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O conto dos animais gordos

Numa fúria assassina, aquele imenso animal gordo atacou ferozmente sua presa. Destrinchou pedaço por pedaço, se esbaldando nas vísceras com a cara cheia de sangue e restos mortais. Seu semblante esmaltado de satisfação traduzia fielmente a sua imensa capacidade de caça, astúcia e, por que não dizer, tesão. Compulsivamente, o bicho, escancarando a boca e mostrando os dentes, não dividia sua atenção com nenhuma outra coisa, como se tivesse na fome a sua maior angústia e ansiedade. Sentia-se o maior dos mortais, poderoso no alto do mundo, num misto de preguiça e frenesi. Saciado e farto de suas necessidades grotescas, chegou mais uma vez ao final do ritual de comer, de se esbaldar com a desgraça do outro. As pupilas dilatadas, o corpo trêmulo e a adrenalina alta tinham dado lugar à calma e a tranqüilidade. Podia mais uma vez hibernar e continuar seu ciclo vertiginoso de crescimento. Já se limpando de seu banquete, o animal rugia, exprimindo toda sua brutalidade e vigor. Respeitando a hierarquia da natureza, os filhotes observavam curiosos como podia aquele pai bonachão e carinhoso se tornar uma besta ávida por sangue na hora da refeição. Instintivamente, os seus filhotes chegaram perto para tentar se alimentar das poucas migalhas que restaram, ainda assustados pelos ferozes golpes impostos por seu pai.

Ao final, pagou a conta da churrascaria e saiu arrastando seu grande e descontrolado rabão em meio à noite, esperando a madrugada chegar, para mais uma vez, continuar seu ritual de caça. Dessa vez na cozinha de sua casa.

Whatever 7 sins.

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