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Ocaso

E quando me diziam que a beleza roubava palavras eu nunca acreditei, pois nunca havia visto o que é realmente isso. Só a havia visto em seu estado imperfeito, traduzido na humanidade tão defeituosa com seus mil desvios de caráter que perpetuam a total mediocridade que assombra o nosso convívio. O estado puro, que magnetiza a forma e o gênero tem pouco valor e se esconde entre as mais variadas estações. São segmentos que transformam o longe em bonito, o maior em menor e traduzem uma enorme montanha na palma de uma das mãos. São lagoas, reflexos, tons de cores que não são apenas cores, são tons tão musicais quanto o tom de um instrumento. Afinado. Representam o maior, o mais magnífico e mais vaidoso dos artistas. Essa galeria de arte chamada mundo nos mostra obras imponentes e irrisórias com a mesma importância. Aprendi que o medo barra a entrada às vezes, como um porteiro mal-educado que não oferece maiores explicações. Diante de enigmas monstruosos que tenho e tinha, a imensidão colorida tomou conta dos meus valores, dos meus pensamentos e da minha palavra. Fiquei quieto, retinto, esperando o sol se pôr e a escuridão me trazer novamente todas as minhas aflições, medos e problemas. E, como todos os dias, ele se pôs e restabeleceu plenamente minha loucura. Ainda bem.

Whatever scene

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Sem tempo…

Cidade sem mar, mas com montanhas de neve de isopor despedaçado sob o néon amanhecido ruído de motor. A palavra amor no outdoor escrita em vermelho, dinheiro molhado de suor no bolso esquerdo trabalho, carne de baralho, fonte do desejo alheio não freia, na rua passeia e esse cão de guarda que não pára de latir a noite inteira. Lixo que não tem lixeiro na segunda-feira terça quarta quinta ou sexta-feira, lixo de domingo entupindo o bueiro, cascas de banana nas calçadas da fama, crianças para enfeitar as praças, mas não têm cama. Camelôs fugindo da sirene sob o sol a pino, o sangue da chacina escapou da jaula do jornal de hoje com a pose da sessão fashion. Cidade sem céu, mas com paisagens portáteis nas janelas das celas, nas paredes dos lares e os turistas estragando todos os lugares.

Arnaldo Antunes (grifo meu)

Whatever pee

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