Arquivo da categoria: Pura Estupidez

O circo da pulga

Pula pulga, pula. Salta e batevoltaquica essa coceira da pata esquerda. Entre nos ralos pêlos da perna e sofregamente me sugue o sangue. Se lhe mato a fome a troco de algumas apupadas no local, você está perdoada. Desculpe tentar matá-la, mas o gesto por vezes abrupto é irracional. Não lhe mataria caso pedisse permissão, pois não é nada intencional.

Pulga, foge da minha mão.

Caso fosse um mero espectador, torceria por você contra mim. Torço sempre pelos subjugados e parasitas. Enfim, não meço esforços para a sua total e irrestrita satisfação. Se lhe fosse semelhante faria o mesmo, talvez numa perna mais bonitinha, mas, gosto, cada um tem um.

Não lhe julgo a atitude, lhe julgo a safadeza de não ficar pra ver. Seu prazer de pulga é enveredado pela sua forma prolixa de morder e não olhar o que acontece. Sinceramente, reveja seus conceitos. Nos meus momentos parasitas, sempre fiquei pra ver o que acontecia, numa mistura de medo e alegria. E se ainda fosse tão pouco visível como lhe é característica principal, seria ainda mais cara de pau. Morderia os lugares mais cabais, mais óbvios e deleitosos de sangue. Seria prazer do começo ao fim.

Se pulga eu fosse, causaria as maiores e mais prazerosas coceiras e saía de cada corpo felizão e de boca cheia. Portanto, aproveite essa brecha que lhe dou, mas não abuse em sua ceia. Uma mordida por dia e mantemos assim a diplomacia. Assim, você se sacia e eu mantenho minha sanidade conversando com você todos os dias. Ah, e me desculpe quando não volto pra casa, mas também não posso ser a sua única fonte de ideologia.

Vamos manter uma relação sadia, tá? Boa noite Pulga, boa poligamia.

Or not. So, whatever.

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Arquivado em impressões, Infamidades, Pura Estupidez

Um dia numa casa com um adolescente!

Jesus Rodrigues Veloso, 16 anos, cabeludo e punheteiro, filho da classe média. Bem média, do tipo que é rico pros pobres e maltrapilho pros ricos. Ganhou uma guitarra magnífica e um amplificador barulhento. Passava o dia inteiro tocando uma nota só, num só tom e num só acorde. Distorcia, Wha whava, usava delay e não saía disso. Enlouquecedor.
O pai, um homem médio, mas com um pouco mais de sensibilidade não tolhia o filho, mas tentava encaminhá-lo para algo melhor. Ao passo de um mês ouvindo o mesmo bordão de fá, o pai não aguentou. Chegou perto do garoto e disse:
– Escuta aqui filhote, se você está interessado em música, por que não estuda harmonia, técnica, teoria e tudo o mais?
– Qualé velho, tu não sabe de nada!, disse o delinquente musical. “Esse negócio é besteira, merda. Cago pra virtuose. Eu uso meu feeling e não vou contaminar minha sensibilidade com esses conceitos fora de moda!”.
O pai, sempre compreensivo, retrucou:
– Meu filho, me ouça, técnica é técnica. Ou você aprende ou vai ficar nesse marasmo a vida inteira. Desde que eu lhe comprei essa guitarra você só aprendeu uma posição, fixou os dedos nela e não sai disso. Você não acha que precisa de ajuda?
– Que que há pai, qual é a tua?, interrompeu o asno musicante. “Não vem com essa do teu tempo. O negócio agora é insistência. A tua geração tava completamente perdida e só trocava de acorde porque não sabia onde enfiar os dedos. Nós, com o lance da Internet, encontramos o lugar certo. Não precisa variar”.
O pai, visivelmente resignado, virou as costas e deu o braço a torcer. Sentou-se ao meu lado, na sala de sua casa e, num gesto espontâneo ergueu a cerveja e brindou:
– Tô fudido!

Whatever teens

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Homer Flamejante!

Na semana passada eu estava em Long Beach – leia-se Praia Grande – fazendo um trampo. Após acabar a reunião, fui com mais dois figuras, tomar uma cervejinha num boteco podre.

Entre muita conversa, descobri que um dos caras era fã incondicional de Simpsons. Ficou me contando todas as teorias que envolvem o desenho, todos os significados que o Matt Groening usa para tentar fazer uma boa leitura do babaquismo americano.

No meio da conversa eu perguntei – já que ele sabia tanto de Simpsons – do que era feito o Homer Flamejante. Ele, sem saber responder e num ímpeto de invenção e surrealismo, resolveu fazer a bagaça do drink ali, no meio do boteco. Foi no balcão e perguntou pro dono do bar se ele poderia “inventar” essa bebida. Como é cliente assíduo do bar, o dono não teve como dizer não.

O imbecil pulou pro lado de dentro do balcão, sacou um copo e começou a colocar um monte de coisas dentro. Ele só lembrava que a bebida, no final, tinha uma cor amarela meio puxada pro marrom. Misturou vodka, conhaque, Coca-Cola, St. Remy e, assim como o Homer, um ingrediente secreto que ele viria a confidenciar pra nós depois. Uma tampinha de álcool 96º.

A “bebida” ficou pronta, com um aspecto indigerível, eu diria. Mas, segundo o idiota, ainda faltava o gran finale.

Num acesso de estupidez ainda maior, o individuo pegou meu isqueiro e botou fogo no copo pra trazer à mesa, enquanto todos os clientes do bar olhavam e viam claramente que aquilo não poderia dar certo. E realmente não deu.

Assim que o fogo entrou em contato com a bebida, alguma reação química aconteceu e o líquido começou a borbulhar e voar pra fora do copo, ainda em chamas. O balcão do bar ficou pegando fogo, assim como os guardanapos que lá estavam.

No meio do acesso de riso incontrolável em que eu me encontrava, joguei minha cerveja pra apagar o fogo e fui seguido por alguns dos clientes que lá estavam, molhando ainda mais o bar. O dono urrava e o meu amigo “barman”, desesperado e num ato de heroísmo, pegou o copo pegando fogo e o jogou na rua, espatifando o copo na calçada.

O Pataca aqui e o outro cara que havia ficado na mesa comigo estávamos deformados de tanto rir.

Ele, pálido e todo molhado, voltou à mesa, sentou e proferiu:

– Viu? Cheguei bem perto. Já viu alguma cena real mais parecida com um desenho do que isso?

Tive a nítida visão de como as pessoas me vêem quando, sem querer, eu faço as merdas que faço. Pelo menos dessa vez não fui eu!

Pataca não pagou a conta.

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