Horizontes

Aconteceu há alguns dias. A imensa baía de Santos salta aos olhos de uma maneira cada dia diferente. De manhã cedo o cinza da areia se mistura com o emanar da luz natural, enquanto o céu faz seu trabalho de pintar tudo de azul. Beira-mar, com ondas bem pequenas, os pés são sobrepostos pela água, enquanto pequenos barcos enfeitam, ao longe, o cenário cada dia mais bonito. Na silenciosa entranha dessa paisagem, os tons de verde sobre a água reluzem o amanhecer e o horizonte tórrido e infinito desmistifica a lonjura de um inabalável silêncio. O cheiro da praia é outro nas manhãs. As pessoas que passeiam têm parte do rosto ocupado por olhos iluminados e outra parte escondida pela sombra, como se ainda buscassem um espaço no travesseiro há pouco abandonado. Conforme os raios se tornam mais intensos, mais intensas começam a ser as pessoas. Nas pegadas deixadas sobre a areia, numa confusão sem direção, são desenhadas histórias, nomes, corações e sentimentos. A praia, inerte e quintal do mundo, sorri todas as manhãs, dando preferência a dias claros e com pouca nuvem. Ao cair sobre o mar, as tardes se estilhaçam e o dia nos mostra sua tristeza, num lusco-fusco que quase chora. No vazio do crepúsculo terrestre, esse alarido misterioso de cores inimagináveis se transforma num sossego letal. E a areia fica fria, a água um pouco mais crespa e branca, as pessoas mais ríspidas e cansadas e a paisagem mais vazia e solitária. E, enfim, a noite nos tapa a cara. A partir desse momento não olhamos mais pra ela com o mesmo fulgor e paixão. Não olhamos mais para o mar. Não olhamos mais para a areia. Mas, mesmo na profunda escuridão da noite, temos a certeza consoladora de que outros dias virão, cada vez mais inconfundíveis.

Whatever sunny

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6 Comentários

Arquivado em Autobiografia

6 Respostas para “Horizontes

  1. Fernanda T.

    Pataca revela o dia, a tarde e a noite melhor que qualquer fotógrafo….. adorei o texto!Feliz, feliz por estar aqui….. 🙂

  2. Anana

    Para mim, o nascer e o por do sol são momentos impagáveis, especialmente na loucura dos dias em que vivemos, de trabalhos e excessos… Não troco morar na praia por nada, de verdade! Ainda mais a praia de Santos, que é tão cheia de memórias e histórias…“Pataca só vê a manhã por fotos”E Anana só vê as manhãs quando não dorme….P.S.: coincidência ou não, escrevi algo parecido em meu blog esses dias…

  3. Ariett

    Ai, saudade de praia.

  4. Joo

    Eu acho meio idiota ficar tirando fotos de ‘estautas’ que nao significam nada, mas o Sanctvs Longinvs eh um classico, neam?Acho que vc nao vai tirar foto igual nao. Espero que a sua saia minimamente mais nitida. A luz dentro da basilica deixou minha maquina louca, hoje tenho um pouco mais de habilidade com isso mas, na epoca, nao tinha coragem de mexer no botao do automatico…Boa viagem!!!

  5. Anana

    Não acho que haja, no caso das palavras e inspirações, antes ou depois, ou influências, apenas uma certa freqüência que está no ar. Algumas idéias são jogadas no universo e cabe a nós captá-las ou não… Tudo depende da sintonia.Bom saber que a freqüência é compartilhada! Ameniza a solidão…Beijos

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