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Não tinha teto, não tinha nada.

Eram duas as janelas abertas naquela casa já com pouca tinta e corroída pelo tempo. Algumas partes denunciavam a cor que, quase em harmonia, se misturava com o musgo recorrente no sopé de cada parede. Imponente, a frente do velho casarão mostrava a quem passava certa decadência, apesar do belo jardim que se espalhava ao longo do terreno. Era claro o cuidado e a manutenção rigorosa que era dada àquela construção histórica.

A rua, naquele final de outono, era toda permeada por folhas de todas as cores. As árvores desfolhadas em tons de amarelo eram em sua maioria de ipês que formavam uma espécie de túnel para quem passava por baixo. Do meio da rua mal se podia avistar o céu, a não ser pelas poucas passagens que as árvores caprichosamente deixavam e que criavam milhões de pequenos focos de luz, fazendo da rua um belo projeto paisagístico.

Nas duas janelas abertas era possível ver, com certa atenção, alguns detalhes que faziam muito sentido para alguém com um pouco de imaginação e sensibilidade. A cena das duas janelas permanentemente abertas se completava. O que se via numa delas terminava na outra. Era possível sentir que o lugar havia sido palco de muitas histórias tristes e felizes, assim como em outra casa qualquer. Mas não era isso que chamava a atenção dos transeuntes que ali passavam.

A inquietação dentro dos cômodos e a preocupação aparente com o mundo exterior delatavam a insegurança dos moradores daquele lar absorto em um mundo absolutamente particular. A constante presença de visitantes mostrava que ali era um mundo misterioso que permanecia na imaginação das pessoas e parecia não deixar transparecer completamente o seu teor. Ao final de uma cuidadosa olhada, era presumível que existissem esconderijos por todos os lados. Não esconderijos físicos desses onde as pessoas se escondem, mas esconderijos onde todos os medos e agruras são deixados lá, para que ninguém veja.

Apesar de passar constantemente pela rua onde está a casa, é difícil descobrir todos os seus segredos e idiossincrasias. Diariamente é possível ver algo diferente, algo que encante ou algo que amedronte. E ela parece não ter fim nos seus detalhes e nos seus moradores.

Essa é casa que mora dentro de mim.

Wherever I live.

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