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Dor. Alheio a dor.

Dor. Não lembro como e nem onde. Aliás, não lembro do último dia em que não senti. A dor física não se lembra, dói. E pra dor não há lembrança, assim como o prazer também não necessita de memória, pois a gente não sente tudo de novo se simplesmente não sentir tudo de novo. Tanto a dor como o prazer são sensações imediatas, que, assim como os segundos, passam. Dor e tempo.

A dor só serve pra indicar onde é que dói, pra você dar pistas para o médico investigar. Pra quê mais serve a dor?

Talvez sirva também pra nos mostrar que somos impotentes diante dela. Pra nos ensinar a ser humilde perante o nosso próprio corpo e a suportar coisas maiores, como a dor da perda, a dor do parto ou a dor de chutar o móvel da sala com o dedinho do pé. A dor é inversamente proporcional à maturidade. São necessárias e nos dão a certeza do quanto somos capazes de suportar, seja física ou psicologicamente. Entre as nuances dela, leve à excruciante, a dor agride, invade, perscruta as entranhas e arregaça a pele do corpo, deixando marcas visíveis a todos que quiserem ver. As outras dores, por serem menos palpáveis, nos machucam ainda mais, permanecendo no corpo por longos períodos num ir e vir cruel e lancinante. As dores alteram a vida, o humor, as relações e nossas vontades. A dor altera os sentimentos.

Independente do tipo, a dor é covarde, mas é um sentimento puro, digno de admiração. É um sentimento que não conseguimos compartilhar com ninguém. É o momento da solidão total, onde nos concentramos intensamente naquilo, como poucas vezes fazemos na vida.

Não tenho medo da dor. Não tenho – e nunca tive – medo de sofrer. Morro de medo da dor alheia e não sei conviver com ela. Aquela coisa que nos corrompe a alma, que nos destrói de dentro pra fora. Aquilo que não conseguimos suportar simplesmente porque não está dentro da gente. Ainda morro disso. Dor alheia.

Whatever hurts

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