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Memórias…

Da escuridão do útero, sob o efeito amniótico desse líquido que envolve nossa profunda infusão materna, uma luz brota reluzente e me tira desse espaço quentinho e escuro chamado mãe. Esse feixe de luz que transborda através da boceta cria a esperança fulgás que tanto precisamos ao nascer, crescer e apagar essa luz ao adentrar novamente a ela. Ao nascer, fiquei de cabeça pra baixo e quanto mais me procuravam dentro da barriga, mais eu corria pra dentro da escuridão. Eu gostava das vísceras, do vermelho e de meus vizinhos órgãos como uma perfeita comunidade onde todos tinham função e trabalhavam juntos por um objetivo em comum. Eu era o único parasita, estado que permanece ainda hoje. No dia em que me expulsaram traumaticamente lá de dentro, as coisas mudaram. Comecei a perceber que aquela sociedade orgânica não fazia o menor sentido aqui fora, a começar pelas palmadas que levei na bunda segundos depois de explodir em nascimento e pelo corte impiedoso e arbitrário que me deceparam a umbilica. Até hoje eu tenho um buraco no meio. Dois, pra ser mais preciso.

Na fantasia mais remota do meu parto, esse foi o momento solene em que o criador me deu cria. Enquanto chorava, delirava com o meu leite quente, urrava a atenção paciente, inundava minha fralda absorvente e me esbaldava no ócio somente, ninguém me achava demente e nem me xingava. Já grande, beberrão e matreiro, me lembro com orgulho do tempo em que era careca, mas ainda teria uma longa cabeleira pela frente. Dessa memória escassa e silente, pouco me resta a fazer a não ser aceitar de bom grado o dia que a foda “papai e mamãe” foi mais do que uma mera e prazerosa posição sexual.

Whatever born

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Arquivado em Autobiografia