Arquivo da categoria: Paz

O farol e eu

O farol, ao alto do mar, é uma ilha sob as nuvens carregadas que virão. Padece a tarde, chega a noite e a escuridão insiste no preto, enquanto apenas uma sóbria luz pisca para alertar a vida. O farol não dá direção. Ao contrário, só indica que há algo no caminho. E o que busca quem está no farol, visto que aponta pra todos os lados?
Eu lhes digo, pois vivo no farol desde pequeno.

Quem mora lá busca, basicamente, paz. Busca estar longe pra pensar perto. Busca a solidão para não sentir solidão. Busca compreender a própria cabeça, identificar o próprio corpo, reluzir sozinho a própria luz.
Quem mora lá busca eternidade. E só é eterno aquele que não tem a quem contar coisas.

Ao aportar no farol, acordo. Volto a fugir desse lugar por onde tanta onda já bateu e tanta gente já passou.

O farol, foi-se. Fiquei eu, alto mar e os pensamentos intransponíveis da vida.

Só.

Whatever lighthouse

Deixe um comentário

Arquivado em Introspecção, Paz

Meu chão

Aqui o chão que piso cessa. Cassa a pegada frágil no caminho torto e apertado por onde piso. Meus pés descobrem a linha tênue e simples de coisas que havia esquecido. Param as pernas de andar por onde caminho. Aqui o piso cessa. Me cede o chão e me mede o princípio. Seca o tempo da couraça e poupa o nervo que dissolve quando encontra a minha casca. Abraça o chão. Voa cego na escuridão e orbita de peito aberto na mais vaga ilusão. Aqui nessa sombra que me engole, nessa massa que me mancha, nessa mesa que me mata.

Aqui o piso cessa.

Nessa mesma brasa que ilumina esse breu. Nesse mesmo contorno por onde pesam o resto de mim acima do chão. Atravessa até onde não exista mais teto no andar de baixo. Aqui o piso insiste em permanecer sobre o pé. Não há acesso à falta de gravidade. É treva a terra que não cede. Aqui o piso cessa. Aqui o piso não tem paz.

Whatever floor

1 comentário

Arquivado em Introspecção, Paz

O que é realmente onipresente?

O que são as mãos de Deus ou as mãos divinas? Quais são elas e quem elas suportam de maneira quase insuportável? Quais os caminhos que elas percorrem entre os céus e quais as andanças que permitimos que elas nos guiem?

A dependência do nosso arbítrio, religiosamente falando, compreende a aceitação destes termos divinos ou a simples existência nos dá a possibilidade deste bônus da vida?

Sinceramente não tenho resposta pra essas coisas, mas é engraçado como as coisas convergem de uma maneira que nos fazem questionar, sempre, os nossos próprios dogmas e entendimentos mais sólidos, por mais que eles pareçam cada vez mais concretos.

Tenho, de maneira bem simplista e solitária, questionado algumas coisas que o meu ceticismo nunca deixou. E, apesar de parecer, não acredito mais em Deus do que acreditava antes. Mas, indubitavelmente, algumas coisas me deixam mais perto disso.

E em mais um aspecto da minha vida esse sentimento vem não por causa de mim, mas por causa de pessoas próximas que precisam mais que eu, pelo menos no momento. Não quero parecer altruísta ou coisa parecida, mas a dor dos outros ainda traduz melhor a minha religiosidade do que os meus próprios problemas ou a minha necessidade de fervor.

O meu Deus não parece tão próximo quanto ao que eu desejo às outras pessoas. Me basta a proteção de quem eu quero bem ou a quem eu não suporto ver sofrer. Acho que por isso nunca fui religioso ou nunca tentei ser. Divino é uma palavra que talvez ninguém nunca consiga explicar, mas tenho certeza de que alguns sentimentos traduzem muito mais essa crença do que a própria devoção a algo que o homem criou.

So, whatever.

3 Comentários

Arquivado em Ceticismo, Paz

Eu vou, eu vou… pra lá agora eu vou!

Meus pés sujos, tanto quanto as minhas mãos, andam pelo asfalto, ora frio e ora quente, procurando algo que eu já sei que estará lá. O que dá a direção são as tão tracejadas linhas que perfazem o caminho da minha felicidade. Elas já estão lá, desenhadas uma após a outra e esperando que eu ligue os pontos e pinte, como se fosse um caderno de atividades para crianças.

Quando se é criança é apenas mais uma coisa que nós fazemos para exercitar a cabeça e para dar alguns minutos de sossego para nossos pais. Agora não. Agora é diferente. Agora as coisas exigem mais da gente. Exigem traços mais perfeitos, cores mais sutis e paisagens mais belas. Exigem também uma concentração e um foco para que os desejos se concretizem e não nos percamos pelo meio do caminho.

Um passo após o outro e vamos deixando pra trás o que éramos minutos atrás. Aprendi, a duras penas, que eu mudo. Que as minhas ideologias e sentimentos amadurecem e me tornam, ao contrário do que sempre pensei, mais forte e sereno e não fraco e covarde. Aprendi que minha tristeza e a minha felicidade caminham juntas nessa estrada, sempre de mão dupla, como não poderia deixar de ser.

