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Considerações Olímpicas

Sou emotivo, o que não é segredo pra ninguém. Pra quem lê o que escrevo sabe que sou movido a essa coisa que poucos sabem explicar, muito menos eu.
Desde o começo da Olimpíada estou fazendo tradução de textos escritos por jornalistas que estão em Pequim e que nada tem a ver com o Brasil. Quanto mais leio textos de não-brasileiros sobre o Brasil, mais tenho certeza de que o Brasil ou é um país extremamente admirado ou extremamente depreciado. Não vejo meio termo.

A medalha de ouro que César Cielo ganhou hoje nos 50m contou muito bem essa história. Com propriedade, digo, sem o menor medo de ser piegas, que o texto mais emocionado da Olimpíada até agora foi o da vitória dele. Pela primeira vez vi as palavras “emotion” e ” real olympic spirit” em algum texto que recebi para traduzir. E esse “verdadeiro espírito olímpico” não quis dizer, absolutamente, a emoção da vitória, até porque o jornalista americano está muito mais do que acostumado a escrever sobre medalhas de ouro, vide o quadro de medalhas. O que quis dizer na verdade, foi a diferença do valor das coisas. O valor real das conquistas, o valor real do sentimento de representar um país da forma com que um povo merece, por mais nacionalista que isso possa parecer. A mim, mero tradutor, pareceu uma crítica voraz à absoluta onisciência de Michael Phelps nas piscinas, o incrível nadador que, apesar de ser um obcecado pela água, mais parece um predestinado a ganhar medalhas e um humano (?) que pouco sente o real valor de tantas conquistas olímpicas. Coisas de americano. Ou não.

Pra quem viu o choro descontrolado do nadador brasileiro no pódium ao receber a medalha enquanto ecoava o hino nacional e as clamorosas palmas ouvidas por todo o Cubo D’água, sabe exatamente o que estou falando. É por essas e outras que ainda acho que a emoção vale a pena e que as minorias ainda são as maiores potências. Talvez seja o eterno sentimento de inferioridade do brasileiro ou talvez seja simplesmente o orgulho de ter nascido nesse país. Sei lá. Sei que as melhores histórias e os melhores sentimentos sempre vêm da simplicidade e da honestidade das pessoas, e que a humanidade está cada vez menos preparada para lidar com isso. A busca pela perfeição é chata.

Ao ver Michael Phelps nas páginas dos jornais não me vem à cabeça a imagem da pessoa vitoriosa, do ícone maior, do ídolo absoluto, do super-herói. Confesso, sabendo que serei voto vencido, que, no fundo, ainda prefiro ver a vitória dos menores que não ganham medalhas, dos que não tiveram o preparo e o investimento, dos que não tiveram a base e nem o crédito. Dos que colocam o treino muito acima da própria dignidade e que, apesar do país injusto e egoísta em que vivem, sacrificam muito mais do que podem por saberem que têm apenas isso para vivenciar.

Confesso que acho que a crueldade e a dificuldade anterior à medalha ainda faz o melhor herói e que as melhores cenas passam longe dos louros da glória. Mas isso é só uma opinião.

Whatever medal.

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