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Puro sangue

O sangue escorre pelos dedos e escarra na máquina o deleite vermelho e viscoso que veste um pedaço da mesa. Também assume a posição de líquido maior deixando a palavra suja e escura a cada apertar de tecla. Denigre a imagem branca da folha e acompanha violentamente o texto que marca – em preto – a luz fria que brilha e reflete na máquina cansada de apanhar a cada palavra escrita. A ferramenta que agora cospe uma tinta suada, aguada e infame é a mesma que escreveu ideologias, sonhos infantis e palavras límpidas e inocentes. Não domina a verdade, não calcula o risco e nem julga os adjetivos. Não mistura sentimentos e se concentra somente naquilo para o que está determinada. É calculista, cheia de parâmetros e investe em novas palavras que pouco dizem e, ainda assim, dizem mais que antes.

Nesse rabisco de sangue, entranha em forma de dor, permanece espessa a crença indigna e a possibilidade mórbida de começar a sujar outras formas de diálogos e expressões sentimentais.

Por fim, as palavras saem assim, meio sangue e meio falácia. Mas enfim, quer coisa mais orgânica que uma poesia escrita com sangue?

Whatever words I say.

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Sem sentido.

Estou cego a todas as músicas e não ouço mais o olhar da musa. A dúvida cobriu minha cara e descerebrou meus olhos. Me imaginou distante e me trouxe de volta no segundo seguinte, sem sequer me dar o prazer da poesia. Já a mim nenhuma cena soa mais torta e opaca do que a minha imagem em carne viva. Crua, a pele vermelha distorce a realidade e surta o pouco que restou do meu coração nu. E continua nu.

Estou surdo a todas as imagens e não vejo mais o cantar da musa. A certeza desmascarou minha cara e cerebrou meu método. Me imaginou mais perto e me levou além no segundo seguinte, me dando prazer e poesia. Já a mim, todas as cenas soam tortas e vívidas, como a minha imagem sem carne e nem pele. Crua, minha pele pálida converge a realidade e racionaliza muito do que restou do meu coração duro. E continua duro.

Estou cego e surdo a imagens e músicas. Não vejo e nem ouço mais o canto e o olho da musa. No segundo seguinte já não tenho razão e nem emoção, muito menos poesia e prazer. Já a mim, quanto mais vivo, mais fico incauto e minhas cenas ficam mais comprometidas com a minha carne, cerebral ou marginal. Crua, minha pele é a mesma de todos os dias e não mais mantém a relação promíscua com meu coração. Que continua nu. E duro.

Naked, dressed or… whatever.

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2009: o ano dos 30!

Meus amigos serão diferentes. Minha alma será diferente. Meus amores serão mais reais e menos platônicos. Meu dinheiro valerá mais. Minhas músicas serão mais emocionantes e meus filmes mais intensos. Meus sabores serão mais ardentes e minha malícia deixará de existir. Meu sussuros serão mais altos e minhas palavras mais calmas e centradas. Minha saudade será maior e meu choro será mais molhado. Minha liberdade será mais solta e minha prisão será, cada vez mais, possível. Meu prazer será mais um presente do que um vício e meu peito doerá mais e com mais força.

As manhãs terão mais significado e as noites serão mais longas. Meu êxtase será mais prolongado e meu tesão será fiel. As menores coisas perderão seus valores e o que realmente importa será mais valorizado. Os cheiros serão diferentes e as madrugadas acordado ao seu lado serão mais poéticas e eternas. Serei romântico até no ronco. Sentirei medo do tempo que passa e do tempo que passo longe de tudo. Serei eu, com 30 anos. Serei eu do mesmo jeito, mas com mais rugas, menos cabelo e com o futuro chegando cada vez mais perto.

Tenho a impressão de que fico mais bobo a cada dia que passa. Serei eu, aos 60, um velho babão?

Whatever age.

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Só mais um texto esquizofrênico…

Espelho de vida em metades iguais,
Uma lá outra cá.
Cada imagem designa um ser,
Antagônicos por si só.
Enquanto um ri o outro chora,
Quando um chama o outro vai embora.
Só há uma linha tênue de meio termo,
Que me encontro uma vez ao ano,
Mas minha lucidez está em uns dos lados,
Ora lá, ora cá.
É quase uma esquizofrenia consentida,
Pensada e analisada.
É fuga, é solução de vida.
É metade quente e metade fria.
Não há distância e nem local,
É cada igual em euforia.
Simplesmente diferente,
Alheio a mim mesmo em pessoa e prosa.
Qual escreve e qual só sente,
Pra mim eu sou dois,
Pros outros, muitos,
O agora, depois.
Meu maior teste, o texto.

Whatever who?

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Sem tempo…

Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor despedaçado sob o néon amanhecido ruído de motor. A palavra amor no outdoor escrita em vermelho, dinheiro molhado de suor no bolso esquerdo trabalho, carne de baralho, fonte do desejo alheio não freia, na rua passeia e esse cão de guarda que não pára de latir a noite inteira. Lixo que não tem lixeiro na segunda-feira terça quarta quinta ou sexta-feira, lixo de domingo entupindo o bueiro, cascas de banana nas calçadas da fama, crianças para enfeitar as praças, mas não têm cama. Camelôs fugindo da sirene sob o sol a pino, o sangue da chacina escapou da jaula do jornal de hoje com a pose da sessão fashion. Cidade sem céu, mas com paisagens portáteis nas janelas das celas, nas paredes dos lares e os turistas estragando todos os lugares.

Arnaldo Antunes (grifo meu)

Whatever pee

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Substantivos

Desafiando a sorte,
Em saída de qualquer parte,
Em que predomina o porte,
No que denomina a arte.
Que desfigura a vida,
Que desmascara a fala,
Em ponto que não tem vírgula,
Em frase que a boca cala.
No grito que não tem gesto,
No símbolo que não significa,
Em cada crise de fato,
Que abala, que cria conflito.
O meio que surge mascara,
Esconde na fria metade,
Desespero em choro criança,
Pecado em cabeça de frade.
Toca dentro do peito,
Insurge e treme corpo,
Aquilo que não se explica,
Aquilo que finge desgosto.
Sai de forma rara,
E, triste, toca pra frente,
Sabe que a vida segue,
O nasce que vira poente.
Noite que nasce de dia,
Céu que confunde verão,
De nuvem que não me basta,
De tempo que não me dão.

Whatever rhymes

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Amor fim!

Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. Que não dura, que se extingue. Míngua. Negócio finito, que finda. Festa que termina. Coisa que passa, se apaga, fina. Pessoa. Troço que definha. Que será cinza e que o chão devora. Fogo que o vento assopra. Bolha que estoura. Sujeito. Sujeita. Líquido que evapora. Lixo que se joga fora. Coisa que não sobra, soçobra, vai embora. Que nada fixa. A foto amarela o filme queima, embolora a memória, falha o papel, se rasga, se perde e não se repete. Pessoa. Pedaço de perda. Coisa que cessa, fenece, apodrece. Fome que sacia. Negócio que some, que se consome. Sujeito. Água que o sol seca, que a terra bebe. Algo que morre, falece, desaparece. Cara, bicho, objeto. Nome que se esquece.

Whatever fits

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