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Every Breath you take

Esfalfei. Inspirei fundo naquela tarde já tarde da tarde. Respirei de novo ainda no meio da primeira expirada e caí de novo na rotina de cada momento da vida. Respiração. O ar suprimido no peito sai quente e viciado de mim. Sai expelido forte num bufo raivoso que não mais permite a volta ao meu corpo. Sou assim. Mando embora o ar sem raiva nem culpa e nem dou muito valor a cada crescer e descer do meu peito já cansado dessa maré que vive em meu corpo.

Ar. Ergo a cabeça para que o ar chegue mais fácil dentro de mim. Não chega. O coração palpita, os olhos cerram e a boca seca. Nada mais me importa. O último suspiro, demasiadamente longo, é também a hora que penso naquilo que deixei de respirar. Bloqueio, por convenção, a entrada de um novo ar, mais limpo, mais puro ou simplesmente diferente. Essa tentativa de crime contra meu corpo não exprime uma sensação ou uma vontade consentida. Exprime tão somente a verdade contida nesse corpo e mente devoluta.

Outros ares. Estão lá meus outros ares, ali, um pouco mais além. Estão lá esperando para serem respirados e encherem de novo meus pulmões com esperança. A esperança precisa ter a audácia do desespero para valer como o ar que se respira.

Esse ar que me consome. Essa audácia que muito me falta.

Whatever fellings

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Finais

E aos poucos a festa íntima acabou. O fim havia se instaurado naquela relação já desgastada pelas constantes e intermináveis discussões sem sentido e sem imaginação. Amavam-se. Trocaram as últimas carícias, assim, sem jeito. As cabeças baixas e os olhares lânguidos não se cruzavam mais. Há tempos não dormiam em conchinha e não havia mais aquele carinho que se espera de anos de relação. Os diálogos não eram mais os mesmos e o calor e a agitação se extinguiram há tempos. As batidas no peito de ambos eram o único som audível, mesmo que isso fosse uma ironia incrível. O coração fala quando a boca já se calou. O coração grita quando o silêncio interrompe uma fala.

Só restaram os dois, trancados e isolados do mundo naquele espaço tantas vezes dividido e compartilhado. A frieza e a indiferença eram notórias nos corpos virados de costas um pro outro e pelas meias que ambos vestiam. As dele, com um buraco no dedão. As dela, com desenhos e já puída de tanto deslizar pelo chão. Nenhum dos dois dorme. As horas passam e os olhos continuam abertos, ora tentando se conformar com a situação e ora já pensando nos tempos solitários que virão.

Em meios as sombras que começam a se formar pelo raiar do sol, ficam as frustrações e a desesperança de um dia tudo se ajeitar. E o céu começa a clarear, apagando aos poucos, com a luz forte do dia, restos de uma coisa antiga chamada afeto.

Whatever ends

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Da onde viemos?

Plantei gerúndios e nasceram orgasmos. Pensei em criar filhos em amplas liberdades e nasceram alguns tabus dos mais engraçadinhos. Ponho na terra, rego e adubo, e, no final, nascem folhas tortas, secas e não tão belas, apesar de sempre florir de vez em quando. Entre o ontem e o amanhã há esse istmo que chamamos de hoje e que precisa ser preenchido com dores, alegrias e perseguições.

Fui formado por muitas pessoas, distintas e parecidas, bem intencionadas e incidentais, pessoas mortas e as mais vivas que conheço. Mas como distingui-los, se são todos homens e nascem todos iguais perante a nossa consciência? Há tempos que viajo com sacrifício para o prazer e a leviandade e quando chego só encontro deveres e cobranças. Minha formação se deve a essa multicolorida sensação de minutos diferentes e prestações infinitas, pagas, até certo ponto, com muito prazer.

Como era verde o meu jardim e azul o meu céu e branco o meu pensamento. Fui sendo moldado e escrito pela ordem das coisas e pelos sonhos e intenções dos que me cercam e que impõem responsabilidades. Essa relutância que insisto em manter e empregar como algo mundano e essencial é a parte sincera e intragável da minha personalidade.

Os risos e os tapinhas nas costas formaram muito menos o meu caráter do que as noites de dor e de vergonha que passei no escuro com as mãos divididas entre tapar os olhos ou fechar os ouvidos.

A sabedoria proverbial não sabe o que a espera e eu não quero mais encontrar a verdade que me embarga os passos e me tolhe os prazeres dessa vida intransigente. Tento ser o mais verdadeiro a cada dia que passa e luto incessantemente para clarear as muitas sombras que ainda restam de batalhas passadas. Não quero perder as derrotas e nem ficar revivendo as vitórias.

A magnitude de tudo isso é ver com os próprios olhos e o coração alheio que você cria exatamente o que você é. Não assim, sozinho, mas com ajuda impertinente, irresponsável e extremamente prazerosa das relações humanas.

Agora eu sei com quantos pais se faz uma pessoa. Obrigado a todos vocês.

Whatever: thanks

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Shhh…

O silêncio, tão necessário em meio às grandes sinfonias desafinadas do cotidiano, também é extremamente útil pra se ouvir pequenos ruídos. Pergunto então – por que não calar tudo para ouvir as ondas do nada emitidas por ninguém, no encontro da ininteligibilidade com a falta de ressonância? Mesmo na vida habitual, onde os sons são todos, por que uma alma nobre não pode se dirigir a uma alma presunçosa na mensagem da mudez, na comunicação ansiosa de quem perscruta o buraco da fechadura da existência?

