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Dor. Alheio a dor.

Dor. Não lembro como e nem onde. Aliás, não lembro do último dia em que não senti. A dor física não se lembra, dói. E pra dor não há lembrança, assim como o prazer também não necessita de memória, pois a gente não sente tudo de novo se simplesmente não sentir tudo de novo. Tanto a dor como o prazer são sensações imediatas, que, assim como os segundos, passam. Dor e tempo.

A dor só serve pra indicar onde é que dói, pra você dar pistas para o médico investigar. Pra quê mais serve a dor?

Talvez sirva também pra nos mostrar que somos impotentes diante dela. Pra nos ensinar a ser humilde perante o nosso próprio corpo e a suportar coisas maiores, como a dor da perda, a dor do parto ou a dor de chutar o móvel da sala com o dedinho do pé. A dor é inversamente proporcional à maturidade. São necessárias e nos dão a certeza do quanto somos capazes de suportar, seja física ou psicologicamente. Entre as nuances dela, leve à excruciante, a dor agride, invade, perscruta as entranhas e arregaça a pele do corpo, deixando marcas visíveis a todos que quiserem ver. As outras dores, por serem menos palpáveis, nos machucam ainda mais, permanecendo no corpo por longos períodos num ir e vir cruel e lancinante. As dores alteram a vida, o humor, as relações e nossas vontades. A dor altera os sentimentos.

Independente do tipo, a dor é covarde, mas é um sentimento puro, digno de admiração. É um sentimento que não conseguimos compartilhar com ninguém. É o momento da solidão total, onde nos concentramos intensamente naquilo, como poucas vezes fazemos na vida.

Não tenho medo da dor. Não tenho – e nunca tive – medo de sofrer. Morro de medo da dor alheia e não sei conviver com ela. Aquela coisa que nos corrompe a alma, que nos destrói de dentro pra fora. Aquilo que não conseguimos suportar simplesmente porque não está dentro da gente. Ainda morro disso. Dor alheia.

Whatever hurts

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Arquivado em Autobiografia

Eu vou, eu vou… pra lá agora eu vou!

Meus pés sujos, tanto quanto as minhas mãos, andam pelo asfalto, ora frio e ora quente, procurando algo que eu já sei que estará lá. O que dá a direção são as tão tracejadas linhas que perfazem o caminho da minha felicidade. Elas já estão lá, desenhadas uma após a outra e esperando que eu ligue os pontos e pinte, como se fosse um caderno de atividades para crianças.

Quando se é criança é apenas mais uma coisa que nós fazemos para exercitar a cabeça e para dar alguns minutos de sossego para nossos pais. Agora não. Agora é diferente. Agora as coisas exigem mais da gente. Exigem traços mais perfeitos, cores mais sutis e paisagens mais belas. Exigem também uma concentração e um foco para que os desejos se concretizem e não nos percamos pelo meio do caminho.

Um passo após o outro e vamos deixando pra trás o que éramos minutos atrás. Aprendi, a duras penas, que eu mudo. Que as minhas ideologias e sentimentos amadurecem e me tornam, ao contrário do que sempre pensei, mais forte e sereno e não fraco e covarde. Aprendi que minha tristeza e a minha felicidade caminham juntas nessa estrada, sempre de mão dupla, como não poderia deixar de ser.

Caminho entre esses dois mundos paulatinamente, sempre procurando o centro, a faixa branca que delimita as minhas atitudes. Há o medo constante que a estrada suma, acabe e não nos leve a lugar nenhum, mas mesmo assim ainda há o prazer inenarrável de ir. Sem muito otimismo e sem nenhum pessimismo. Aceitar as curvas e tentar desenhá-las de modo que possamos andar com relativa segurança e com os pés fincados no chão. Nem que seja apenas um deles.

Ao final, lá no horizonte, ainda bem longe da meta, a estrada ainda é de terra, sem traços, sem asfalto e sem limites. A construção é o que importa. O caminho é a glória. O destino é apenas inevitável.

Whatever highway

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Arquivado em Introspecção, Paz

Da onde viemos?

Plantei gerúndios e nasceram orgasmos. Pensei em criar filhos em amplas liberdades e nasceram alguns tabus dos mais engraçadinhos. Ponho na terra, rego e adubo, e, no final, nascem folhas tortas, secas e não tão belas, apesar de sempre florir de vez em quando. Entre o ontem e o amanhã há esse istmo que chamamos de hoje e que precisa ser preenchido com dores, alegrias e perseguições.

Fui formado por muitas pessoas, distintas e parecidas, bem intencionadas e incidentais, pessoas mortas e as mais vivas que conheço. Mas como distingui-los, se são todos homens e nascem todos iguais perante a nossa consciência? Há tempos que viajo com sacrifício para o prazer e a leviandade e quando chego só encontro deveres e cobranças. Minha formação se deve a essa multicolorida sensação de minutos diferentes e prestações infinitas, pagas, até certo ponto, com muito prazer.

