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Dedinhos

As unhas crescem descontroladamente em meios aos dedos que não param de apontar os infames e os sinceros que são desmascarados pela fragilidade de seus pensamentos. O julgamento dos dedos é implacável, determinante e não considera fatos, uma vez que essas dez coisinhas pontudas nas mãos não pensam, apesar de dizerem muito. Pra pôr o dedo em riste não é necessário muita coisa. O mesmo dedo que xinga aqui, xinga na China, no México ou num vilarejo da Turquia. Uma fechada de trânsito e lá está ele, fazendo exatamente o que faz melhor. Cutículas e unhas são meros coadjuvantes nessa linguagem rústica, clara e universal. E quando aponta, aponta o que quer, o que precisa e o caminho que se deve seguir. As placas sinalizadoras apenas substituíram o que o dedo já fazia há muito tempo. Suas funções vão muito além. Eles sentem, transmitem sensações e provocam outras tantas. Finalizam assuntos, pedem a conta do bar, pegam e seguram coisas que mais tarde talvez nos arrependamos. Ou não. Uns são mais hábeis e outros são pra lá de descontrolados. Os meus são assim, agitados e prolixos, contraditórios, frívolos e cheios de razão. São os dedos que executam a obra, mas não têm reconhecimento. São os dedos que precisam as coisas, que as molduram, que criam as coisas.
Apontar o dedo pra você mesmo pode ser o melhor gesto do homem.

Whatever finger

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Esse intenso labirinto

Eu ali naquele semi-círculo que só ela tem. Suas mil auréolas espalhadas por todo o corpo demonstram que o mundo só tem graça porque as coisas rodam. E rodam nela. Curvas delineadas por onde imagino mãos, beijos e afagos. Todos circulares. Não há retas nas relações já feitas, pois o círculo é uma linha que só tem uma ambição. Sua descoberta é tenaz, agradável e prazerosa. Seus cheiros são ainda inalcançáveis e seus gestos de difícil compreensão. Sua imagem turva e insípida se revela cada vez mais saborosa e única, pois sua identidade é a revelação mais íntima dessa relação. A posição de defesa e o espectro de sentimentos intensos são a constatação óbvia de que a imagem é muito pouco em relação à pessoa. A intensidade não se mostra, não se mistura. A intensidade é a nossa alma que nunca mostramos, nem quando queremos. Ela – a intensidade – só aparece quando nossa razão já acabou de brigar com a nossa vontade.

Felizes são os que conseguem viver sem pensar. Felizes são os que conseguem viver sem as mil auréolas espalhadas pelo corpo. Felizes são aqueles que andam pelas curvas e, logo após, seguem em sua reta para percorrer seu caminho sem notar que a intensidade é o que importa. Aos que não se contentam e sentem a necessidade de aperfeiçoamento da relação ou de simples entrega têm nos círculos sua parada obrigatória. A ida e volta, os graus alcançados e as subidas e descidas são parte desses círculos que perfazem os dedos que uso agora para digitar. O objetivo, ao contrário do que se pensa, é o centro do labirinto.

Whatever fingerprint

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