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Não me sinto velho, senil, nem muito menos caquético. Sou um moribundo de poucos cabelos brancos que continua a insistir em meu bem estar. Nos meus passos de poucos centímetros vejo a vida passar em duas ou quatro rodas, enquanto o amanhecer exalta o meu câncer de família. Minha tosse crônica ainda persiste ecoando em muitos tons dentro de minha caixa torácica, mas, mesmo velho, ainda retorço meu pescoço olhando a bundinha da menina que passa e rebola de graça a caminho do mar. Não trepo há anos. Continuo ‘step by step’ sendo o escroto que sempre fui, exalando o cheiro de perfume barato que comprava na quitanda do japonês da esquina da minha casa. Tenho três filhos. Um está preso, um é médico e a outra deve ser puta. Minha mulher é feia, chata e não me agüenta mais. “Uma santa”. Meu ‘shorts’ curto revela minhas varizes e minha meia esgarçada denuncia minha podridão. Fiquei velho e, às sete da manhã, vejo o mundo passar com meu olhar cercado por pés-de-galinha. Peço ao mundo mais alguns anos, meses ou dias de vida. Anos, meses ou dias que permanecerei reclamando e fazendo da nostalgia meu melhor esporte. Distribuo conselhos a torto e a direito, mais torto do que direito. Uso óculos, tomo um monte de remédios, tenho vícios incuráveis e passo as minhas horas tentando ser lembrado de algum jeito. Minha camisa traz os dizeres “Não maltrate o bêbado. Leve-o para o primeiro bar que encontrar”.

Poucos minutos atrás, assolado pela madrugada, sentei no banco da praia e tomei uma cerveja com este homem. Este apenas resumiu, em palavras disléxicas, boa parte do teor da conversa.

É incrível como um simples gesto ou um pouco de atenção pode ser cativante.

Whatever drunk people

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