Como era verde o meu jardim e azul o meu céu e branco o meu pensamento. Fui sendo moldado e escrito pela ordem das coisas e pelos sonhos e intenções dos que me cercam e que impõem responsabilidades. Essa relutância que insisto em manter e empregar como algo mundano e essencial é a parte sincera e intragável da minha personalidade.

Os risos e os tapinhas nas costas formaram muito menos o meu caráter do que as noites de dor e de vergonha que passei no escuro com as mãos divididas entre tapar os olhos ou fechar os ouvidos.

A sabedoria proverbial não sabe o que a espera e eu não quero mais encontrar a verdade que me embarga os passos e me tolhe os prazeres dessa vida intransigente. Tento ser o mais verdadeiro a cada dia que passa e luto incessantemente para clarear as muitas sombras que ainda restam de batalhas passadas. Não quero perder as derrotas e nem ficar revivendo as vitórias.

A magnitude de tudo isso é ver com os próprios olhos e o coração alheio que você cria exatamente o que você é. Não assim, sozinho, mas com ajuda impertinente, irresponsável e extremamente prazerosa das relações humanas.

Agora eu sei com quantos pais se faz uma pessoa. Obrigado a todos vocês.

Whatever: thanks

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Arquivado em Citações, Introspecção, Millôr

Os olhos também envelhecem

Não vou contar aqui que viajei durante um mês por 8 países. Que falei e mal entendi 5 línguas diferentes e que conheci gente do mundo inteiro. Também não vou contar os apuros que passei e as coisas que, indiferentemente do país que estou, sou vítima ou vilão. Talvez depois.

Vou contar o fato que me fez sentir o que sou, literalmente.

Cheguei ao Brasil na segunda-feira, morrendo de saudade e de vontade de voltar. Fui às favas com meus sonhos europeus e interrompi, graças a Deus, esse sonho insípido e inodoro que tinha de habitar as terras do velho continente por puro desgosto desse nosso Brasil “3º. mundo”. Isso aqui é muito melhor, na minha humilde e singela opinião.

Voltei com saudade das pessoas.

Fui visitar minha avó, 96 anos, que mora sozinha e que nasceu na Espanha, um dos países contemplados e abençoados pela minha visita (sic). História pitoresca a da minha avó. Saiu de navio do porto de Cádiz aos 2 anos (1912) rumo ao Brasil. Ela, 4 irmãos e a mãe. Só ela e minha bisavó chegaram. O “resto” foi jogado ao mar durante a travessia. Só soube disso há um ano atrás e fiz questão de ir até lá e passar uma tarde inteira olhando para o porto que um dia foi o ponto de partida da minha história.

Voltei contente e feliz em poder dizer à dona Matilde que visitei a sua terra, nem que tenha sido por míseras 24 horas as quais passei, no mínimo, 16 bêbado. E só disse isso e mostrei uma foto da cidade, que, como ela mesma disse, não tinha lembrança alguma.

Com seu jeito tenro que só as vós têm, com seu modo amável que só as mães têm e com sua maneira que só as mulheres têm, ela me disse do alto de seus 1,50m:

– É filho, eu estou cansada.

E de dentro dos seus olhos não tão reluzentes quanto outrora, chorou o choro da vida, sabe-se lá pensando o quê.

E pela primeira, e talvez última, consolei minha avó cheio de lágrimas nos olhos, sabendo que os momentos passam, que a vida passa e que, apesar da beleza das coisas, a maior riqueza ainda está bem no fundo desses especiais e inesquecíveis olhos verdes.

I do care.

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Chuva!

O vento venta lá fora e a chuva é questão de espera, não cairá agora, mas não demora. É como a caça diante da fera. E quando cai faz cheirar cheiro de chuva, que molha a terra e cresce planta. Cria também imagem de santa, lavando a casa em uma prece muda. Não perdoa ninguém e nenhuma situação, não perdoa festa e nem ao menos procissão. Molha todos indistintamente, do mais glorioso rico ao pobre moribundo indigente. Nos remete à infância, ao nosso estado criança, quando os pingos caíam na gente como parte do dia e ninguém se importava com isso. Nos lembra um tempo sem compromisso, a vida sem responsabilidade, a existência sem idade, um tempo onde era um primor ser ingênuo. E numa simples comparação entre outrora e os tempos que virão, não conseguimos sequer descobrir a razão de torcermos todos os dias para fazer sol, desprezando a chuva por completo. A chuva só atrapalha, nos molha, nos encharca, maltrata e nos faz mudar de planos. A chuva não é o oposto do sol, pois também chove de noite. São meras gotas que se diluem em muitos enredos que a vida nos dá e tira, pois apesar de longa, a vida é curta demais para a chuva. Ao final, todo mundo reclama, mas ninguém padece. Ao contrário, a água nos dá coragem e marca o momento. Chora a vida, felicita e enobrece. E quando a última gota cai dando fim ao espetáculo e deixando as nuvens mais brancas, leva com ela a certeza efêmera de um belo e ensolarado dia. A chuva é uma eterna injustiçada.

Whatever rain

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