Finais

E aos poucos a festa íntima acabou. O fim havia se instaurado naquela relação já desgastada pelas constantes e intermináveis discussões sem sentido e sem imaginação. Amavam-se. Trocaram as últimas carícias, assim, sem jeito. As cabeças baixas e os olhares lânguidos não se cruzavam mais. Há tempos não dormiam em conchinha e não havia mais aquele carinho que se espera de anos de relação. Os diálogos não eram mais os mesmos e o calor e a agitação se extinguiram há tempos. As batidas no peito de ambos eram o único som audível, mesmo que isso fosse uma ironia incrível. O coração fala quando a boca já se calou. O coração grita quando o silêncio interrompe uma fala.

Só restaram os dois, trancados e isolados do mundo naquele espaço tantas vezes dividido e compartilhado. A frieza e a indiferença eram notórias nos corpos virados de costas um pro outro e pelas meias que ambos vestiam. As dele, com um buraco no dedão. As dela, com desenhos e já puída de tanto deslizar pelo chão. Nenhum dos dois dorme. As horas passam e os olhos continuam abertos, ora tentando se conformar com a situação e ora já pensando nos tempos solitários que virão.

Em meios as sombras que começam a se formar pelo raiar do sol, ficam as frustrações e a desesperança de um dia tudo se ajeitar. E o céu começa a clarear, apagando aos poucos, com a luz forte do dia, restos de uma coisa antiga chamada afeto.

Whatever ends

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7 Comentários

Arquivado em Citações, Introspecção, Millôr

7 Respostas para “Finais

  1. Oligofrenético

    O incomentável…[]’s

  2. Anonymous

    Que coisa linda, Pataquinha… Fiquei emocionada…
    Beijos
    Moça

  3. Pataca

    Oi Anna, tudo bem? Tem toda razão… e foi de propósito. Tenho como inspiração, muitas vezes, um livro do Millôr (Biblia do Caos). Quando não tenho sobre o que escrever abro o livro e escrevo sobre a primeira frase que vejo… isso é recorrente aqui. Aliás, você pode perceber que coloco créditos – ainda que meio escondidos – nas tags. Espero que você veja essa resposta, pois o link que voce me mandou é da Home do orkut! rsrs… Brigado pela visita e pelo comentário.

  4. Pimenta

    A hart beating loudwon’t be alone for long!tumtumtumtum

  5. Anana

    Been there, and it sucks… quando o afeto acaba, there’s nothing left to hold on to…
    Texto triste, Pataca! Até meu coração que está geladinho se comoveu…

  6. annapaulaparlatore

    Cara, muito bom o texto. Mas a frase final, “E o céu começa a clarear, apagando aos poucos, com a luz forte do dia, restos de uma coisa antiga chamada afeto.” é de um texto do Millôr Fernandes, publicado em sua coluna semanal numa Veja de 1980, uma edição notável pelo entrevistado das páginas amarelas: Carlos Drummond de Andrade. A crônica do Millôr fala sobre o fim de uma festa, os convidados que sobraram falando mal dos que foram, o apartamento sendo organizado e etc. Não sei qual foi sua intenção, mas não me pareceu uma homenagem. Se quiser falar do assunto, meu orkut é http://www.orkut.com.br/Main#Home.aspx
    Abraços!
    Seja bom!
    Seja útil!
    Seja cortês!

  7. Cãmi

    Não é irônico que independente do começo os finais sejam todos iguais?Lindo texto, Pataca!bjones

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