variam cada vez menos, meu centro tem se tornado maior, meu equilíbrio mais lúcido e minhas fraquezas mais fáceis de suportar. Medo já não há, receio tampouco e minha maior vaidade é supor o que tenho certeza que poderia fazer, apesar de negar veementemente tudo isso. O meu cigarro queima mais rápido, meu copo cede à minha sede com mais velocidade e demoro cada vez menos para saciar meu sono. Tenho me tornado cada vez mais impassível aos sentimentos alheios, sem esquecer meus princípios tão latentes, como sempre foram. Comecei a encarar a sociedade e os fatos que a acompanham como uma grande e enfadonha piada. E, na minha concepção impiedosa e irônica, é exatamente isso de que se tratam esses assuntos triviais. Não dou mais valor a coisas sem valor e nem menos valor ao que é genial. As coisas são o que elas são. E não valem nem mais nem menos por isso. Percebi que a minha loucura é fundamental, é sonora e que há coisas belas e escrotas na mesma proporção em tudo que se pensa ou que se faz.

É por tudo isso que toda noite eu saio por aí vestido de azul e com uma capa vermelha para lutar contra o mal e os maus, pois, após reler tudo que escrevi acima, tenho certeza de que virei um grande e mal amado super-homem.

Whatever hero

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Nos nossos devidos lugares

Na ordem dos lugares santos, imprevisíveis, inconfundíveis está o nosso lugar acima de tudo. Ninguém sabe onde fica, mas nós sabemos, cultuamos e desejamos, a cada fracasso ou insucesso, voltar pra lá correndo. Queremos ir pra lá também quando está tudo bem, mas sabemos que não podemos viver esse mundo de sonhos pra sempre. É o lugar extremo, onde vivemos o que não pode ser vivido em outros lugares. É o fabuloso mundo paralelo. É um planeta imaginário, ilusório, onde só nós sabemos onde fica e preservamos severamente esta apoteose. E, por mais que saibamos que todos nós temos esse lugar pra recarregar, o nosso lugar sempre parece melhor.

O meu lugar nunca foi apenas um espaço físico. Sempre aparentou, nas poucas vezes em que estive lá, um estado de espírito completamente único. Pareceu-me uma sensação, um contágio de felicidade, uma mistura de fatores difícil de acontecer e que não há receita, infelizmente. Essa combinação de sentimentos e paisagens ora me conforta, ora me entristece, pois a freqüência desse dínamo de prazer diminui em algumas épocas da vida. Esse sentimento confuso e amador aparece em diversas ocasiões. Seja presenciar o nascimento de uma vida, assistir alguém que precise ou estar postumamente presente na conclusão dessa jornada. Não importa.

O que realmente importa é saber o caminho para voltar pra lá, ou pelo menos morrer tentando. Porque sempre me pareceu que essa alegria tão contagiante vem embrulhada numa tristezinha de papel muito fino. E quando o dia raiar, o sol aparecer e começar a nos queimar a pele seremos apenas nós de novo, de volta a essa realidade imprevisível. Seremos nós aqui, e não lá. Lá aonde o nosso mundo não é tão feliz quanto parece.

Whatever place

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Arquivado em Autobiografia, impressões, Introspecção