Caminho entre esses dois mundos paulatinamente, sempre procurando o centro, a faixa branca que delimita as minhas atitudes. Há o medo constante que a estrada suma, acabe e não nos leve a lugar nenhum, mas mesmo assim ainda há o prazer inenarrável de ir. Sem muito otimismo e sem nenhum pessimismo. Aceitar as curvas e tentar desenhá-las de modo que possamos andar com relativa segurança e com os pés fincados no chão. Nem que seja apenas um deles.

Ao final, lá no horizonte, ainda bem longe da meta, a estrada ainda é de terra, sem traços, sem asfalto e sem limites. A construção é o que importa. O caminho é a glória. O destino é apenas inevitável.

Whatever highway

4 Comentários

Arquivado em Introspecção, Paz

My best wishes!

Sempre fui assim, meio esquisito, quieto e impassível diante de certas coisas. Sou assim e aprendi, na maioria das vezes, a me aceitar exatamente do jeito que sou. Ansioso, extremamente agitado, um tanto antagônico e confuso. Mas fazer o quê se a natureza me reservou essas coisas?

Eu sou o cara que sempre quis pular certas partes da vida. Sempre persegui o futuro sem planejar muito bem o presente. Sou impulsivo, apaixonado e não consigo parar de pensar um minuto sequer. Nunca relaxo, não durmo e tenho vícios insanáveis. Mas ao contrário do que possa parecer, não sou de todo mal. Tenho sonhos, apesar de não saber muito bem quais são. Mudar é uma palavra que vive saindo dessa minha boca grande, e, volta e meia, é apenas mais uma palavra que se perde em meio ao cotidiano. Tenho vergonha de algumas coisas que faço assim como todo mundo tem, e talvez meu maior sonho seja abstrair essas vergonhas diante de quem amo. Sou constantemente mal interpretado, não sei se por culpa das pessoas ou da minha falta de capacidade de comunicação. Sou teimoso e meu melhor amigo. Passo muito tempo comigo mesmo e muitas vezes não sei quais – ou quem – são as minhas prioridades na vida. Tenho muito poucas certezas, mas as que tenho são imutáveis, assim como são intransponíveis alguns dos meus sentimentos. Ainda me falta muita coisa, mas no momento não tenho nada do que reclamar ou pedir a ninguém. Portanto, se o sêo Noel invadir a minha casa nessa noite eu meto bala no gordo!

Tudo de bom procês!

Whatever Christmas.

3 Comentários

Arquivado em impressões, Infamidades, Paz

Um amigo!

Em um quarto de roupas verdes claras repousou meu último contato físico. Não transpareceu a morte ou sequer se ouviu um lamento. Esperança o cercava de todos os lados e jamais nos abandonou. Desde a sua última fala, que sussurrou ao meu ouvido com a cabeça apoiada em meus ombros e me dando um abraço, o meu silêncio se tornou a minha maior fé. O ato demorado de cerrar os olhos e calar nossas almas já dura tempo demais, mas continua enchendo o coração de amor e saudade.

E, na verdade, por trás dos olhos tão verdes quanto a roupa do quarto, ainda continua, de alguma forma, vendo e sentindo o que se passa entre nós. O entendimento do que aconteceu não é claro pra ninguém e é demasiadamente doloroso não poder interagir com quem é um sábio nessa arte. Interação essa que ultrapassa os limites do meio físico e das inúmeras gargalhadas que ouvimos sempre de forma tão concreta. E o sentimento é uma coisa difícil de ser compreendida. Tão difícil que extrapola a linha tênue do que é a vida e a morte, mas nos garante contornos intermediários desse parodoxo e nos faz viver indiferentes a essa situação. Cada qual que fez parte dessa vida exprime essa força de uma forma única, mas acredito que todos se ligam a ele em circunstâncias absolutamente singulares para remediar uma nostalgia tão latente.

Não são festas, encontros e muitos menos textos como esse que irão ajudar patologicamente ninguém, mas sempre tentamos, desesperadamente e de uma forma até egoísta, satisfazer esse nosso sincero ímpeto de ajuda. Guardamos na memória as melhores lembranças e lhe damos o reconhecimento tão merecido.

E se não pude fazer nada melhor para ajudar um amigo do que escrever essas linhas, peço perdão, mas dentro do mesmo coração que sente essa saudade imensa, também repousa o sentimento efêmero de que a vida continua. Sempre e pra todos nós.

Wherever you are

9 Comentários

Arquivado em Licença poética, Paz

Apenas mais um monte de palavras…

Prazer que abala as estruturas,
E te manda de volta a infância,
Que absorve todo o seu corpo,
E imita a arte sem plágio nem perdão.
Salienta o modo de viver,
Persegue a cria de forma inusitada,
Chora a respeito do passado,
Dramatiza e volta ao presente,
E sente que não quer sair,
Não quer ir embora nem ficar,
Quer a paz de outrora,
Quer o prazer de agora,
Tudo ao mesmo tempo agora,
Sem nada que atrapalhe sua solidão,
Tem medo do futuro e se lamenta do passado,
Desgraça a vida conjecturando,
Contenta-se com o pecado,
Limita-se a ver o que quer,
Quer o que vê e não chora,
Demora, apavora e sai ileso,
Não dói agora mas doerá depois,
Quando souber que chegou ao fim,
E abdicou de tantos amores,
E não provou dos tantos sabores,
Que a vida lhe ofereceu.

Whatever…

2 Comentários

Arquivado em Autobiografia, Paz, Pecados, Prazeres