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Horizontes

Aconteceu há alguns dias. A imensa baía de Santos salta aos olhos de uma maneira cada dia diferente. De manhã cedo o cinza da areia se mistura com o emanar da luz natural, enquanto o céu faz seu trabalho de pintar tudo de azul. Beira-mar, com ondas bem pequenas, os pés são sobrepostos pela água, enquanto pequenos barcos enfeitam, ao longe, o cenário cada dia mais bonito. Na silenciosa entranha dessa paisagem, os tons de verde sobre a água reluzem o amanhecer e o horizonte tórrido e infinito desmistifica a lonjura de um inabalável silêncio. O cheiro da praia é outro nas manhãs. As pessoas que passeiam têm parte do rosto ocupado por olhos iluminados e outra parte escondida pela sombra, como se ainda buscassem um espaço no travesseiro há pouco abandonado. Conforme os raios se tornam mais intensos, mais intensas começam a ser as pessoas. Nas pegadas deixadas sobre a areia, numa confusão sem direção, são desenhadas histórias, nomes, corações e sentimentos. A praia, inerte e quintal do mundo, sorri todas as manhãs, dando preferência a dias claros e com pouca nuvem. Ao cair sobre o mar, as tardes se estilhaçam e o dia nos mostra sua tristeza, num lusco-fusco que quase chora. No vazio do crepúsculo terrestre, esse alarido misterioso de cores inimagináveis se transforma num sossego letal. E a areia fica fria, a água um pouco mais crespa e branca, as pessoas mais ríspidas e cansadas e a paisagem mais vazia e solitária. E, enfim, a noite nos tapa a cara. A partir desse momento não olhamos mais pra ela com o mesmo fulgor e paixão. Não olhamos mais para o mar. Não olhamos mais para a areia. Mas, mesmo na profunda escuridão da noite, temos a certeza consoladora de que outros dias virão, cada vez mais inconfundíveis.

Whatever sunny

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Resquícios

São sete horas da manhã de uma manhã com chuva. Chuva e ressaca de um sono adiado por sete horas. Há sete dias que bebo sem parar, como se eu tivesse sete fígados ou sete vidas. Nunca gostei de números ímpares, pois acho a divisão perfeita imprescindível. Naquela manhã minha cara estava mais perto do chão, mais perto do lugar que melhor me ampara. O lugar, aqui pra mim, é o meu chão, meu lugar onde os pés se sentem mais perto do descanso. Logo ali, fica o mar, espraiado com seu contorno de areia que suja tudo sem deixar limpo nem sequer o próprio grão. E nem a água limpa o continente. Vi as cores do amanhecer. Minha têmpora de veias saltadas, meus olhos vermelhos e distantes permanecem abertos incessantemente sob a luz de sete sóis e sete luas. O sono me transborda, me acorda e me deixa ver o que madura cedo. Vejo flores e vejo também a trêmula chama quase sem fôlego que abasta uma breve fogueira. Num segundo plano minha memória justa emerge tesa e não me detalha. A cidade agora está paralela a mim, sob esse efeito que parece não ter fim. Não sou mais perpendicular. Nessa manhã descobri que nem a ciência progride e alcança minha matemática bêbada. Um, dois ou sete pontos de apoio não me serão suficientes para sustentar e entender que crescer dói. E dói pra caralho. Dói sete vezes mais que tentar dormir e não conseguir. Sou minha melhor caricatura.

Whatever cartoon

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