Pois só os inexatos e os inadequados não compreendem a eloquência do não-dito e se prendem ao superficial do transmitido expressamente. E, assim, jamais ouvirão o que é comunicado no ausente, o intercâmbio profundo do que se calou sem ter falado. Pois agora, mais do que nunca, entre os desentendimentos do enunciado e do expressado, vale é a mensagem em branco, descrita na tela em tinta invisível e lida por locutor mudo.

A moral contida é que só se comenta um silêncio com outro silêncio ainda maior, assim como só um imenso bocejo preenche um incomensurável vazio.*

O meu silêncio passa por outros estágios, ainda mais dissonantes. Perpetua-se o minuto que dura horas. A falta de barulho é transmitida em ondas curtas e, por incrível que pareça, nunca ninguém ouviu, nem mesmo eu que sou o eco daquilo que falo. Ali, parado e quieto, admiro a mais completa manifestação do sentimento humano: a falta e a saudade das coisas.

Whatever sounds

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Os 5 sentidos – Fala (?)

Ah, cala a tua boca. Não enche o meu saco com a tua culpa. Não me acuse das coisas que você faz tão bem e sem o menor constrangimento. Esse teu contento em falar, principalmente o que não lhe convém, é a tua mais preciosa e louca ousadia. Esse som gutural que sai pelas tuas narinas enquanto rosnas palavras sem nexo me deixa enojado de ter beijado tua boca tantas vezes e por tantas vezes ter feito sexo enquanto você dizia coisas irreconhecíveis apenas para fingir prazer. Essa tua simpatia radiante, essa alegria irritante com que narras essa sua vida insignificante é a maneira mais fácil e dócil de convencer os outros de que és alguém mais que uma chata do caralho. Ou tu achas que ninguém percebe que essa mania interminável de nunca parar de falar é a defesa que achaste para ninguém perceber que és uma escrota que nada tem a acrescentar na vida de ninguém? A mim não enganas mais.

Eu, que fui condenado pela vida a te ouvir todos os dias, frase após frase, parágrafo após parágrafo, lamurio atrás de lamurio, me contento com a sua mudez. Talvez assim, no remoto e longínquo dia em que permitires que o silêncio tome posse da tua língua, você fique mais bonita, mais simpática e menos estúpida. Nesse dia, exatamente nesse dia, estarei ao seu lado e permanecerei em completo silêncio, contemplando a sua incrível agonia de deixar transparecer sua mediocridade apenas pelo gestual. Prometo que só responderei ao teu silêncio com um silêncio ainda maior e um bocejo antes de me retirar da tua presença. O problema em si não é a tua fala, mas a tua imensa vontade de falar. A fala é o aparelho excretor do cérebro.

Whatever talk

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Hipocrisia: uma colher de humanidade!

Todos nós, hipocritamente, condenamos a hipocrisia. E somos todos, em algum grau, hipócritas condenáveis. Gosto quando as pessoas são hipócritas comigo e me cumprimentam com a maior alegria do mundo, quando o real e sincero desejo é que eu caia num bueiro, na melhor das hipóteses. Essa “falsidade” demonstra, ao menos, que, apesar da ânsia alheia pelo insucesso, ainda há um pouco de educação e admiração aos malquistos. Não que eu me importe com isso, mas uma crítica desfavorável é mais bem-vinda quando não se está presente. Isso é fato.

Outro fato indissociável da hipocrisia é a falta dela. A mais absoluta sinceridade é muito cruel e não traz benefícios a ninguém. Uma pessoa “verdadeiramente sincera” vive angustiada pela possibilidade de descobrirem o hipócrita que ele é. A hipocrisia foi criada como compensação à própria humanidade, como uma proteção aos desumanos que somos. Desde a mais tenra infância somos criados e educados a mentir para o bem alheio, a gostar da tia chata, da vizinha sebosa, do colega escroto e da professora estúpida. Por quê?

Todas as vezes que fui sincero quando era criança fui punido de alguma forma, seja quando ateei fogo na sala de aula e fui suspenso ou quando contei a maior mentira do mundo ao meu amigo e fiquei de castigo. Ser sincero é depor contra a própria pessoa, taí o bafômetro que não me deixa mentir, literalmente.

Cheguei a conclusão que nosso percentual de bondade é extremamente reduzido, o que nos torna sensível e crítico ferrenho a quase tudo que nos cerca. Descobri também que para não sair por aí dando gritos, porrada e xingando todo mundo com olhar de ódio é preciso adestrar ao máximo a nossa capacidade de hipocrisia, até a perfeição total. Que fique bem claro que a hipocrisia não é sentimento, é uma proposta humana dotada de razão, mesmo quando há falta dela. É uma atitude em relação ao sentimento, uma forma perfeita do que o ser humano deveria ser e não é, mesmo fingindo.
Sonho com o dia em que me tornarei o hipócrita mais sincero que já se viu.

Agora, sinceramente, quantas vezes você foi hipócrita hoje?

Whatever soap opera

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