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TOC

No alvorecer da manhã, ia eu pelo calçadão da praia de Santos, olhando sob os meus pés aquelas ondas brancas e pretas intercaladas que formam um mosaico adorado por todos e bastante enlouquecedor para quem algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo. Aos poucos, e ainda sem me dar conta, pois também ouvia música, minhas pernas começaram a só pisar nas ondas brancas, como todo bom santista fez pelo menos uma vez na vida. Após alguns minutos fazendo isso, me dei conta que algumas pessoas olhavam para mim, pois não é uma tarefa das mais fáceis percorrer longos trajetos na mesma cor, visto que cada onda deve ter mais ou menos um metro e meio.

Ora é preciso brecar bruscamente e ora é preciso esticar as pernas ou até saltar. Tentei estabelecer um padrão de movimento que não despertasse a curiosidade e nem os olhares alheios, mas é impossível, garanto. Devo ter parecido um tanto ridículo, o que, absolutamente, não é novidade nenhuma pra mim e pior, talvez nem para os outros. Depois de quase um quilômetro só pisando nas pedras brancas atravessei a rua antes que enlouquecesse de vez. O asfalto, todo cinza, é mais seguro para pessoas como eu.

O mais assustador foi que, ao final, fiquei com a nítida impressão de que aquele gesto tinha acabado de salvar o mundo. A pergunta que fica é: isso é normal?

Whatever walk

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Horizontes

Aconteceu há alguns dias. A imensa baía de Santos salta aos olhos de uma maneira cada dia diferente. De manhã cedo o cinza da areia se mistura com o emanar da luz natural, enquanto o céu faz seu trabalho de pintar tudo de azul. Beira-mar, com ondas bem pequenas, os pés são sobrepostos pela água, enquanto pequenos barcos enfeitam, ao longe, o cenário cada dia mais bonito. Na silenciosa entranha dessa paisagem, os tons de verde sobre a água reluzem o amanhecer e o horizonte tórrido e infinito desmistifica a lonjura de um inabalável silêncio. O cheiro da praia é outro nas manhãs. As pessoas que passeiam têm parte do rosto ocupado por olhos iluminados e outra parte escondida pela sombra, como se ainda buscassem um espaço no travesseiro há pouco abandonado. Conforme os raios se tornam mais intensos, mais intensas começam a ser as pessoas. Nas pegadas deixadas sobre a areia, numa confusão sem direção, são desenhadas histórias, nomes, corações e sentimentos. A praia, inerte e quintal do mundo, sorri todas as manhãs, dando preferência a dias claros e com pouca nuvem. Ao cair sobre o mar, as tardes se estilhaçam e o dia nos mostra sua tristeza, num lusco-fusco que quase chora. No vazio do crepúsculo terrestre, esse alarido misterioso de cores inimagináveis se transforma num sossego letal. E a areia fica fria, a água um pouco mais crespa e branca, as pessoas mais ríspidas e cansadas e a paisagem mais vazia e solitária. E, enfim, a noite nos tapa a cara. A partir desse momento não olhamos mais pra ela com o mesmo fulgor e paixão. Não olhamos mais para o mar. Não olhamos mais para a areia. Mas, mesmo na profunda escuridão da noite, temos a certeza consoladora de que outros dias virão, cada vez mais inconfundíveis.

Whatever sunny

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